Pular para o conteúdo

Para o termo exato, use aspas. Ex.: “44 anos”

Por: Carmen Tavares

Empreendedorismo, tecnologia e universidade: uma parceria para inovar

<p>Por: Carmen Tavares*</p>

<p>Quando se fala em inova&ccedil;&atilde;o, &eacute; comum pensar imediatamente em intelig&ecirc;ncia artificial, aplicativos, rob&oacute;tica ou novos equipamentos. Mas a verdadeira inova&ccedil;&atilde;o n&atilde;o come&ccedil;a na tecnologia. Ela come&ccedil;a com uma pergunta: qual problema precisa ser resolvido?</p>

<p>Imagine uma empresa que deseja reduzir desperd&iacute;cios, melhorar a experi&ecirc;ncia de seus clientes ou desenvolver um produto mais sustent&aacute;vel. Ela conhece o mercado, possui dados sobre sua opera&ccedil;&atilde;o e entende as dificuldades enfrentadas diariamente. Entretanto, muitas vezes n&atilde;o disp&otilde;e de pesquisadores, laborat&oacute;rios ou conhecimentos cient&iacute;ficos suficientes para desenvolver uma solu&ccedil;&atilde;o mais avan&ccedil;ada.</p>

<p>Do outro lado, a universidade re&uacute;ne professores, pesquisadores, estudantes, laborat&oacute;rios e produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Ela possui conhecimento, mas nem sempre tem acesso aos problemas concretos das empresas ou aos recursos necess&aacute;rios para transformar uma pesquisa em produto. &Eacute; exatamente nesse ponto que ocorre a interse&ccedil;&atilde;o entre universidade e mercado.</p>

<p>A empresa apresenta o desafio. A universidade investiga, testa e prop&otilde;e alternativas. Juntas, elas transformam conhecimento em uma solu&ccedil;&atilde;o aplic&aacute;vel.</p>

<p>Essa rela&ccedil;&atilde;o aparece com clareza na parceria entre a Universidade de S&atilde;o Paulo e a Embraer. Pesquisadores da Escola de Engenharia de S&atilde;o Carlos participaram do projeto Aeronave Silenciosa, que desenvolveu solu&ccedil;&otilde;es para reduzir o ru&iacute;do externo produzido pelos avi&otilde;es. A pesquisa acad&ecirc;mica foi incorporada ao conhecimento industrial da empresa e contribuiu para aeronaves reconhecidas pelo menor impacto sonoro.</p>

<p>O exemplo mostra que a universidade n&atilde;o substitui a empresa. A Embraer conhece o setor aeron&aacute;utico, seus consumidores, seus custos e suas exig&ecirc;ncias regulat&oacute;rias. A USP agrega pesquisa, experimenta&ccedil;&atilde;o e conhecimento especializado. A inova&ccedil;&atilde;o acontece justamente na integra&ccedil;&atilde;o dessas compet&ecirc;ncias.</p>

<p>Outro caso est&aacute; na pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o entre universidades e empresas de minera&ccedil;&atilde;o. A Vale afirma que sua estrat&eacute;gia de inova&ccedil;&atilde;o aberta conecta universidades, centros de pesquisa, startups e equipes internas para solucionar desafios relacionados &agrave; seguran&ccedil;a, produtividade, sustentabilidade e economia circular. Nessa din&acirc;mica, os problemas reais da minera&ccedil;&atilde;o tornam-se temas de pesquisa, desenvolvimento e experimenta&ccedil;&atilde;o.</p>

<p>A universidade tamb&eacute;m pode participar da inova&ccedil;&atilde;o formando profissionais preparados para situa&ccedil;&otilde;es concretas. Em uma parceria recente, a USP e a Embraer criaram um desafio no qual estudantes aplicam conhecimentos de engenharia, design, ergonomia e sustentabilidade para desenvolver propostas relacionadas ao interior de aeronaves. O aluno deixa de trabalhar apenas com exerc&iacute;cios te&oacute;ricos e passa a enfrentar uma demanda empresarial real.</p>

<p>No exterior, esse modelo &eacute; ainda mais estruturado. A Universidade de Oxford, por exemplo, mant&eacute;m mecanismos para transformar resultados de pesquisa em empresas derivadas, chamadas de spinouts. Nesses casos, uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores pode dar origem a uma nova organiza&ccedil;&atilde;o, receber investimentos e chegar ao mercado. A universidade oferece suporte para propriedade intelectual, estrutura&ccedil;&atilde;o empresarial e transfer&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica.</p>

<p>Um dos exemplos mais conhecidos &eacute; o desenvolvimento de vacinas pela Universidade de Oxford. O conhecimento cient&iacute;fico produzido em seus institutos foi articulado com empresas, investidores, sistemas de sa&uacute;de e governos, permitindo que pesquisas laboratoriais fossem convertidas em solu&ccedil;&otilde;es de impacto econ&ocirc;mico e social. Esse processo tamb&eacute;m aparece no desenvolvimento da vacina R21 contra a mal&aacute;ria, criada por pesquisadores do Jenner Institute e combinada com tecnologia de uma empresa parceira.</p>

<p>Stanford oferece outro exemplo importante. O ambiente criado ao redor da universidade aproxima pesquisa, forma&ccedil;&atilde;o empreendedora, capital de risco e empresas de tecnologia. Diversas organiza&ccedil;&otilde;es foram fundadas por ex-alunos, pesquisadores ou profissionais ligados &agrave; institui&ccedil;&atilde;o. O diferencial n&atilde;o est&aacute; apenas na produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, mas na exist&ecirc;ncia de uma rede capaz de transformar ideias em empreendimentos, atrair investimentos e acelerar sua entrada no mercado.</p>

<p>Esses casos revelam que a parceria universidade-empresa pode assumir diferentes formatos: pesquisa aplicada, desenvolvimento de prot&oacute;tipos, licenciamento de patentes, forma&ccedil;&atilde;o de profissionais, cria&ccedil;&atilde;o de startups, uso compartilhado de laborat&oacute;rios e programas de inova&ccedil;&atilde;o aberta.</p>

<p>Para funcionar, por&eacute;m, essa rela&ccedil;&atilde;o precisa ser bem administrada. A empresa geralmente deseja rapidez e retorno sobre o investimento. A universidade trabalha com investiga&ccedil;&atilde;o, valida&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e procedimentos institucionais. Sem alinhamento, as diferen&ccedil;as de ritmo podem gerar frustra&ccedil;&atilde;o.</p>

<p>Por isso, todo projeto deve come&ccedil;ar com uma defini&ccedil;&atilde;o clara do problema, dos resultados esperados, dos recursos dispon&iacute;veis e das responsabilidades de cada participante. Tamb&eacute;m &eacute; necess&aacute;rio estabelecer como ser&atilde;o tratados os dados, os custos, a propriedade intelectual e a eventual comercializa&ccedil;&atilde;o da solu&ccedil;&atilde;o.</p>

<p>Em s&iacute;ntese, a universidade produz conhecimento; a empresa conhece o mercado e transforma esse conhecimento em valor; e o poder p&uacute;blico pode financiar pesquisas, criar incentivos e reduzir barreiras institucionais. Essa articula&ccedil;&atilde;o forma um ecossistema no qual ci&ecirc;ncia, empreendedorismo e tecnologia deixam de atuar separadamente.</p>

<p>A principal mensagem &eacute; simples: a inova&ccedil;&atilde;o surge quando o conhecimento acad&ecirc;mico encontra um problema real, uma organiza&ccedil;&atilde;o capaz de aplicar a solu&ccedil;&atilde;o e um ambiente favor&aacute;vel &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o.</p>

<p>&nbsp;</p>

<p>--------------------------------------------</p>

<p><em>*Maria Carmen Tavares Christ&oacute;v&atilde;o &eacute; Mestre em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o com &aacute;rea de pesquisa em Inova&ccedil;&atilde;o Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inova&ccedil;&atilde;o Educacional, atuou como Reitora, Pr&oacute; Reitora e Diretora de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino de diversos portes e regi&otilde;es no Brasil.</em></p>

Voltar para Colunas

Quer saber como a ABMES pode atender as demandas específicas da sua IES?

Nossos consultores estão prontos para apresentar todos os benefícios, serviços inclusos e condições exclusivas de filiação para o perfil da sua instituição.