Os Silêncios Metacognitivos do Psicanalista e do Professor

Ronaldo Mota

Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

Pacientes de análise costumam relatar algo curioso sobre seus terapeutas: o silêncio atento com que os ouvem. Confesso ter pouco conhecimento desse campo, o das questões da mente, mas esse detalhe me chamou a atenção o suficiente para arriscar uma aproximação, por liberdade poética, com outro par que conheço um pouco mais: o educador e o educando. Faço isso ciente das enormes diferenças, particularidades e riscos de qualquer analogia entre campos tão distintos. Ainda assim, há uma zona sombreada entre os dois contextos que vale explorar.

O silêncio do analista está longe de ser uma ausência vazia. Freud, em 1912, batizou a postura de escuta ideal de atenção flutuante (“gleichschwebende Aufmerksamkeit”): o analista deveria evitar privilegiar antecipadamente qualquer conteúdo do relato, suspendendo juízos e expectativas prévias. Essa neutralidade tem uma função precisa: espelhar, do lado de quem escuta, a livre associação que se pede a quem fala, permitindo que lapsos, repetições e hesitações apareçam como índices de algo ainda não elaborado, em vez de serem corrigidos ou explicados antes da hora.

O psicanalista André Green foi além, ao descrever esse silêncio como laborioso: nele, o analista não está inerte, mas engajado em intensa elaboração associativa interna, mesmo sem verbalizá-la. Esse silêncio funciona como pano de fundo estrutural do próprio setting analítico, o cenário sobre o qual os movimentos projetivos do paciente podem se desenrolar. Mais do que se opor à interpretação, o silêncio a precede e a sustenta, criando o espaço psíquico necessário para que resistências apareçam e possam, então, ser trabalhadas. Em outras palavras, o silêncio devolve ao paciente a tarefa de organizar, articular e por vezes corrigir sua própria narrativa, em vez de a fazer por ele.

É aqui que reconheço um eco no campo educacional. Metacognição, na definição consagrada por Flavell, é a capacidade humana de monitorar e autorregular os próprios processos cognitivos, um pensamento de segunda ordem que observa e corrige o próprio pensamento. Ela se sustenta em conhecimento metacognitivo (sobre si mesmo, sobre a tarefa e sobre as estratégias disponíveis) e em um ciclo constante de monitoramento e controle, no qual o aprendiz avalia o que está fazendo e ajusta a rota. Um educador que se cala no momento certo não o faz por falta do que ensinar, mas para que esse ciclo aconteça dentro do educando, e não seja emprestado prematuramente por quem o educa.

A analogia, então, não está no conteúdo das duas relações, tão distintas em seus fundamentos (a análise, imagino, opera por mecanismos e dimensões sem equivalentes diretos na sala de aula), mas sim na função estrutural desse silêncio momentâneo como dispositivo técnico deliberado. Em ambos os casos, calar-se não é recuar, é uma decisão profissional: retirar-se no momento exato para que o outro assuma o trabalho de pensar sobre o próprio pensar. É o análogo, em outro vocabulário, ao andaime que o bom professor sabe retirar quando o aluno já pode sustentar-se sozinho, remetendo à zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky, ainda que aplicada aqui a um par distinto do par analista-paciente.

Vale a ressalva final, a mesma que abriu este texto: a diferença entre os campos é real e não deve ser dissolvida por entusiasmo analógico. Um psicanalista não é um educador, nem um bom professor substitui décadas de formação clínica. Mas ambos parecem compartilhar uma mesma aposta, quase contraintuitiva: a de que o desenvolvimento do outro nem sempre se dá pelo que dizemos a ele, mas pelo espaço que sabemos, deliberadamente, deixar em aberto.

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Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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