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Na pandemia, 'edtechs' assumem papel crucial para melhorar o ecossistema educacional

13/01/2022 | Por: Valor Econômico | 613

Num país continental como o Brasil, o acesso a um ensino de excelência ainda enfrenta uma série de barreiras e o isolamento social em razão da pandemia de Covid-19, com a consequente migração da sala de aula para o ambiente domiciliar, expôs desigualdades que persistem.

O papel das edtechs nesse cenário foi o tema da mesa de abertura do Palco do Conhecimento, promovido pela Editora Globo, na Rio Innovation Week, nesta quinta-feira. Participaram da discussão Marco Fisbhen, CEO e fundador do Descomplica; Claudia Costin, diretora do Centro de Políticas Educacionais da FGV; Anderson Morais, CEO do Pátio; João Leal, CEO e cofundador da Árvore, com mediação de Josy Fischberg, jornalista do Globo.

Para os palestrantes, as startups de educação têm assumido um papel crucial para melhorar o ambiente e o ecossistema educacional. Têm sido elas, desde o início da pandemia, que têm oferecido soluções a escolas nos sistemas público e privado de ensino, combinando pedagogia digital com conteúdo interativo e fomentando o acesso e interesse pela leitura.

É preciso, no entanto, ter um olhar ainda mais atento para a rede pública nesse contexto. Segundo o IBGE, com base em dados da Pnad, as escolas da rede pública atendem mais de 80% dos alunos do ensino fundamental e médio.

"Acho fundamental que se construa um caminho para a inovação na educação pública. Há um problema sério de conectividade que atrapalhou muitíssimo na resposta educacional à Covid", aponta Claudia Costin, diretora do Centro de Políticas Educacionais da FGV. "Mas a boa notícia é que aprendemos muito com a pandemia. Existem soluções que ainda não chegaram aqui e já vi chegar a outros países, como plataformas de colaboração entre professores. Além disso, é importante que os diretores aprendam a trabalhar com dados de aprendizagem. É preciso também identificar os gaps de aprendizagem de cada aluno, e direcioná-lo para aquilo que ele precisa para complementar a sua aprendizagem."

João Leal, CEO e cofundador da Árvore, acrescenta que redes públicas e privadas têm o mesmo desejo de formar bons cidadãos, mas partem de “dores diferentes” que exigem uma atuação à altura das start-ups voltadas para educação:

"Não adianta pensar numa solução ou numa edtech que só funciona para um aluno que tenha iPhone e 4G. E, para atender a educação pública, é preciso vontade e desejo de entender que é um processo demorado. Em uma escola privada, você leva entre três a quatro meses para entrar. Numa rede pública, isso pode levar dois anos."

Para Anderson Morais, CEO do Pátio e cofundador da Agenda Edu, o Brasil passa por um período próspero quando se trata do desenvolvimento de edtechs, uma vez que há mais grupos educacionais e fundos de investimentos interessados no setor. A atração de capital acelera o retorno das start-ups, que podem conseguir fôlego mais rapidamente para escalar soluções em menor tempo:

"A pandemia criou uma atmosfera que facilitou o acesso à capital e o olhar para as inovações com olhar mais proposital de diminuir as diferenças, trazendo mais escuta para o segmento, o que permite terrenos mais férteis. Agora são mais pessoas pensando junto, assim se entende o papel de cada um desses atores para fazer um negócio impactar o todo."

Na avaliação de Marco Fisbhen, CEO e fundador do Descomplica, secretários municipais e estaduais têm entendido cada vez mais o papel complementar das edtechs e dos professores no ecossistema educacional.

É preciso, nesse sentido, que start-ups saibam equilibrar melhor suas soluções e que cada ator dentro desse ambiente traga mais pessoas para pensar a educação no país:

"É muito comum numa edtech você acabar tendo muita educação, mas usar pouca tecnologia para escalar ou ao contrário: você ter muita realidade virtual, inteligência artificial e muitos algoritmos, mas pouca solidez e robustez pedagógica. (...) É preciso ter muita gente boa pensando educação. E quanto mais a gente debater e pensar, mais chamamos atenção das pessoas e mais gente vai querer trabalhar com educação."