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Por: Carmen Tavares

A universidade e a formação de uma cosmovisão integral

<p><em>*Por: Carmen Tavares</em></p>

<p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, tornou-se comum encontrar estudantes universit&aacute;rios que enfrentam uma crise de sentido. Muitos n&atilde;o sabem por que escolheram seus cursos ou o que desejam construir com suas vidas. Outros convivem com ansiedade, exaust&atilde;o e uma sensa&ccedil;&atilde;o de vazio existencial, mesmo em meio &agrave; hiperconectividade digital. A universidade, nesse contexto, emerge como o &uacute;ltimo espa&ccedil;o formal de forma&ccedil;&atilde;o integral &mdash; um ambiente decisivo para a constru&ccedil;&atilde;o da identidade e da vis&atilde;o de mundo dos jovens.</p>

<p><strong>1. A crise de sentido e a fragmenta&ccedil;&atilde;o do eu</strong><br />
Estudos indicam que os jovens chegam &agrave; universidade com valores indefinidos e identidade em forma&ccedil;&atilde;o. A seculariza&ccedil;&atilde;o, o individualismo e a desestrutura&ccedil;&atilde;o familiar geraram uma gera&ccedil;&atilde;o que busca autonomia sem ter experimentado pertencimento. Heber Campos Jr. aponta que a cultura atual prioriza o desempenho em detrimento da forma&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter. A educa&ccedil;&atilde;o, antes voltada ao ser, tornou-se um meio de conquista de status.</p>

<p>M&aacute;rio S&eacute;rgio Cortella observa que isso gera indiv&iacute;duos &ldquo;altamente competentes, mas nem sempre bons&rdquo; &mdash; no sentido &eacute;tico e emp&aacute;tico. Quando a educa&ccedil;&atilde;o perde sua dimens&atilde;o humanizadora, o conhecimento se torna t&eacute;cnica vazia: &uacute;til, mas incapaz de transformar.</p>

<p><strong>2. Universidade: o &uacute;ltimo espa&ccedil;o formal de forma&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter</strong><br />
Allen Porto defende que a universidade &eacute; o momento mais decisivo na constru&ccedil;&atilde;o da cosmovis&atilde;o &mdash; a forma como o indiv&iacute;duo v&ecirc; o mundo e a si mesmo. Ao ingressar nesse ambiente, o jovem j&aacute; n&atilde;o est&aacute; sob influ&ecirc;ncia direta da fam&iacute;lia e ainda n&atilde;o desenvolveu plenamente sua responsabilidade pessoal. A universidade torna-se, assim, um espa&ccedil;o de fronteira, onde valores s&atilde;o consolidados ou abandonados.</p>

<p>Essa vulnerabilidade &eacute; tamb&eacute;m cultural. A press&atilde;o por desempenho e a velocidade das mudan&ccedil;as contribuem para a &ldquo;s&iacute;ndrome do pensamento acelerado&rdquo;, descrita por Augusto Cury. O estudante pensa demais, sente pouco e quase n&atilde;o reflete, vivendo no piloto autom&aacute;tico. O desafio das universidades &eacute; ajudar os alunos a compreender o significado do conhecimento, evitando que a forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica se reduza a tarefas sem prop&oacute;sito.</p>

<p><strong>3. &Eacute;tica e laicidade: o papel social da forma&ccedil;&atilde;o integral</strong><br />
A laicidade do Estado n&atilde;o exclui a dimens&atilde;o &eacute;tica da educa&ccedil;&atilde;o. Pelo contr&aacute;rio, ela permite o di&aacute;logo entre diferentes vis&otilde;es de mundo, contribuindo para a forma&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os conscientes. Universidades, sejam confessionais ou n&atilde;o, t&ecirc;m buscado incorporar valores &eacute;ticos e sociais &agrave; forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, reconhecendo que formam n&atilde;o apenas profissionais, mas tamb&eacute;m l&iacute;deres, pais e agentes de transforma&ccedil;&atilde;o.</p>

<p>Campos Jr. ressalta que toda proposta educacional carrega uma vis&atilde;o de ser humano e sociedade, mesmo que n&atilde;o explicitamente. Assim, o ensino superior inevitavelmente forma convic&ccedil;&otilde;es sobre o bem, a verdade e o papel do indiv&iacute;duo no coletivo. Cortella complementa: &ldquo;educar &eacute; ajudar algu&eacute;m a ser mais do que j&aacute; &eacute;&rdquo;. A miss&atilde;o da universidade deve ser formar boas pessoas &mdash; cr&iacute;ticas, emp&aacute;ticas e comprometidas com o bem comum.</p>

<p><strong>4. A interdisciplinaridade como caminho para a forma&ccedil;&atilde;o integral</strong><br />
A especializa&ccedil;&atilde;o excessiva fragmentou o conhecimento, tornando o ensino eficiente, mas desarticulado. O aluno aprende conte&uacute;dos, mas n&atilde;o compreende seu sentido na totalidade da vida. Porto e Campos Jr. defendem a interdisciplinaridade como forma de recompor essa unidade, integrando raz&atilde;o, emo&ccedil;&atilde;o e &eacute;tica.</p>

<p>Projetos que envolvem filosofia, psicologia, tecnologia, artes e ci&ecirc;ncias sociais ajudam a desenvolver pensamento cr&iacute;tico e consci&ecirc;ncia existencial. Essa integra&ccedil;&atilde;o deve ser humana, n&atilde;o apenas metodol&oacute;gica. O professor torna-se mediador de sentido, despertando perguntas e promovendo autoconhecimento.</p>

<p><strong>5. Tecnologia e o novo isolamento: quando o mundo digital distancia o humano</strong><br />
A tecnologia, que prometia aproxima&ccedil;&atilde;o, frequentemente isola. O hiperconectivismo cria uma ilus&atilde;o de pertencimento, mas esvazia v&iacute;nculos reais. Jovens passam horas conectados, mas sentem-se emocionalmente distantes. Cury chama isso de &ldquo;era dos especialistas em m&aacute;quinas e dos amadores em sentimentos&rdquo;. O dom&iacute;nio tecnol&oacute;gico sem maturidade emocional gera depend&ecirc;ncia.</p>

<p>O resultado &eacute; um novo analfabetismo: o relacional. Saber ouvir, dialogar e cooperar tornou-se raro. A tecnologia precisa ser reeducada, usada como ferramenta de intelig&ecirc;ncia, n&atilde;o de fuga. Cortella afirma que &ldquo;a tecnologia &eacute; neutra; o uso que fazemos dela revela nossa &eacute;tica&rdquo;. A universidade deve incluir o debate sobre o uso consciente dos meios digitais como parte da forma&ccedil;&atilde;o &eacute;tica.</p>

<p><strong>6. Reconstruindo a unidade entre raz&atilde;o, emo&ccedil;&atilde;o e prop&oacute;sito</strong><br />
A educa&ccedil;&atilde;o superior precisa devolver coer&ecirc;ncia ao ser humano. O excesso de informa&ccedil;&atilde;o fragmenta; a falta de prop&oacute;sito paralisa. Porto prop&otilde;e que a universidade ensine n&atilde;o apenas o &ldquo;como&rdquo;, mas o &ldquo;porqu&ecirc;&rdquo;. A reflex&atilde;o sobre sentido &eacute; uma necessidade pedag&oacute;gica.</p>

<p>Campos Jr. alerta que conhecimento sem autoconhecimento gera arrog&acirc;ncia; t&eacute;cnica sem &eacute;tica gera desumaniza&ccedil;&atilde;o. Integrar raz&atilde;o e emo&ccedil;&atilde;o &eacute; essencial para uma cosmovis&atilde;o equilibrada. Essa integra&ccedil;&atilde;o combate o isolamento tecnol&oacute;gico. Projetos de conviv&ecirc;ncia, voluntariado e di&aacute;logo intergeracional promovem pertencimento. Universidades que estimulam empatia e escuta ativa formam profissionais mais preparados para lidar com a complexidade humana.</p>

<p><strong>7. Propostas para uma forma&ccedil;&atilde;o mais integral e conectada ao real</strong><br />
A forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria deve ir al&eacute;m da sala de aula. Mentorias, rodas de conversa sobre sa&uacute;de mental, &eacute;tica digital e projetos sociais s&atilde;o formas de exercer a miss&atilde;o integral da universidade. Cury sugere programas para ajudar os alunos a &ldquo;gerir a pr&oacute;pria mente&rdquo;, desacelerando o pensamento e desenvolvendo autodom&iacute;nio emocional &mdash; uma preven&ccedil;&atilde;o &agrave; ansiedade e est&iacute;mulo &agrave; reflex&atilde;o.</p>

<p>Cortella prop&otilde;e resgatar o di&aacute;logo como m&eacute;todo educativo: perguntas bem formuladas em vez de respostas prontas, coopera&ccedil;&atilde;o em vez de competi&ccedil;&atilde;o, conversas que toquem a vida real em vez de discursos t&eacute;cnicos. O di&aacute;logo humaniza o saber e devolve sentido ao aprendizado.</p>

<p><strong>8. Conclus&atilde;o: restaurar o humano em meio &agrave; t&eacute;cnica</strong><br />
O maior desafio da universidade contempor&acirc;nea &eacute; restaurar o humano em meio &agrave; t&eacute;cnica. A crise de sentido dos jovens n&atilde;o ser&aacute; resolvida apenas com curr&iacute;culos novos ou tecnologias de ensino. &Eacute; preciso coragem institucional para recolocar o ser humano no centro do processo educativo.</p>

<p>Como resume Cortella, &ldquo;ensinar &eacute; um ato de coragem&rdquo; &mdash; coragem de lidar com d&uacute;vidas, erros e sofrimento; coragem de formar pessoas que pensem por si e cuidem umas das outras. Porto e Campos Jr. alertam que a aus&ecirc;ncia de forma&ccedil;&atilde;o integral gera especialistas desorientados. Cury refor&ccedil;a a urg&ecirc;ncia de educar mentes saud&aacute;veis. Todos convergem em um ponto: conhecimento sem prop&oacute;sito n&atilde;o transforma.</p>

<p>A universidade deve ser o espa&ccedil;o onde raz&atilde;o, emo&ccedil;&atilde;o e &eacute;tica se reencontram. Ali, o estudante aprende a pensar, sentir e agir com coer&ecirc;ncia &mdash; n&atilde;o apenas para o mercado, mas para a vida. Num tempo em que a tecnologia tudo promete, talvez o maior avan&ccedil;o educacional seja este: reaprender a ser humano.</p>

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<p>*Maria Carmen Tavares Christ&oacute;v&atilde;o &eacute; Mestre em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o com &aacute;rea de pesquisa em Inova&ccedil;&atilde;o Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inova&ccedil;&atilde;o, atuou como Reitora, Pr&oacute; Reitora e Diretora de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino de diversos portes e regi&otilde;es no Brasil.</p>

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