A pressa das respostas e a perda das perguntas

Max Damas

Assessor da Presidência do SEMERJ. Assessor da Presidência da FOA (Fundação Oswaldo Aranha). Escritor e Consultor Educacional

“A inteligência artificial pode dar medo, mas temo, sobretudo, a inteligência humana superficial.” A frase de Edgar Morin, aos 104 anos, não soa como uma crítica à tecnologia. Soa como um diagnóstico. E talvez por isso incomode tanto. Ela desloca o centro da discussão: o problema não estaria prioritariamente nas máquinas, mas na qualidade do nosso próprio pensamento.

Tenho voltado a essa afirmação com frequência. Porque, se olharmos com cuidado, não foi a inteligência artificial que nos tornou superficiais. Ela apenas se instala em um ambiente que já vinha valorizando a velocidade acima da profundidade. Vivemos na lógica do imediato. A resposta rápida parece sinal de competência. A dúvida prolongada quase soa como fraqueza. A reflexão lenta é confundida com hesitação.

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Tudo está a poucos cliques: dados, relatórios, opiniões, análises. A inteligência artificial organiza, resume, sintetiza. Mas organizar não é compreender. Resumir não é interpretar. Sintetizar não é integrar.

E talvez seja exatamente aí que mora o risco.

A superficialidade não está no uso da tecnologia, mas na abdicação do esforço de pensar. Quando nos acostumamos a respostas prontas, deixamos de exercitar a formulação de perguntas mais amplas. Quando tudo pode ser resolvido em segundos, perdemos a disposição para sustentar a incerteza por mais tempo.

É curioso perceber que, quanto mais ferramentas cognitivas desenvolvemos, mais maturidade intelectual precisamos para utilizá-las com responsabilidade. Informação sem reflexão vira ruído. Velocidade sem critério vira ansiedade. Conectividade sem propósito vira dispersão.

Morin fala de uma crise do pensamento e do conhecimento. E essa crise não se resolve com mais dados, mas com mais consciência. Com maior capacidade de contextualizar, de ligar pontos, de enxergar o todo sem perder as partes. Com a disposição de aceitar que problemas complexos não admitem respostas simplistas.

Talvez o desafio do nosso tempo não seja apenas aprender a conviver com a inteligência artificial, mas reaprender a cultivar a inteligência humana. Aquela que conecta saberes, que reconhece limites, que duvida antes de afirmar. Aquela que compreende que profundidade exige tempo — e que nem toda resposta precisa ser imediata.

No fim das contas, a questão não é se as máquinas vão pensar por nós. A questão é se ainda estamos dispostos a sustentar o esforço de pensar com densidade em meio a tanta pressa.

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Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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