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Por: Carmen Tavares

Gestão Universitária e Liderança Intergeracional

<p><em style="text-align: justify;">*Por: Carmen Tavares</em></p>

<p>Pesquisas recentes nos Estados Unidos apontam para um movimento que merece aten&ccedil;&atilde;o: a lideran&ccedil;a empresarial est&aacute; voltando a valorizar trajet&oacute;rias mais longas, repert&oacute;rios amplos e maturidade decis&oacute;ria. Levantamento citado pela imprensa econ&ocirc;mica indica que a idade m&eacute;dia dos CEOs norte-americanos chegou a 61 anos, cerca de uma d&eacute;cada acima do patamar observado no in&iacute;cio dos anos 2000. Outro estudo da Spencer Stuart mostra que, em 2024, quase 30% dos novos CEOs tinham 60 anos ou mais e, pela primeira vez, metade dos CEOs em atividade estava acima dessa faixa et&aacute;ria.</p>

<p style="text-align: justify;">Esse dado n&atilde;o deve ser lido apenas como envelhecimento das lideran&ccedil;as. Ele revela algo mais profundo: em ambientes complexos, inst&aacute;veis e altamente regulados, experi&ecirc;ncia deixou de ser um detalhe biogr&aacute;fico e passou a ser vantagem competitiva. As organiza&ccedil;&otilde;es perceberam que n&atilde;o basta dominar ferramentas, falar a linguagem da inova&ccedil;&atilde;o ou parecer moderno. &Eacute; preciso ter vivido crises, conduzido transi&ccedil;&otilde;es, formado pessoas, sustentado decis&otilde;es dif&iacute;ceis e aprendido a distinguir urg&ecirc;ncia de import&acirc;ncia.</p>

<p style="text-align: justify;">Essa reflex&atilde;o &eacute; especialmente relevante para a gest&atilde;o universit&aacute;ria no Brasil. Nos &uacute;ltimos anos, muitas institui&ccedil;&otilde;es de ensino superior passaram por processos intensos de profissionaliza&ccedil;&atilde;o, padroniza&ccedil;&atilde;o operacional, press&atilde;o por resultados, expans&atilde;o tecnol&oacute;gica, reorganiza&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica e busca por efici&ecirc;ncia financeira. Nesse movimento, cresceram os modelos de gest&atilde;o baseados em indicadores, plataformas, processos uniformizados e metas de curto prazo. Tudo isso tem valor, mas tamb&eacute;m produziu um efeito preocupante: a substitui&ccedil;&atilde;o da lideran&ccedil;a acad&ecirc;mica madura por lideran&ccedil;as jovens, muitas vezes preparadas tecnicamente, por&eacute;m ainda pouco experimentadas na complexidade humana, pedag&oacute;gica e institucional da universidade.</p>

<p style="text-align: justify;">A universidade n&atilde;o &eacute; uma empresa comum. Ela possui ritos, mem&oacute;rias, tens&otilde;es, vaidades, voca&ccedil;&otilde;es e responsabilidades sociais que n&atilde;o cabem inteiramente em planilhas. Liderar uma institui&ccedil;&atilde;o de ensino superior exige compreender docentes, estudantes, coordenadores, t&eacute;cnicos administrativos, mantenedores, &oacute;rg&atilde;os reguladores, mercado, comunidade e tradi&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica. Exige tamb&eacute;m saber que nem todo problema se resolve com procedimento, nem toda resist&ecirc;ncia &eacute; atraso, nem toda inova&ccedil;&atilde;o &eacute; avan&ccedil;o.</p>

<p style="text-align: justify;">No Brasil, &eacute; comum observar institui&ccedil;&otilde;es que padronizam suas opera&ccedil;&otilde;es e, em seguida, colocam profissionais muito jovens para conduzir equipes formadas por docentes e colaboradores com d&eacute;cadas de experi&ecirc;ncia. Em alguns casos, esses l&iacute;deres chegam com dom&iacute;nio de sistemas, discursos de efici&ecirc;ncia e familiaridade com tecnologia, mas com pouca escuta sobre a cultura institucional. O resultado pode ser uma lideran&ccedil;a ansiosa, excessivamente protocolar e pouco sens&iacute;vel &agrave; intelig&ecirc;ncia acumulada no cotidiano acad&ecirc;mico.</p>

<p style="text-align: justify;">Isso n&atilde;o significa desvalorizar os jovens. Pelo contr&aacute;rio. A juventude traz energia, coragem, velocidade de adapta&ccedil;&atilde;o, familiaridade digital e disposi&ccedil;&atilde;o para romper modelos ultrapassados. O problema surge quando se confunde juventude com preparo integral. Uma pessoa pode ser brilhante aos 30 ou 35 anos, mas ainda n&atilde;o ter vivido tempo suficiente para desenvolver algumas compet&ecirc;ncias que s&oacute; amadurecem com a pr&aacute;tica prolongada: prud&ecirc;ncia, leitura de ambiente, capacidade de concilia&ccedil;&atilde;o, dom&iacute;nio emocional, percep&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e sabedoria para ouvir antes de decidir.</p>

<p style="text-align: justify;">&Eacute; nesse ponto que a chamada &ldquo;melhor idade&rdquo; precisa ser recolocada no centro da discuss&atilde;o. L&iacute;deres entre 60, 70 e at&eacute; 80 anos, hoje, n&atilde;o correspondem mais ao imagin&aacute;rio antigo de afastamento, improdutividade ou incapacidade tecnol&oacute;gica. Muitos est&atilde;o saud&aacute;veis, ativos, intelectualmente curiosos e profundamente conectados &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas. Participam de cursos, utilizam plataformas digitais, acompanham debates sobre intelig&ecirc;ncia artificial, gest&atilde;o por dados e inova&ccedil;&atilde;o educacional. A diferen&ccedil;a &eacute; que fazem isso com lastro hist&oacute;rico, sem se encantar facilmente com modismos.</p>

<p style="text-align: justify;">Na gest&atilde;o universit&aacute;ria, esse perfil &eacute; precioso. Pessoas mais experientes costumam ter maior capacidade de observar antes de intervir. Sabem que uma decis&atilde;o tomada sem escuta pode parecer eficiente no curto prazo, mas gerar rupturas silenciosas no m&eacute;dio prazo. Sabem tamb&eacute;m que a universidade &eacute; feita de pactos delicados: entre tradi&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o, autonomia docente e diretrizes institucionais, sustentabilidade financeira e qualidade acad&ecirc;mica, tecnologia e presen&ccedil;a humana.</p>

<p style="text-align: justify;">A capacidade de escuta &eacute; uma das virtudes mais raras da lideran&ccedil;a madura. Quem j&aacute; atravessou diferentes ciclos profissionais tende a perceber nuances que escapam ao gestor apressado. Consegue identificar quando uma equipe est&aacute; apenas cumprindo ordens, quando um docente se sente desrespeitado, quando uma coordena&ccedil;&atilde;o perdeu autoridade simb&oacute;lica, quando uma mudan&ccedil;a necess&aacute;ria est&aacute; sendo mal comunicada. Essa percep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o nasce de manuais. Nasce da conviv&ecirc;ncia, dos erros, das perdas, das reconstru&ccedil;&otilde;es e da paci&ecirc;ncia aprendida ao longo dos anos.</p>

<p style="text-align: justify;">Outro ponto essencial &eacute; o poder de concilia&ccedil;&atilde;o. A universidade brasileira vive conflitos constantes: entre gera&ccedil;&otilde;es, &aacute;reas do conhecimento, interesses administrativos, demandas regulat&oacute;rias e expectativas dos estudantes. L&iacute;deres maduros tendem a compreender que conciliar n&atilde;o &eacute; ceder sem crit&eacute;rio, mas construir condi&ccedil;&otilde;es para que decis&otilde;es dif&iacute;ceis sejam aceitas com menor desgaste. Eles sabem que autoridade n&atilde;o se imp&otilde;e apenas pelo cargo; ela se sustenta pela confian&ccedil;a.</p>

<p style="text-align: justify;">H&aacute; ainda um aspecto simb&oacute;lico importante. Quando uma institui&ccedil;&atilde;o valoriza profissionais mais velhos, ela comunica que experi&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; obsolesc&ecirc;ncia. Comunica que a hist&oacute;ria de uma pessoa importa. Comunica aos docentes e colaboradores que a universidade n&atilde;o pretende descartar repert&oacute;rios apenas porque surgiu uma nova plataforma, uma nova metodologia ou uma nova linguagem gerencial.</p>

<p style="text-align: justify;">Isso &eacute; particularmente importante em um pa&iacute;s que, muitas vezes, trata o envelhecimento profissional como problema. O Brasil precisa superar a ideia de que inova&ccedil;&atilde;o pertence apenas aos jovens. Inovar n&atilde;o &eacute; apenas usar tecnologia; &eacute; resolver problemas relevantes de forma inteligente. E, para isso, a experi&ecirc;ncia pode ser decisiva. Um profissional maduro pode n&atilde;o ter nascido no ambiente digital, mas pode aprender a us&aacute;-lo com discernimento. Mais do que isso: pode ajudar a institui&ccedil;&atilde;o a perguntar para que serve a tecnologia, quais riscos ela traz e quais dimens&otilde;es humanas n&atilde;o devem ser sacrificadas em nome da efici&ecirc;ncia.</p>

<p style="text-align: justify;">Na gest&atilde;o universit&aacute;ria, trabalhar com l&iacute;deres mais experientes significa contar com pessoas que j&aacute; viram reformas educacionais, mudan&ccedil;as regulat&oacute;rias, crises econ&ocirc;micas, ciclos de expans&atilde;o e retra&ccedil;&atilde;o, modismos pedag&oacute;gicos e transforma&ccedil;&otilde;es no perfil dos estudantes. Esse repert&oacute;rio permite comparar cen&aacute;rios, evitar ingenuidades e proteger a institui&ccedil;&atilde;o de decis&otilde;es impulsivas.</p>

<p style="text-align: justify;">A lideran&ccedil;a universit&aacute;ria do futuro n&atilde;o deve ser uma disputa entre gera&ccedil;&otilde;es. O caminho mais inteligente &eacute; a composi&ccedil;&atilde;o. Jovens l&iacute;deres precisam da energia e da ousadia que carregam. L&iacute;deres maduros oferecem mem&oacute;ria, equil&iacute;brio, vis&atilde;o sist&ecirc;mica e densidade humana. Quando essas for&ccedil;as se encontram, a universidade ganha.</p>

<p style="text-align: justify;">Portanto, a discuss&atilde;o sobre CEOs mais velhos ilumina uma quest&atilde;o urgente para o ensino superior brasileiro: talvez tenhamos avan&ccedil;ado muito na padroniza&ccedil;&atilde;o dos processos, mas perdido sensibilidade na escolha de quem conduz pessoas. A universidade precisa de tecnologia, sim. Precisa de efici&ecirc;ncia, sem d&uacute;vida. Mas precisa tamb&eacute;m de l&iacute;deres que saibam escutar, ponderar, formar, reconciliar e decidir com sabedoria. E essas compet&ecirc;ncias, quase sempre, s&atilde;o frutos do tempo.</p>

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<p style="text-align: justify;"><em>*Maria Carmen Tavares Christ&oacute;v&atilde;o &eacute; Mestre em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o com &aacute;rea de pesquisa em Inova&ccedil;&atilde;o Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inova&ccedil;&atilde;o Educacional, atuou como Reitora, Pr&oacute; Reitora e Diretora de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino de diversos portes e regi&otilde;es no Brasil.</em></p>

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