Detalhe

A educação no reino de Óz

06/11/2019 | Por: Estadão | 99
Foto: ABMES/ Edgar Marra

Ao longo da minha vida como educador, observei que alguns teóricos preferem entender a educação do ponto de vista meramente cognitivo, cerebral. Para eles, educar seria dotar a mente humana de conhecimentos que propiciam uma vida melhor e mais ilustrada. É o que eu chamaria de “modelo do balde”: enchemos de pedrinhas o cérebro do aluno, até que lá não caiba mais nada. Paulo Freire, de forma crítica, chamaria esse modelo de “educação bancária”: meros depósitos mentais, sem nenhum valor a não ser a sua utilidade prática. Mas seria apenas essa a tarefa de educar? Em tempos de Inteligência Artificial, será que no futuro os algoritmos não farão esse papel?

Outros, mais sintonizados com o espírito humano, falariam que a Educação precisa também incluir o coração, mexer com os sentimentos dos alunos, faze-los aprender a gerir suas emoções, em toda a diversidade que simboliza a rica experiência humana.

A Educação, para esses, seria como um “holofote”: ativado, nosso coração iluminaria o caminho, indicando a melhor direção para levar uma vida produtiva e feliz. Mas só as emoções são suficientes para criar cidadãos no mundo de hoje? Não estaríamos confundindo nossas paixões e desejos com o que realmente importa para levar uma vida produtiva?

Eu quero falar aqui de uma terceira visão sobre a educação, uma visão complementar às outras duas, que é a educação do caráter: educar é fazer brotar no espírito dos alunos os valores que guiarão sua vida, em todas as direções. Uma educação de valores é também uma educação espiritual, fazendo-nos conectar com o que está além da mera matéria, do mero pensamento, da mera emoção. Uma educação de valores é a educação da transcendência, por excelência. Eu chamaria, a esse, o modelo “holístico” da Educação, um modelo capaz de unir mentes, corações e valores na construção de um ser humano mais completo e mais realizado.

Lembro, para ilustrar essa visão multidimensional e holística da educação, a parábola do Mágico de Óz, na célebre estória imortalizada por L. Frank Baum em seu livro do século passado, e lembrada por todos os que se encantaram pelos desafios de Dorothy na busca por si mesma.

No caminho para o Reino de Óz, Dorothy encontrou três anti-heróis: o Espantalho, o Homem de Lata, e o Leão Covarde. O Espantalho queria ter um cérebro. O Homem de Lata ansiava por um coração. E o Leão Covarde lutava para ter coragem.

A todos três faltava algo: a um, um cérebro, a outro, um coração, a um terceiro, um ímpeto de coragem. Pois aqui estão as três dimensões de uma educação verdadeiramente holística: precisamos de educadores que integrem o correto pensar, o correto sentir e, principalmente, o correto agir. Alunos precisam de cérebros fortes, mas também de corações generosos e de boas doses de coragem para transformar seus sonhos em realidade. Razão e emoção, guiadas por atitudes e valores corretos, é o que precisamos.

Somente assim poderemos desfazer os mitos do Mágico de Oz, e conquistar a plena realização que, de fato, buscamos aqui na terra, essa que chegará, na tradição judaica, com a vinda do Messias. Enquanto isso, nos cabe, como educadores, preparar o mundo, fazer o que chamamos em hebraico de Tikkun Olam, o conserto do mundo, e o caminho para isso é a Educação. Com cérebro, coração e coragem, vamos juntos construir uma educação digna do país que desejamos.


Conteúdo Relacionado

Notícias

O fim do futuro?

Estadão: Artigo do diretor presidente da ABMES, Celso Niskier, fala sobre os riscos da aprovação da "PEC Paralela", em tramitação no Senado Federal

Celso Niskier toma posse na Academia Brasileira de Educação

Diretor presidente da ABMES é agora membro efetivo na cadeira de número 20 da ABE

Novo presidente da ABMES toma posse

Correio Braziliense: Celso Niskier toma posse do cargo de diretor presidente da ABMES

Celso Niskier é o novo diretor presidente da ABMES

Eleição que o conduziu ao cargo aconteceu hoje (7), em Brasília/DF. Niskier ficará no comando da Associação até 2022