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Por: Carmen Tavares

A tecnologia a serviço do humano: o desafio da educação no século XXI

<p align="right"><em>&ldquo;A tecnologia pode nos aproximar de tudo, menos de n&oacute;s mesmos.&rdquo; &mdash; Zygmunt Baumann</em></p>

<p style="text-align: justify;">No cora&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XXI, as institui&ccedil;&otilde;es de ensino se veem diante de uma inquietante contradi&ccedil;&atilde;o: enquanto as tecnologias digitais alcan&ccedil;am patamares inimagin&aacute;veis de sofistica&ccedil;&atilde;o e penetra&ccedil;&atilde;o, a experi&ecirc;ncia formativa parece se esvaziar de sentido, afeto e presen&ccedil;a. A promessa de uma educa&ccedil;&atilde;o mais acess&iacute;vel, personalizada e eficiente convive com os sintomas de uma desumaniza&ccedil;&atilde;o silenciosa &mdash; a transforma&ccedil;&atilde;o do estudante em dado, do professor em operador de sistemas, e da aprendizagem em mera entrega de conte&uacute;dos.</p>

<p style="text-align: justify;">Essa realidade exige mais do que adapta&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas; demanda um enfrentamento &eacute;tico, filos&oacute;fico e pedag&oacute;gico. Como formar seres humanos em ambientes cada vez mais mediados por telas, m&eacute;tricas e automatismos? Como preservar a complexidade da experi&ecirc;ncia educacional quando tudo ao redor parece convergir para a l&oacute;gica da performance, da velocidade e da mensura&ccedil;&atilde;o? A resposta n&atilde;o est&aacute; na rejei&ccedil;&atilde;o da tecnologia, mas na sua ressignifica&ccedil;&atilde;o &mdash; em reconhecer que o digital n&atilde;o &eacute; neutro e que seu uso deve ser submetido &agrave; pergunta fundamental: &ldquo;para quem e com que finalidade educamos?&rdquo;</p>

<p style="text-align: justify;">Zygmunt Bauman, soci&oacute;logo polon&ecirc;s que dissecou como poucos a fluidez da modernidade tardia, afirma que a tecnologia encurta dist&acirc;ncias, mas n&atilde;o supre aus&ecirc;ncias. Essa aus&ecirc;ncia &mdash; de escuta, de v&iacute;nculo, de corporeidade, de conviv&ecirc;ncia significativa &mdash; &eacute; o sintoma mais eloquente da crise educacional contempor&acirc;nea. E &eacute; nesse cen&aacute;rio que vozes cl&aacute;ssicas e contempor&acirc;neas se erguem como b&uacute;ssolas para uma travessia mais consciente.</p>

<p style="text-align: justify;">Charles Spurgeon, pensador do s&eacute;culo XIX, embora situado em outro tempo e vocabul&aacute;rio, j&aacute; alertava contra uma pedagogia que produz &ldquo;t&eacute;cnicos bem treinados e cora&ccedil;&otilde;es vazios&rdquo;. Para ele, toda instru&ccedil;&atilde;o que ignora o desenvolvimento do car&aacute;ter humano caminha para a irrelev&acirc;ncia social. Suas palavras encontram eco hoje nas universidades que, obcecadas por indicadores e rankings, correm o risco de educar para a efici&ecirc;ncia, mas n&atilde;o para a humanidade.</p>

<p style="text-align: justify;">Heber Campos Jr., pensador brasileiro contempor&acirc;neo, refor&ccedil;a que n&atilde;o existe forma&ccedil;&atilde;o neutra: todo curr&iacute;culo molda uma vis&atilde;o de mundo. Nesse sentido, a educa&ccedil;&atilde;o deve ser sempre integral, considerando o ser humano como unidade de raz&atilde;o, vontade e sensibilidade. Em sua cr&iacute;tica &agrave; fragmenta&ccedil;&atilde;o do saber, Campos Jr. prop&otilde;e que a tecnologia seja ferramenta e n&atilde;o fim, ponte e n&atilde;o destino. Um sistema educacional que terceiriza v&iacute;nculos &agrave; intelig&ecirc;ncia artificial ou reduz o aprendizado a trilhas automatizadas, trai a sua pr&oacute;pria raz&atilde;o de ser.</p>

<p style="text-align: justify;">Art Katz, com sua cr&iacute;tica incisiva aos sistemas que domesticam consci&ecirc;ncias e formatam indiv&iacute;duos para o consumo, argumenta que toda verdadeira transforma&ccedil;&atilde;o educacional passa por confrontar estruturas que despersonalizam. Sua provoca&ccedil;&atilde;o adquire contornos ainda mais dram&aacute;ticos no atual contexto de plataformas que medem engajamento por cliques e evas&atilde;o por inatividade digital. A pergunta que se imp&otilde;e n&atilde;o &eacute; quantos acessaram o conte&uacute;do, mas quantos foram, de fato, tocados por ele.</p>

<p style="text-align: justify;">Nesse esfor&ccedil;o de reconex&atilde;o com a dimens&atilde;o humana do ensino, Dietrich Bonhoeffer oferece um horizonte promissor. Para ele, a vida comunit&aacute;ria n&atilde;o &eacute; um luxo da sociedade, mas condi&ccedil;&atilde;o para a exist&ecirc;ncia &eacute;tica. Aplicado ao universo educacional, esse princ&iacute;pio exige que os ambientes formativos &mdash; presenciais ou virtuais &mdash; sejam constru&iacute;dos com intencionalidade relacional. Isso implica pensar a tecnologia como meio de intensificar a escuta, fomentar a coopera&ccedil;&atilde;o e criar espa&ccedil;os de alteridade, e n&atilde;o de anonimato.</p>

<p style="text-align: justify;">As inquieta&ccedil;&otilde;es desses autores dialogam com o pensamento cr&iacute;tico de Byung-Chul Han, fil&oacute;sofo sul-coreano radicado na Alemanha, que denuncia a coloniza&ccedil;&atilde;o da vida pelo excesso de positividade e dados. Para Han, a sociedade do desempenho, obcecada por m&eacute;tricas, elimina o outro como obst&aacute;culo e dissolve a alteridade no espelho narc&iacute;sico da autoimagem. O sujeito contempor&acirc;neo n&atilde;o se forma, se projeta &mdash; e isso tamb&eacute;m tem implica&ccedil;&otilde;es devastadoras para a educa&ccedil;&atilde;o. A universidade que abdica da forma&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica e da escuta do outro, ainda que tecnologicamente avan&ccedil;ada, forma indiv&iacute;duos hiper tecnol&oacute;gicos e emocionalmente fr&aacute;geis.</p>

<p style="text-align: justify;">&Eacute; nesse terreno tenso e f&eacute;rtil que se inscreve a ideia de humaniza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. N&atilde;o se trata de estetizar a interface, adicionar emoticons a plataformas ou gamificar o processo educativo. Trata-se de uma reformula&ccedil;&atilde;o profunda dos pressupostos da educa&ccedil;&atilde;o digital: do design centrado na pessoa &agrave; pedagogia da presen&ccedil;a; da intelig&ecirc;ncia artificial &agrave; intelig&ecirc;ncia relacional; da cultura do controle &agrave; cultura do cuidado.</p>

<p style="text-align: justify;">Essa nova abordagem exige um deslocamento epistemol&oacute;gico: deixar de ver o estudante como consumidor de conte&uacute;do e passar a consider&aacute;-lo sujeito em forma&ccedil;&atilde;o integral. Isso envolve desenvolver metodologias que conciliem personaliza&ccedil;&atilde;o com alteridade, autonomia com media&ccedil;&atilde;o, flexibilidade com responsabilidade. Significa, tamb&eacute;m, reconhecer que nem tudo que pode ser automatizado deve s&ecirc;-lo &mdash; sobretudo aquilo que envolve escuta, decis&atilde;o &eacute;tica e v&iacute;nculo humano.</p>

<p style="text-align: justify;">As experi&ecirc;ncias mais inovadoras nesse sentido n&atilde;o s&atilde;o necessariamente as mais high-tech, mas aquelas que recuperam o sentido da presen&ccedil;a, mesmo em ambientes digitais. Algumas universidades t&ecirc;m criado espa&ccedil;os virtuais de escuta ativa, onde tutores identificam, pelas entrelinhas de f&oacute;runs e chats, os sinais de cansa&ccedil;o emocional. Outras investem em mentorias h&iacute;bridas que combinam intelig&ecirc;ncia artificial para personaliza&ccedil;&atilde;o com encontros reais que fortalecem o v&iacute;nculo. Em todas elas, o elemento comum &eacute; a convic&ccedil;&atilde;o de que a tecnologia deve servir ao humano, e n&atilde;o o contr&aacute;rio.</p>

<p style="text-align: justify;">H&aacute; ainda o desafio de formar professores para esse novo horizonte. N&atilde;o basta capacit&aacute;-los tecnicamente; &eacute; preciso reconstruir seu papel como mediadores de sentido, curadores do conhecimento e agentes de cuidado. A educa&ccedil;&atilde;o do futuro ser&aacute; t&atilde;o forte quanto a sensibilidade de seus educadores &mdash; e isso n&atilde;o se compra em pacotes de software.</p>

<p style="text-align: justify;">Por fim, cabe uma advert&ecirc;ncia: a tecnologia, por sua pr&oacute;pria l&oacute;gica, tende &agrave; expans&atilde;o irrestrita. Se n&atilde;o for questionada, ela ocupar&aacute; todos os espa&ccedil;os, inclusive os que deveriam ser habitados pelo sil&ecirc;ncio, pela escuta, pelo pensamento lento. A universidade do futuro &mdash; se quiser ser ainda humana &mdash; ter&aacute; que ser tamb&eacute;m espa&ccedil;o de resist&ecirc;ncia: contra a pressa, contra a padroniza&ccedil;&atilde;o, contra a desaten&ccedil;&atilde;o.</p>

<p style="text-align: justify;">Como lembra uma m&aacute;xima atribu&iacute;da a Bonhoeffer, &ldquo;a prova de uma comunidade est&aacute; em como ela trata os seus mais fr&aacute;geis&rdquo;. No caso da universidade, isso se traduz em como ela cuida dos que aprendem com mais lentid&atilde;o, dos que n&atilde;o se adaptam ao ritmo digital, dos que t&ecirc;m mais perguntas que respostas. &Eacute; nesse cuidado que se revela a grandeza de uma institui&ccedil;&atilde;o.</p>

<p style="text-align: justify;">No fim das contas, o verdadeiro teste da tecnologia n&atilde;o &eacute; sua efici&ecirc;ncia, mas sua capacidade de preservar &mdash; e at&eacute; potencializar &mdash; aquilo que nos torna humanos. E, para isso, o algoritmo precisa aprender a abra&ccedil;ar.</p>

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