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Por: Carmen Tavares

A matemática como motor da competitividade

<p>A Folha de S.Paulo publicou recentemente o artigo &ldquo;Matem&aacute;tica como pol&iacute;tica de Estado&rdquo;, assinado por Katia Smole e Laura Ang&eacute;lica, especialistas em educa&ccedil;&atilde;o e representantes do Instituto Re&uacute;na. O texto lan&ccedil;a luz sobre uma quest&atilde;o que ultrapassa os limites da sala de aula: o d&eacute;ficit em matem&aacute;tica no Brasil deixou de ser um problema pedag&oacute;gico e tornou-se um desafio estrutural de competitividade e desenvolvimento econ&ocirc;mico.</p>

<p>As autoras alertam que 51% das crian&ccedil;as do 4&ordm; ano do ensino fundamental n&atilde;o atingem o n&iacute;vel b&aacute;sico de profici&ecirc;ncia em matem&aacute;tica, e que esse percentual chega a 62% no 8&ordm; ano. Esses n&uacute;meros revelam uma fragilidade que afeta a produtividade, a inova&ccedil;&atilde;o e a capacidade do pa&iacute;s de formar profissionais para as demandas da nova economia digital. A defasagem matem&aacute;tica, acumulada desde os primeiros anos escolares, cria uma barreira silenciosa &agrave; ascens&atilde;o social e perpetua desigualdades econ&ocirc;micas.</p>

<p>Segundo estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada) citado no artigo, profissionais com maior dom&iacute;nio matem&aacute;tico podem receber at&eacute; 85% a mais do que aqueles com menor exig&ecirc;ncia num&eacute;rica em suas fun&ccedil;&otilde;es. Esse dado transforma a matem&aacute;tica em um ativo econ&ocirc;mico: o grau de alfabetiza&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica de uma popula&ccedil;&atilde;o &eacute; diretamente proporcional &agrave; sua capacidade de gerar inova&ccedil;&atilde;o, produtividade e riqueza.</p>

<p>Smole e Ang&eacute;lica defendem que a matem&aacute;tica precisa ser tratada como infraestrutura de Estado, e n&atilde;o apenas como disciplina curricular. Da mesma forma que energia, saneamento e conectividade s&atilde;o elementos estruturais do desenvolvimento, o dom&iacute;nio matem&aacute;tico deve ser visto como condi&ccedil;&atilde;o essencial para o crescimento sustent&aacute;vel e a competitividade nacional.</p>

<p>A discuss&atilde;o ganha relev&acirc;ncia no contexto da tramita&ccedil;&atilde;o do novo Plano Nacional de Educa&ccedil;&atilde;o (PNE). As autoras argumentam que o plano, se quiser ser efetivo, precisa estabelecer metas mensur&aacute;veis de aprendizagem em matem&aacute;tica desde os primeiros anos da educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica. Hoje, o foco excessivo na alfabetiza&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica deixa um vazio formativo que compromete o racioc&iacute;nio l&oacute;gico, a capacidade anal&iacute;tica e a autonomia intelectual do estudante.</p>

<p>Nas institui&ccedil;&otilde;es de educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, a matem&aacute;tica deve ser tratada como o alicerce do pensamento cr&iacute;tico e da resolu&ccedil;&atilde;o de problemas. N&atilde;o se trata apenas de ensinar opera&ccedil;&otilde;es num&eacute;ricas, mas de desenvolver a compet&ecirc;ncia de pensar com base em evid&ecirc;ncias, interpretar dados e tomar decis&otilde;es fundamentadas.</p>

<p>As escolas precisam adotar pr&aacute;ticas pedag&oacute;gicas que transformem a matem&aacute;tica em linguagem cotidiana &mdash; parte do modo como o aluno compreende o mundo. Isso envolve:</p>

<p>&nbsp;</p>

<ul>
<li>Forma&ccedil;&atilde;o continuada de professores voltada &agrave; alfabetiza&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica e &agrave; aplica&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica do conhecimento;</li>
<li>Avalia&ccedil;&otilde;es diagn&oacute;sticas peri&oacute;dicas que permitam identificar e corrigir lacunas de aprendizagem precocemente;</li>
<li>Integra&ccedil;&atilde;o interdisciplinar, conectando a matem&aacute;tica &agrave;s ci&ecirc;ncias, &agrave; tecnologia, &agrave; economia e &agrave; vida real;</li>
<li>Uso de tecnologias educacionais adaptativas, que personalizem o ritmo de aprendizado e estimulem o engajamento;</li>
<li>Desenvolvimento de projetos de aprendizagem baseados em problemas reais, aproximando o racioc&iacute;nio l&oacute;gico da experi&ecirc;ncia cotidiana.</li>
</ul>

<p>&nbsp;</p>

<p>A alfabetiza&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica deve ser encarada como estrat&eacute;gia de inclus&atilde;o e competitividade nacional. Um pa&iacute;s que n&atilde;o ensina seus jovens a lidar com n&uacute;meros reduz drasticamente sua capacidade de planejar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, gerar inova&ccedil;&atilde;o e sustentar sua economia do conhecimento.</p>

<p>O ensino superior, especialmente as universidades formadoras de professores, ocupa posi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica nessa transforma&ccedil;&atilde;o. A forma&ccedil;&atilde;o inicial e continuada dos educadores precisa ser reposicionada para atender &agrave;s demandas da sociedade digital, em que dados, algoritmos e racioc&iacute;nio l&oacute;gico tornaram-se habilidades centrais.</p>

<ul>
<li>Forma&ccedil;&atilde;o docente baseada em evid&ecirc;ncias: as licenciaturas devem preparar o futuro professor para compreender como os alunos aprendem matem&aacute;tica, utilizando metodologias ativas, abordagens interdisciplinares e avalia&ccedil;&atilde;o formativa.</li>
<li>Pesquisa aplicada &agrave; pr&aacute;tica pedag&oacute;gica: universidades devem investir em laborat&oacute;rios de inova&ccedil;&atilde;o educacional e projetos-piloto em redes p&uacute;blicas, testando solu&ccedil;&otilde;es baseadas em dados e intelig&ecirc;ncia artificial para personaliza&ccedil;&atilde;o do ensino.</li>
<li>Parcerias institucionais: &eacute; essencial criar pontes entre universidades, governos e empresas para desenvolver programas de alfabetiza&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica regionalizados e sustent&aacute;veis.</li>
<li><em>Advocacy </em>e formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas: as institui&ccedil;&otilde;es de ensino superior devem ocupar um papel ativo no debate p&uacute;blico, subsidiando pol&iacute;ticas educacionais com dados cient&iacute;ficos e evid&ecirc;ncias de impacto.</li>
</ul>

<p>O ensino superior, ao produzir conhecimento e formar profissionais, tem o dever de liderar o processo de transforma&ccedil;&atilde;o educacional. Isso inclui repensar o curr&iacute;culo, integrar tecnologia e promover uma cultura de aprendizagem cont&iacute;nua que se estenda a toda a rede educacional.</p>

<p>O d&eacute;ficit matem&aacute;tico brasileiro compromete diretamente a produtividade nacional e a inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. Empresas de base digital, engenharia, sa&uacute;de e finan&ccedil;as dependem de profissionais capazes de interpretar dados, modelar cen&aacute;rios e resolver problemas complexos. Sem uma base s&oacute;lida de racioc&iacute;nio l&oacute;gico, o pa&iacute;s se torna dependente de tecnologias importadas e perde espa&ccedil;o na economia global.</p>

<p>Investir em matem&aacute;tica, portanto, &eacute; investir em capital humano e soberania tecnol&oacute;gica. &Eacute; garantir que o Brasil tenha as compet&ecirc;ncias necess&aacute;rias para conduzir sua reindustrializa&ccedil;&atilde;o, transi&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica e economia verde de forma aut&ocirc;noma e sustent&aacute;vel.</p>

<p>Nenhum avan&ccedil;o ser&aacute; poss&iacute;vel sem articula&ccedil;&atilde;o entre a educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica e o ensino superior. A primeira &eacute; o campo da implementa&ccedil;&atilde;o &mdash; onde se formam as bases cognitivas e atitudinais. O segundo &eacute; o campo da sustenta&ccedil;&atilde;o &mdash; onde se constroem as pol&iacute;ticas, metodologias e tecnologias de apoio.</p>

<p>Essa integra&ccedil;&atilde;o exige planejamento conjunto, metas compartilhadas e sistemas de acompanhamento de resultados. &Eacute; preciso estabelecer ecossistemas de aprendizagem conectados, em que universidades atuem como centros de intelig&ecirc;ncia educacional para as redes de ensino.</p>

<p>A reportagem da Folha de S&atilde;o Paulo, evidencia que a matem&aacute;tica deve ser tratada como pol&iacute;tica de Estado e instrumento de competitividade nacional. A crise educacional brasileira n&atilde;o &eacute; apenas de aprendizagem; &eacute; uma crise de desenvolvimento.</p>

<p>Super&aacute;-la requer a&ccedil;&atilde;o coordenada entre escolas, universidades, setor produtivo e governo. A alfabetiza&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica deve deixar de ser um desafio escolar e se tornar uma agenda estrat&eacute;gica de pa&iacute;s.</p>

<p>Educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica e ensino superior, cada um em seu n&iacute;vel, s&atilde;o pe&ccedil;as de um mesmo tabuleiro: formar cidad&atilde;os e profissionais capazes de pensar, criar e inovar.</p>

<p>A matem&aacute;tica, quando vista como infraestrutura social e econ&ocirc;mica, torna-se o ponto de partida para um Brasil mais produtivo, inclusivo e competitivo.</p>

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