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Por: Carmen Tavares

Internacionalização como Estratégia Competitiva

<p style="text-align: justify;"><em style="text-align: right;">*Por: Carmen Tavares</em></p>

<p style="text-align: justify;">No final de outubro, o Global Education Innovation Summit (GEI Summit 2025) reunir&aacute; pesquisadores, empres&aacute;rios, gestores e l&iacute;deres educacionais de todo o mundo para discutir temas decisivos para o futuro da educa&ccedil;&atilde;o. Entre as pautas centrais do evento, destaco duas que considero fundamentais para o contexto brasileiro: a internacionaliza&ccedil;&atilde;o das escolas e universidades como estrat&eacute;gia de competitividade global e a inova&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica e tecnol&oacute;gica como motor de transforma&ccedil;&atilde;o institucional.</p>

<p style="text-align: justify;">Esses dois eixos &mdash; internacionaliza&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o &mdash; constituem, a meu ver, os pilares sobre os quais se estrutura a escola do s&eacute;culo XXI. E &eacute; justamente nesse ponto que o Processo de Bolonha continua sendo uma refer&ecirc;ncia te&oacute;rica e pr&aacute;tica incontorn&aacute;vel. Em minha pesquisa de 2012, dediquei-me a compreender como essa reforma universit&aacute;ria, implementada na Europa a partir de 1999, conseguiu transformar o ensino superior em um instrumento de reposicionamento competitivo e de converg&ecirc;ncia internacional. Hoje, mais de duas d&eacute;cadas depois, reafirmo que as li&ccedil;&otilde;es de Bolonha permanecem atuais e oferecem caminhos concretos para o avan&ccedil;o da educa&ccedil;&atilde;o brasileira, apesar dos in&uacute;meros problemas enfrentados.</p>

<p style="text-align: justify;"><strong>A reforma de Bolonha e o nascimento de um novo paradigma competitivo</strong><br />
Quando iniciei a pesquisa, partia da constata&ccedil;&atilde;o de que a universidade europeia, at&eacute; o final do s&eacute;culo XX, enfrentava um duplo desafio: um sistema fragmentado e um distanciamento crescente entre academia, mercado e sociedade. Os governos europeus conclu&iacute;ram que o modelo cl&aacute;ssico &mdash; fortemente inspirado nos princ&iacute;pios humboldtianos &mdash; havia se tornado disfuncional frente &agrave;s exig&ecirc;ncias da globaliza&ccedil;&atilde;o. O Protocolo de Bolonha surgiu, portanto, como um movimento de ruptura e reconstru&ccedil;&atilde;o.</p>

<p style="text-align: justify;">Defendi, em minhas pesquisas, que o &ecirc;xito do Processo de Bolonha se explica por dois v&eacute;rtices complementares que chamei de externalidade e internalidade. A externalidade corresponde &agrave; capacidade do sistema educacional de responder &agrave;s demandas externas &mdash; econ&ocirc;micas, tecnol&oacute;gicas e sociais &mdash; que pressionam por inova&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua. J&aacute; a internalidade refere-se &agrave; cultura institucional de cada universidade, &agrave;s suas compet&ecirc;ncias end&oacute;genas e &agrave; habilidade de gerar inova&ccedil;&atilde;o a partir da pr&oacute;pria governan&ccedil;a acad&ecirc;mica.</p>

<p style="text-align: justify;">Quando esses dois eixos se alinham, a universidade se torna um agente din&acirc;mico de competitividade: conecta ci&ecirc;ncia e mercado, transforma conhecimento em desenvolvimento e cria valor social a partir da inova&ccedil;&atilde;o. Essa &eacute;, em ess&ecirc;ncia, a l&oacute;gica que sustentou o Espa&ccedil;o Europeu de Educa&ccedil;&atilde;o Superior (EEES) &mdash; uma rede de coopera&ccedil;&atilde;o entre pa&iacute;ses, institui&ccedil;&otilde;es e pessoas, movida pela convic&ccedil;&atilde;o de que a educa&ccedil;&atilde;o &eacute; um ativo estrat&eacute;gico para o crescimento econ&ocirc;mico e a coes&atilde;o continental.</p>

<p style="text-align: justify;">Em termos pr&aacute;ticos, o modelo de Bolonha estruturou-se sobre tr&ecirc;s pilares: mobilidade acad&ecirc;mica, forma&ccedil;&atilde;o interdisciplinar e aprendizagem ao longo da vida. A ado&ccedil;&atilde;o de um sistema comum de cr&eacute;ditos (ECTS) permitiu que estudantes circulassem entre universidades, transferissem disciplinas e tivessem seus diplomas reconhecidos em todo o continente. Essa padroniza&ccedil;&atilde;o facilitou a integra&ccedil;&atilde;o de mercados de trabalho e fomentou parcerias interinstitucionais, pesquisas conjuntas e projetos de inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica.</p>

<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a estrutura modular e interdisciplinar substituiu curr&iacute;culos r&iacute;gidos por trajet&oacute;rias formativas flex&iacute;veis, valorizando compet&ecirc;ncias transversais e a interdisciplinaridade. Como observei na pesquisa, essa transforma&ccedil;&atilde;o representou uma ruptura com a rigidez disciplinar e uma guinada em dire&ccedil;&atilde;o a uma educa&ccedil;&atilde;o mais hol&iacute;stica, criativa e voltada &agrave; inova&ccedil;&atilde;o.</p>

<p style="text-align: justify;">A reforma de Bolonha tamb&eacute;m consolidou o conceito de aprendizagem ao longo da vida (lifelong learning), que hoje ressurge com for&ccedil;a renovada nos debates sobre educa&ccedil;&atilde;o executiva, micro certifica&ccedil;&otilde;es e requalifica&ccedil;&atilde;o profissional. Essa filosofia &mdash; aprender continuamente, com flexibilidade e prop&oacute;sito &mdash; &eacute; o que confere sustentabilidade &agrave; competitividade europeia no longo prazo.</p>

<p style="text-align: justify;"><strong>A inova&ccedil;&atilde;o como motor da competitividade</strong><br />
Em 2012, argumentei que inova&ccedil;&atilde;o e conhecimento s&atilde;o os dois principais fatores que definem a competitividade de na&ccedil;&otilde;es e institui&ccedil;&otilde;es . Essa afirma&ccedil;&atilde;o, que fundamentou parte da minha an&aacute;lise, permanece incontest&aacute;vel. A economia do conhecimento transformou o modo como avaliamos desempenho institucional: o capital intelectual e a capacidade de inovar tornaram-se indicadores de prosperidade econ&ocirc;mica e de relev&acirc;ncia social.</p>

<p style="text-align: justify;">No contexto europeu, o Processo de Bolonha impulsionou a integra&ccedil;&atilde;o entre universidades, centros de pesquisa e empresas, criando ecossistemas de inova&ccedil;&atilde;o em &aacute;reas como energia, biotecnologia, intelig&ecirc;ncia artificial e sustentabilidade. Essa aproxima&ccedil;&atilde;o entre academia e mercado fez com que as universidades passassem a operar como plataformas de inova&ccedil;&atilde;o, articulando saber cient&iacute;fico e empreendedorismo tecnol&oacute;gico.</p>

<p style="text-align: justify;">Hoje, essa l&oacute;gica &eacute; amplamente adotada por programas internacionais, como os Horizon Europe, e inspirou pol&iacute;ticas de educa&ccedil;&atilde;o superior em diversos pa&iacute;ses. No Brasil, vejo esse movimento ainda em constru&ccedil;&atilde;o. Nossas universidades enfrentam o desafio de equilibrar tradi&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, autonomia cient&iacute;fica e integra&ccedil;&atilde;o produtiva &mdash; um equil&iacute;brio delicado, mas essencial para ingressar plenamente na economia global do conhecimento.</p>

<p style="text-align: justify;">O que aprendi ao estudar Bolonha &eacute; que a competitividade educacional n&atilde;o nasce apenas de investimento em tecnologia, mas da cria&ccedil;&atilde;o de um sistema org&acirc;nico, em que inova&ccedil;&atilde;o e internacionaliza&ccedil;&atilde;o se retroalimentam. Sem cultura institucional favor&aacute;vel &agrave; mudan&ccedil;a, a inova&ccedil;&atilde;o se torna epis&oacute;dica; sem internacionaliza&ccedil;&atilde;o, perde escala e relev&acirc;ncia.</p>

<p style="text-align: justify;"><strong>Do contexto europeu &agrave; realidade brasileira</strong><br />
No Brasil, o ensino superior &eacute; predominantemente privado, respons&aacute;vel por mais de 80% dos egressos da gradua&ccedil;&atilde;o. Em minha pesquisa, apontei que essa caracter&iacute;stica exige pol&iacute;ticas p&uacute;blicas espec&iacute;ficas para estimular inova&ccedil;&atilde;o e garantir qualidade. A competi&ccedil;&atilde;o, aqui, n&atilde;o pode se limitar &agrave; l&oacute;gica mercadol&oacute;gica &mdash; ela deve se traduzir em vantagem competitiva baseada em valor agregado, reputa&ccedil;&atilde;o e excel&ecirc;ncia acad&ecirc;mica.</p>

<p style="text-align: justify;">Para isso, &eacute; preciso integrar governan&ccedil;a, pol&iacute;ticas de incentivo e cultura organizacional inovadora. A educa&ccedil;&atilde;o brasileira precisa articular o que chamei, na &eacute;poca, de &ldquo;duas m&atilde;os do mesmo processo&rdquo;: a que responde ao mercado (externalidade) e a que transforma internamente suas pr&aacute;ticas (internalidade). S&oacute; assim a inova&ccedil;&atilde;o deixa de ser ret&oacute;rica e passa a ser estrat&eacute;gia.</p>

<p style="text-align: justify;">Nos &uacute;ltimos anos, essa discuss&atilde;o tem ganhado for&ccedil;a. O avan&ccedil;o das tecnologias educacionais e o impacto da intelig&ecirc;ncia artificial trouxeram novas possibilidades de personaliza&ccedil;&atilde;o da aprendizagem e an&aacute;lise de dados em larga escala. Pesquisas recentes do J-PAL e do <strong>VoxDev</strong> demonstram que o uso de IA para feedback automatizado em reda&ccedil;&otilde;es, por exemplo, aumentou o engajamento de alunos e liberou tempo de professores para acompanhamento mais humano. De modo semelhante, estudos publicados no <strong>arXiv</strong> (2024-2025) apontam que o uso de IA generativa como coorientadora em projetos escolares elevou o desempenho e reduziu a resist&ecirc;ncia docente &agrave; inova&ccedil;&atilde;o, desde que aplicada sob governan&ccedil;a &eacute;tica e transparente.</p>

<p style="text-align: justify;">Essas experi&ecirc;ncias ilustram que a inova&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica &eacute; o novo vetor de competitividade institucional. O que antes se limitava &agrave; infraestrutura tecnol&oacute;gica agora depende da capacidade de redesenhar metodologias, reconfigurar curr&iacute;culos e desenvolver compet&ecirc;ncias docentes voltadas ao uso estrat&eacute;gico da tecnologia.</p>

<p style="text-align: justify;">A UNESCO refor&ccedil;a essa vis&atilde;o em seu programa <strong>Technology-Enabled Open Schools</strong> <strong>for All,</strong> desenvolvido em parceria com o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o brasileiro. A proposta &eacute; transformar escolas em ambientes abertos e conectados, promovendo alfabetiza&ccedil;&atilde;o digital, uso &eacute;tico da IA e integra&ccedil;&atilde;o curricular. Esse tipo de iniciativa aponta para o mesmo horizonte de Bolonha: a educa&ccedil;&atilde;o como eixo da transforma&ccedil;&atilde;o social e econ&ocirc;mica.</p>

<p style="text-align: justify;"><strong>Internacionaliza&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o: converg&ecirc;ncia estrat&eacute;gica</strong><br />
A experi&ecirc;ncia europeia demonstrou que a padroniza&ccedil;&atilde;o sem identidade gera riscos, mas a diversidade sem integra&ccedil;&atilde;o gera estagna&ccedil;&atilde;o. Por isso, defendo que o Brasil deve se inspirar em Bolonha sem copi&aacute;-lo, adaptando seus princ&iacute;pios &agrave; nossa realidade.</p>

<p style="text-align: justify;">A internacionaliza&ccedil;&atilde;o das escolas brasileiras deve ir al&eacute;m da ado&ccedil;&atilde;o de curr&iacute;culos estrangeiros. Precisa ser uma estrat&eacute;gia institucional que una mobilidade, coopera&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, inova&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica e protagonismo regional. O objetivo n&atilde;o &eacute; apenas enviar alunos para fora, mas atrair conhecimento, criar redes e projetar internacionalmente a produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica brasileira.</p>

<p style="text-align: justify;">Vejo com otimismo o movimento de algumas universidades e escolas brasileiras que j&aacute; buscam esse caminho, especialmente por meio de parcerias internacionais, programas bil&iacute;ngues, incubadoras educacionais e cons&oacute;rcios de pesquisa aplicada. Essa aproxima&ccedil;&atilde;o entre educa&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o &eacute; o que permitir&aacute; ao pa&iacute;s disputar espa&ccedil;o em um cen&aacute;rio global cada vez mais competitivo e tecnol&oacute;gico.</p>

<p style="text-align: justify;"><strong>Considera&ccedil;&otilde;es finais</strong><br />
O Processo de Bolonha demonstrou que &eacute; poss&iacute;vel alinhar educa&ccedil;&atilde;o, inova&ccedil;&atilde;o e competitividade em um mesmo projeto civilizat&oacute;rio. Sua for&ccedil;a n&atilde;o est&aacute; apenas na reforma estrutural, mas na mudan&ccedil;a de mentalidade que promoveu: a educa&ccedil;&atilde;o passou a ser vista como investimento estrat&eacute;gico, n&atilde;o como despesa.</p>

<p style="text-align: justify;">No Brasil, o desafio &eacute; construir uma trajet&oacute;ria semelhante, adaptada &agrave;s nossas particularidades culturais e econ&ocirc;micas. Precisamos transformar escolas e universidades em organiza&ccedil;&otilde;es inteligentes, capazes de aprender, inovar e cooperar internacionalmente.</p>

<p style="text-align: justify;">Retomando o esp&iacute;rito da minha pesquisa de 2012, reafirmo que a inova&ccedil;&atilde;o &eacute; o motor da competitividade e a internacionaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; o seu combust&iacute;vel. Juntas, elas definem o lugar que o Brasil pode ocupar na economia do conhecimento. O legado de Bolonha n&atilde;o &eacute; europeu: &eacute; universal &mdash; e o futuro da educa&ccedil;&atilde;o brasileira depende de nossa capacidade de transform&aacute;-lo em a&ccedil;&atilde;o concreta, estrat&eacute;gica e sustent&aacute;vel.</p>

<p style="text-align: justify;">Confira no podcast da PROINNOVARE tend&ecirc;ncias internacionais e bons exemplos nacionais para internacionaliza&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o das Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino brasileiras.</p>

<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.proinnovare.com.br/">www.proinnovare.com.br</a></p>

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<p style="text-align: justify;"><em>*Maria Carmen Tavares Christ&oacute;v&atilde;o &eacute; Mestre em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o com &aacute;rea de pesquisa em Inova&ccedil;&atilde;o Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inova&ccedil;&atilde;o, atuou como Reitora, Pr&oacute; Reitora e Diretora de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino de diversos portes e regi&otilde;es no Brasil.</em></p>

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