*Por: Carmen Tavares
O ensino superior brasileiro vive uma inflexão histórica que exige uma leitura madura, estratégica e, sobretudo, livre de simplificações ideológicas. Ao atingir mais de 10,2 milhões de matrículas, o sistema demonstra sua capacidade de expansão e adaptação. No centro desse movimento está a iniciativa privada, responsável por 79,8% dos estudantes, consolidando-se como o principal vetor de crescimento e sustentação do setor.

Esse protagonismo não é casual. Ele é resultado direto de uma postura empreendedora, visionária e, muitas vezes, contracíclica por parte dos mantenedores, que souberam interpretar com precisão as mudanças demográficas, econômicas e tecnológicas do país. Enquanto o setor público opera sob restrições orçamentárias e rigidez estrutural, a iniciativa privada demonstrou agilidade, capacidade de investimento e, principalmente, disposição para assumir riscos — características típicas de ecossistemas inovadores e indispensáveis para a expansão educacional em larga escala.
A ascensão da educação a distância (EAD) ilustra com clareza essa capacidade de antecipação. Ao estruturar modelos escaláveis, flexíveis e financeiramente viáveis, o setor privado não apenas ampliou o acesso, como também redefiniu o perfil do estudante brasileiro, incorporando milhões de adultos que estavam historicamente excluídos do ensino superior. Trata-se de uma inovação sistêmica que rompe com o paradigma tradicional de educação centrada exclusivamente na juventude e na presencialidade.
No entanto, reconhecer o mérito dessa transformação não implica ignorar suas tensões. Pelo contrário, é justamente a maturidade do setor que exige uma análise crítica mais sofisticada. A crescente concentração de matrículas em grandes grupos educacionais — fenômeno que aponta para uma estrutura oligopolizada — revela uma lógica de escala que, embora eficiente do ponto de vista econômico, levanta questionamentos sobre diversidade institucional, autonomia acadêmica e pluralidade de modelos pedagógicos.
Esse movimento de consolidação não é, em si, um problema. Em mercados complexos e intensivos em tecnologia, a concentração pode ser um vetor de eficiência, inovação e capacidade de investimento. Contudo, quando essa dinâmica reduz significativamente a competição e homogeneíza a oferta educacional, abre-se um espaço legítimo para reflexão estratégica: até que ponto a busca por escala está sendo equilibrada com a necessidade de diferenciação e qualidade acadêmica?
Outro ponto crítico reside na relação entre expansão e inclusão. Embora o sistema tenha crescido de forma expressiva, a taxa de escolarização líquida dos jovens permanece baixa, indicando que a ampliação do acesso tem ocorrido, em grande medida, pela entrada tardia de adultos, e não pela incorporação plena das novas gerações. Isso não diminui o mérito da expansão promovida pela iniciativa privada, mas evidencia limites estruturais que extrapolam a atuação dos mantenedores e demandam políticas públicas mais eficazes e integradas.
Nesse contexto, é fundamental evitar uma leitura reducionista que atribua à iniciativa privada responsabilidades que são, em essência, sistêmicas. O setor privado respondeu — e continua respondendo — com eficiência às condições do ambiente regulatório e econômico existente. A questão central, portanto, não é o modelo em si, mas o desenho do sistema como um todo, incluindo financiamento estudantil, regulação, incentivos e políticas de acesso.
Há, ainda, uma dimensão qualitativa que merece atenção. A escala alcançada pelo ensino superior privado brasileiro é, sem dúvida, uma conquista. No entanto, a sustentabilidade desse modelo no longo prazo dependerá da capacidade de avançar em qualidade percebida, empregabilidade e relevância formativa. Em um cenário de transformação acelerada do mercado de trabalho, marcado por automação, inteligência artificial e novas competências, a educação superior não pode se limitar à expansão quantitativa — ela precisa se reposicionar como agente central de formação estratégica para o futuro.
Diante disso, o papel dos mantenedores ganha uma nova densidade. Não se trata apenas de operar instituições de ensino, mas de liderar um setor que está no centro do desenvolvimento econômico e social do país. Isso exige visão de longo prazo, capacidade de inovação contínua e, sobretudo, compromisso com a construção de um ecossistema educacional mais equilibrado, diverso e sustentável.
Em síntese, a iniciativa privada foi — e continua sendo — a grande responsável por viabilizar a expansão do ensino superior no Brasil. Sua atuação empreendedora, ousada e visionária merece reconhecimento. Contudo, exatamente por ocupar essa posição central, o setor também é chamado a liderar o próximo ciclo de transformação: aquele que transcende a expansão e se orienta pela qualificação, pela inclusão efetiva e pela construção de valor educacional duradouro.
O desafio, portanto, não é reduzir o papel da iniciativa privada, mas elevá-lo. Transformar escala em excelência, eficiência em diferenciação e crescimento em impacto real. Esse é o movimento que definirá não apenas o futuro das instituições, mas o próprio papel do ensino superior no Brasil contemporâneo.
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*Maria Carmen Tavares Christóvão é Mestre em Gestão da Inovação com área de pesquisa em Inovação Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inovação Educacional, atuou como Reitora, Pró Reitora e Diretora de Instituições de Ensino de diversos portes e regiões no Brasil.




