Pular para o conteúdo

Para o termo exato, use aspas. Ex.: “44 anos”

Por: Carmen Tavares

A Universidade como Hub de Inovação e Negócios

<p>Por: Carmen Tavares*</p>

<p>A interdepend&ecirc;ncia entre ecossistema empreendedor e cultura empreendedora nas universidades tornou-se uma das quest&otilde;es centrais para compreender o futuro do ensino superior. N&atilde;o se trata apenas de incluir a palavra inova&ccedil;&atilde;o no planejamento institucional, nem de criar eventos pontuais sobre empreendedorismo. Trata-se de estruturar uma cultura acad&ecirc;mica capaz de transformar conhecimento em valor social, econ&ocirc;mico, tecnol&oacute;gico e humano. O ecossistema empreendedor corresponde ao conjunto de estruturas, pol&iacute;ticas, redes, laborat&oacute;rios, ambientes de inova&ccedil;&atilde;o, mecanismos de fomento, parcerias e atores que permitem que a inova&ccedil;&atilde;o aconte&ccedil;a. A cultura empreendedora, por sua vez, &eacute; a mentalidade institucional que valoriza criatividade, autonomia, iniciativa, coopera&ccedil;&atilde;o, pesquisa aplicada, risco calculado e capacidade de resolver problemas reais.</p>

<p>Nas universidades inovadoras, o conhecimento n&atilde;o permanece restrito &agrave; sala de aula ou aos peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos. Ele circula, dialoga com a sociedade, aproxima-se do mercado, alimenta pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, inspira novos neg&oacute;cios e responde a desafios concretos. Nas universidades tradicionais, o conhecimento tende a permanecer mais fechado em estruturas curriculares r&iacute;gidas, com menor integra&ccedil;&atilde;o entre ensino, pesquisa, extens&atilde;o, empresas, governo e sociedade civil. A diferen&ccedil;a central n&atilde;o est&aacute; apenas na tecnologia, mas na capacidade institucional de transformar ci&ecirc;ncia em impacto.</p>

<p>&Eacute; importante reconhecer que, no Brasil, a inova&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria ainda &eacute; mais vis&iacute;vel nas universidades p&uacute;blicas, sobretudo pela presen&ccedil;a hist&oacute;rica de pesquisa, p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, laborat&oacute;rios, grupos cient&iacute;ficos e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de fomento. Entretanto, h&aacute; iniciativas consistentes nas institui&ccedil;&otilde;es privadas de ensino superior. O Insper, com sua atua&ccedil;&atilde;o em inova&ccedil;&atilde;o, empreendedorismo, pesquisa aplicada e resolu&ccedil;&atilde;o de problemas reais, &eacute; um exemplo relevante. A PUCRS, por meio do Tecnopuc, tamb&eacute;m se destaca como &iacute;cone de inova&ccedil;&atilde;o ao articular universidade, empresas, startups, governo e pesquisa em um ecossistema de inova&ccedil;&atilde;o aberta.</p>

<p>Os dados internacionais refor&ccedil;am essa dire&ccedil;&atilde;o. O Global Entrepreneurship Monitor, ligado historicamente a Babson College e a outras institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa, tornou-se uma das principais refer&ecirc;ncias mundiais sobre empreendedorismo. Em seu ciclo global 2025/2026, reuniu dados de mais de 160 mil entrevistas em 53 economias, consolidando 27 anos de acompanhamento sobre atividade empreendedora, percep&ccedil;&otilde;es sociais, ambiente institucional e condi&ccedil;&otilde;es de desenvolvimento dos ecossistemas. O relat&oacute;rio norte-americano 2024/2025 indicou que a atividade empreendedora total nos Estados Unidos atingiu 19% da popula&ccedil;&atilde;o adulta, percentual que expressa forte dinamismo na cria&ccedil;&atilde;o e condu&ccedil;&atilde;o de novos neg&oacute;cios.</p>

<p>Babson College &eacute; um caso emblem&aacute;tico porque n&atilde;o trata o empreendedorismo como disciplina isolada, mas como cultura institucional. Sua metodologia de Entrepreneurial Thought &amp; Action procura formar pessoas capazes de agir diante da incerteza, aprender pela pr&aacute;tica, testar hip&oacute;teses e criar valor. A experi&ecirc;ncia de Babson demonstra que a educa&ccedil;&atilde;o empreendedora n&atilde;o se limita &agrave; abertura de empresas; ela desenvolve atitude, julgamento, capacidade de decis&atilde;o e protagonismo. O estudante &eacute; levado a experimentar problemas reais, criar solu&ccedil;&otilde;es, lidar com riscos, aprender com resultados e compreender que empreender &eacute; tamb&eacute;m uma forma de pensar e agir no mundo.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>O MIT oferece outro exemplo expressivo da passagem da pesquisa para a pr&aacute;tica. Estudo institucional aponta mais de 30 mil empresas ativas fundadas por ex-alunos, respons&aacute;veis por 4,6 milh&otilde;es de empregos e receitas anuais estimadas em US$ 1,9 trilh&atilde;o. Esses n&uacute;meros demonstram que uma universidade de ponta n&atilde;o apenas forma profissionais altamente qualificados, mas cria um ambiente capaz de gerar empresas, tecnologias, empregos, cadeias produtivas e desenvolvimento econ&ocirc;mico. O MIT tamb&eacute;m re&uacute;ne dezenas de centros, programas, competi&ccedil;&otilde;es, pr&ecirc;mios, hackathons e grupos estudantis voltados &agrave; inova&ccedil;&atilde;o e ao empreendedorismo. Na pr&aacute;tica, isso significa que a cultura empreendedora &eacute; sustentada por um ecossistema institucional permanente.</p>

<p>Stanford, por sua vez, consolidou uma das experi&ecirc;ncias mais conhecidas de transfer&ecirc;ncia de tecnologia. Seu Office of Technology Licensing orienta pesquisadores na prote&ccedil;&atilde;o de inven&ccedil;&otilde;es, licenciamento de tecnologias e aproxima&ccedil;&atilde;o com empresas e startups. A l&oacute;gica &eacute; clara: a universidade produz conhecimento, mas tamb&eacute;m cria caminhos para que esse conhecimento chegue ao mercado e &agrave; sociedade. Nesse modelo, a pesquisa acad&ecirc;mica ganha uma rota institucional para se transformar em produto, processo, servi&ccedil;o, patente, empresa ou solu&ccedil;&atilde;o socialmente relevante.</p>

<p>Na Europa, Cambridge demonstra como tradi&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o podem coexistir. A Cambridge Enterprise atua na tradu&ccedil;&atilde;o da pesquisa universit&aacute;ria em impacto econ&ocirc;mico e social. Em 2024, distribuiu &pound;12,6 milh&otilde;es em retornos &agrave; universidade, departamentos e pesquisadores principais, recursos que podem ser reinvestidos no pr&oacute;prio ecossistema. Esse dado revela uma l&oacute;gica virtuosa: a pesquisa gera inova&ccedil;&atilde;o, a inova&ccedil;&atilde;o gera retorno, e o retorno alimenta novas pesquisas. Assim, a universidade deixa de ser apenas centro de ensino e passa a operar como plataforma de desenvolvimento cient&iacute;fico, tecnol&oacute;gico e econ&ocirc;mico.</p>

<p>A Universidade Aalto, na Finl&acirc;ndia, apresenta uma dimens&atilde;o igualmente relevante: a for&ccedil;a da cultura empreendedora estudantil. Iniciativas como Startup Sauna, Aaltoes, Slush e Junction mostram que o empreendedorismo universit&aacute;rio n&atilde;o precisa nascer apenas da gest&atilde;o superior. Ele pode emergir dos pr&oacute;prios estudantes, desde que a institui&ccedil;&atilde;o ofere&ccedil;a liberdade, espa&ccedil;os colaborativos, mentoria, redes e abertura para experimenta&ccedil;&atilde;o. Nesse caso, a cultura empreendedora &eacute; vivida como comunidade, e n&atilde;o apenas como conte&uacute;do curricular.</p>

<p>No Brasil, a USP representa uma experi&ecirc;ncia p&uacute;blica importante, especialmente por meio da Ag&ecirc;ncia USP de Inova&ccedil;&atilde;o. Sua atua&ccedil;&atilde;o envolve empreendedorismo, propriedade intelectual, transfer&ecirc;ncia de tecnologia, capacita&ccedil;&atilde;o e aproxima&ccedil;&atilde;o com empresas e governo. A Unicamp tamb&eacute;m &eacute; refer&ecirc;ncia, sobretudo pelo ecossistema de empresas-filhas, que demonstra como alunos, ex-alunos, pesquisadores e empreendedores vinculados &agrave; universidade podem transformar conhecimento acad&ecirc;mico em empresas, empregos qualificados e solu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas.</p>

<p>O PIPE-FAPESP &eacute; outro exemplo fundamental de coopera&ccedil;&atilde;o intersetorial. Ao financiar pesquisa inovadora em pequenas empresas, o programa aproxima universidade, empresa, pesquisador e pol&iacute;tica p&uacute;blica. Essa articula&ccedil;&atilde;o mostra que a inova&ccedil;&atilde;o depende de um ambiente sist&ecirc;mico: boas ideias precisam de m&eacute;todo cient&iacute;fico, financiamento, avalia&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, conex&atilde;o com o mercado e capacidade de execu&ccedil;&atilde;o.</p>

<p>Nas institui&ccedil;&otilde;es privadas brasileiras, o Insper tem se destacado pela articula&ccedil;&atilde;o entre inova&ccedil;&atilde;o, empreendedorismo, gest&atilde;o, tecnologia e problemas reais. A institui&ccedil;&atilde;o levou 12 startups ao Web Summit Rio 2025 por meio do Hub de Inova&ccedil;&atilde;o e Empreendedorismo Paulo Cunha, o que demonstra uma pr&aacute;tica concreta de internacionaliza&ccedil;&atilde;o e conex&atilde;o com o ecossistema global. A PUCRS, por meio do Tecnopuc, tamb&eacute;m ocupa posi&ccedil;&atilde;o relevante. O parque tecnol&oacute;gico informa apoio a mais de 300 startups e mais de 150 conex&otilde;es com ambientes de inova&ccedil;&atilde;o no Brasil e no exterior, evidenciando a universidade como espa&ccedil;o de converg&ecirc;ncia entre pesquisa, empresas, governo e sociedade.</p>

<p>Esses exemplos revelam que a coopera&ccedil;&atilde;o intersetorial &eacute; o eixo que transforma conceito em pr&aacute;tica. A universidade oferece conhecimento cient&iacute;fico, forma&ccedil;&atilde;o humana, pensamento cr&iacute;tico e capacidade investigativa. As empresas trazem desafios concretos, velocidade, recursos e capacidade de aplica&ccedil;&atilde;o. O governo contribui com pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, regula&ccedil;&atilde;o e fomento. A sociedade apresenta demandas reais, necessidades coletivas e crit&eacute;rios de relev&acirc;ncia.</p>

<p>Assim, a universidade inovadora n&atilde;o &eacute; apenas aquela que adota ferramentas digitais ou promove eventos de empreendedorismo. &Eacute; aquela que estrutura um ecossistema capaz de transformar sua cultura interna. Ela forma estudantes pesquisadores, docentes inovadores, gestores abertos &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o e comunidades acad&ecirc;micas comprometidas com impacto. A universidade tradicional preserva o conhecimento; a universidade inovadora preserva, aplica, compartilha e transforma. &Eacute; nessa passagem da pesquisa para a pr&aacute;tica que reside o papel estrat&eacute;gico do ensino superior no s&eacute;culo XXI.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>--------------------------------------------</p>

<p><em>*Maria Carmen Tavares Christ&oacute;v&atilde;o &eacute; Mestre em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o com &aacute;rea de pesquisa em Inova&ccedil;&atilde;o Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inova&ccedil;&atilde;o Educacional, atuou como Reitora, Pr&oacute; Reitora e Diretora de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino de diversos portes e regi&otilde;es no Brasil.</em></p>

Voltar para Colunas

Quer saber como a ABMES pode atender as demandas específicas da sua IES?

Nossos consultores estão prontos para apresentar todos os benefícios, serviços inclusos e condições exclusivas de filiação para o perfil da sua instituição.