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Por: Carmen Tavares

Cenário Competitivo do Ensino Superior

<p style="text-align: justify;"><em style="text-align: justify;">*Por: Carmen Tavares</em></p>

<p style="text-align: justify;">O ensino superior brasileiro vive uma inflex&atilde;o hist&oacute;rica que exige uma leitura madura, estrat&eacute;gica e, sobretudo, livre de simplifica&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas. Ao atingir mais de 10,2 milh&otilde;es de matr&iacute;culas, o sistema demonstra sua capacidade de expans&atilde;o e adapta&ccedil;&atilde;o. No centro desse movimento est&aacute; a iniciativa privada, respons&aacute;vel por 79,8% dos estudantes, consolidando-se como o principal vetor de crescimento e sustenta&ccedil;&atilde;o do setor.</p>

<p style="text-align: justify;"><img alt="" src="/arquivos/noticias/images/img-1-carmen-31032026.png" style="width: 462px; height: 697px;" /></p>

<p style="text-align: justify;">Esse protagonismo n&atilde;o &eacute; casual. Ele &eacute; resultado direto de uma postura empreendedora, vision&aacute;ria e, muitas vezes, contrac&iacute;clica por parte dos mantenedores, que souberam interpretar com precis&atilde;o as mudan&ccedil;as demogr&aacute;ficas, econ&ocirc;micas e tecnol&oacute;gicas do pa&iacute;s. Enquanto o setor p&uacute;blico opera sob restri&ccedil;&otilde;es or&ccedil;ament&aacute;rias e rigidez estrutural, a iniciativa privada demonstrou agilidade, capacidade de investimento e, principalmente, disposi&ccedil;&atilde;o para assumir riscos &mdash; caracter&iacute;sticas t&iacute;picas de ecossistemas inovadores e indispens&aacute;veis para a expans&atilde;o educacional em larga escala.</p>

<p style="text-align: justify;">A ascens&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o a dist&acirc;ncia (EAD) ilustra com clareza essa capacidade de antecipa&ccedil;&atilde;o. Ao estruturar modelos escal&aacute;veis, flex&iacute;veis e financeiramente vi&aacute;veis, o setor privado n&atilde;o apenas ampliou o acesso, como tamb&eacute;m redefiniu o perfil do estudante brasileiro, incorporando milh&otilde;es de adultos que estavam historicamente exclu&iacute;dos do ensino superior. Trata-se de uma inova&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica que rompe com o paradigma tradicional de educa&ccedil;&atilde;o centrada exclusivamente na juventude e na presencialidade.</p>

<p style="text-align: justify;">No entanto, reconhecer o m&eacute;rito dessa transforma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o implica ignorar suas tens&otilde;es. Pelo contr&aacute;rio, &eacute; justamente a maturidade do setor que exige uma an&aacute;lise cr&iacute;tica mais sofisticada. A crescente concentra&ccedil;&atilde;o de matr&iacute;culas em grandes grupos educacionais &mdash; fen&ocirc;meno que aponta para uma estrutura oligopolizada &mdash; revela uma l&oacute;gica de escala que, embora eficiente do ponto de vista econ&ocirc;mico, levanta questionamentos sobre diversidade institucional, autonomia acad&ecirc;mica e pluralidade de modelos pedag&oacute;gicos.</p>

<p style="text-align: justify;">Esse movimento de consolida&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute;, em si, um problema. Em mercados complexos e intensivos em tecnologia, a concentra&ccedil;&atilde;o pode ser um vetor de efici&ecirc;ncia, inova&ccedil;&atilde;o e capacidade de investimento. Contudo, quando essa din&acirc;mica reduz significativamente a competi&ccedil;&atilde;o e homogene&iacute;za a oferta educacional, abre-se um espa&ccedil;o leg&iacute;timo para reflex&atilde;o estrat&eacute;gica: at&eacute; que ponto a busca por escala est&aacute; sendo equilibrada com a necessidade de diferencia&ccedil;&atilde;o e qualidade acad&ecirc;mica?</p>

<p style="text-align: justify;">Outro ponto cr&iacute;tico reside na rela&ccedil;&atilde;o entre expans&atilde;o e inclus&atilde;o. Embora o sistema tenha crescido de forma expressiva, a taxa de escolariza&ccedil;&atilde;o l&iacute;quida dos jovens permanece baixa, indicando que a amplia&ccedil;&atilde;o do acesso tem ocorrido, em grande medida, pela entrada tardia de adultos, e n&atilde;o pela incorpora&ccedil;&atilde;o plena das novas gera&ccedil;&otilde;es. Isso n&atilde;o diminui o m&eacute;rito da expans&atilde;o promovida pela iniciativa privada, mas evidencia limites estruturais que extrapolam a atua&ccedil;&atilde;o dos mantenedores e demandam pol&iacute;ticas p&uacute;blicas mais eficazes e integradas.</p>

<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, &eacute; fundamental evitar uma leitura reducionista que atribua &agrave; iniciativa privada responsabilidades que s&atilde;o, em ess&ecirc;ncia, sist&ecirc;micas. O setor privado respondeu &mdash; e continua respondendo &mdash; com efici&ecirc;ncia &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es do ambiente regulat&oacute;rio e econ&ocirc;mico existente. A quest&atilde;o central, portanto, n&atilde;o &eacute; o modelo em si, mas o desenho do sistema como um todo, incluindo financiamento estudantil, regula&ccedil;&atilde;o, incentivos e pol&iacute;ticas de acesso.</p>

<p style="text-align: justify;">H&aacute;, ainda, uma dimens&atilde;o qualitativa que merece aten&ccedil;&atilde;o. A escala alcan&ccedil;ada pelo ensino superior privado brasileiro &eacute;, sem d&uacute;vida, uma conquista. No entanto, a sustentabilidade desse modelo no longo prazo depender&aacute; da capacidade de avan&ccedil;ar em qualidade percebida, empregabilidade e relev&acirc;ncia formativa. Em um cen&aacute;rio de transforma&ccedil;&atilde;o acelerada do mercado de trabalho, marcado por automa&ccedil;&atilde;o, intelig&ecirc;ncia artificial e novas compet&ecirc;ncias, a educa&ccedil;&atilde;o superior n&atilde;o pode se limitar &agrave; expans&atilde;o quantitativa &mdash; ela precisa se reposicionar como agente central de forma&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica para o futuro.</p>

<p style="text-align: justify;">Diante disso, o papel dos mantenedores ganha uma nova densidade. N&atilde;o se trata apenas de operar institui&ccedil;&otilde;es de ensino, mas de liderar um setor que est&aacute; no centro do desenvolvimento econ&ocirc;mico e social do pa&iacute;s. Isso exige vis&atilde;o de longo prazo, capacidade de inova&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua e, sobretudo, compromisso com a constru&ccedil;&atilde;o de um ecossistema educacional mais equilibrado, diverso e sustent&aacute;vel.</p>

<p style="text-align: justify;">Em s&iacute;ntese, a iniciativa privada foi &mdash; e continua sendo &mdash; a grande respons&aacute;vel por viabilizar a expans&atilde;o do ensino superior no Brasil. Sua atua&ccedil;&atilde;o empreendedora, ousada e vision&aacute;ria merece reconhecimento. Contudo, exatamente por ocupar essa posi&ccedil;&atilde;o central, o setor tamb&eacute;m &eacute; chamado a liderar o pr&oacute;ximo ciclo de transforma&ccedil;&atilde;o: aquele que transcende a expans&atilde;o e se orienta pela qualifica&ccedil;&atilde;o, pela inclus&atilde;o efetiva e pela constru&ccedil;&atilde;o de valor educacional duradouro.</p>

<p style="text-align: justify;">O desafio, portanto, n&atilde;o &eacute; reduzir o papel da iniciativa privada, mas elev&aacute;-lo. Transformar escala em excel&ecirc;ncia, efici&ecirc;ncia em diferencia&ccedil;&atilde;o e crescimento em impacto real. Esse &eacute; o movimento que definir&aacute; n&atilde;o apenas o futuro das institui&ccedil;&otilde;es, mas o pr&oacute;prio papel do ensino superior no Brasil contempor&acirc;neo.</p>

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<p style="text-align: justify;"><em>*Maria Carmen Tavares Christ&oacute;v&atilde;o &eacute; Mestre em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o com &aacute;rea de pesquisa em Inova&ccedil;&atilde;o Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inova&ccedil;&atilde;o Educacional, atuou como Reitora, Pr&oacute; Reitora e Diretora de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino de diversos portes e regi&otilde;es no Brasil.</em></p>

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