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Por: Carmen Tavares

A formação negligenciada em ciência e tecnologia no Brasil

<p style="text-align: justify;">O ensino superior brasileiro enfrenta um desafio profundo e estrutural: sua incapacidade de formar, de maneira consistente, profissionais qualificados nas &aacute;reas de ci&ecirc;ncia, tecnologia e matem&aacute;tica. Embora o discurso pol&iacute;tico e institucional enfatize a import&acirc;ncia da inova&ccedil;&atilde;o, a pr&aacute;tica pedag&oacute;gica nas universidades continua distanciada das exig&ecirc;ncias t&eacute;cnicas do s&eacute;culo XXI. Dois estudos publicados em 2025 revelam, com clareza, a extens&atilde;o desse descompasso.</p>

<p style="text-align: justify;">O primeiro deles, intitulado &ldquo;<em>Assessing Simulation Knowledge and Proficiency Among Undergraduate Computing Students in Brazil</em>&rdquo;, publicado em fevereiro de 2025, investigou o grau de familiaridade dos estudantes de computa&ccedil;&atilde;o com ferramentas de simula&ccedil;&atilde;o &mdash; um recurso amplamente utilizado para modelagem, teste e otimiza&ccedil;&atilde;o de sistemas complexos. O resultado &eacute; alarmante: dos 108 estudantes entrevistados, apenas 19 relataram ter tido contato relevante com simula&ccedil;&atilde;o ao longo da gradua&ccedil;&atilde;o. Essa aus&ecirc;ncia revela n&atilde;o uma falha pontual, mas uma lacuna institucionalizada na forma&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica em &aacute;reas estrat&eacute;gicas.</p>

<p style="text-align: justify;">J&aacute; o segundo estudo, &ldquo;<em>Programming in Brazilian Higher Education and High School: A Systematic Literature Review</em>&rdquo;, publicado em janeiro de 2025, mapeou o ensino de programa&ccedil;&atilde;o nas escolas e universidades brasileiras. A revis&atilde;o aponta para uma grave aus&ecirc;ncia de padroniza&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o existe uma trajet&oacute;ria curricular coesa que integre o pensamento computacional desde os n&iacute;veis b&aacute;sicos at&eacute; o superior. As pr&aacute;ticas pedag&oacute;gicas s&atilde;o dispersas, metodologicamente fr&aacute;geis e dependem do empenho isolado de alguns educadores. Em muitos casos, o dom&iacute;nio da programa&ccedil;&atilde;o &eacute; deixado &agrave; iniciativa individual do estudante, o que agrava as desigualdades de aprendizagem.</p>

<p style="text-align: justify;">Esses dois estudos evidenciam um problema de fundo: o ensino superior continua preso a uma l&oacute;gica conteudista e te&oacute;rica, que desvaloriza o saber aplicado e a experimenta&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. Em cursos voltados &agrave; computa&ccedil;&atilde;o e engenharia, frequentemente observa-se uma &ecirc;nfase desproporcional em matem&aacute;tica abstrata, dissociada de contextos pr&aacute;ticos. Ferramentas como simula&ccedil;&atilde;o, prototipagem e desenvolvimento orientado a problemas &mdash; comuns em institui&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas internacionais &mdash; permanecem raras no Brasil.</p>

<p style="text-align: justify;">Essa desconex&atilde;o traz consequ&ecirc;ncias graves. Em primeiro lugar, compromete a empregabilidade dos egressos, que saem da universidade sem dom&iacute;nio de instrumentos exigidos pelo mercado. Em segundo, fragiliza a capacidade nacional de inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, pois sem forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica s&oacute;lida n&atilde;o h&aacute; pesquisa aplicada de qualidade. Por fim, perpetua a evas&atilde;o em cursos t&eacute;cnicos, uma vez que os estudantes n&atilde;o percebem sentido ou utilidade pr&aacute;tica na forma&ccedil;&atilde;o recebida.</p>

<p style="text-align: justify;">&Eacute; urgente, portanto, repensar a arquitetura da forma&ccedil;&atilde;o superior brasileira. Integrar o ensino de simula&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o de forma estruturada, cont&iacute;nua e interdisciplinar n&atilde;o &eacute; mais uma op&ccedil;&atilde;o &mdash; &eacute; uma necessidade. A universidade precisa se tornar um espa&ccedil;o de experimenta&ccedil;&atilde;o e resolu&ccedil;&atilde;o de problemas reais, e n&atilde;o apenas de memoriza&ccedil;&atilde;o de teorias. Para isso, s&atilde;o indispens&aacute;veis pol&iacute;ticas institucionais de apoio &agrave; atualiza&ccedil;&atilde;o docente, flexibiliza&ccedil;&atilde;o curricular e investimento em infraestrutura laboratorial.</p>

<p style="text-align: justify;">Os artigos de 2025 n&atilde;o apenas denunciam a fal&ecirc;ncia do modelo atual &mdash; eles oferecem uma base concreta para a&ccedil;&atilde;o. A integra&ccedil;&atilde;o do pensamento computacional &agrave; educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica e a inser&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica de pr&aacute;ticas como simula&ccedil;&atilde;o no ensino superior s&atilde;o passos cruciais para alinhar o Brasil &agrave;s exig&ecirc;ncias da sociedade digital. Ignorar esse diagn&oacute;stico seria n&atilde;o apenas uma neglig&ecirc;ncia educacional, mas um erro estrat&eacute;gico de propor&ccedil;&otilde;es nacionais.</p>

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