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Por: ABMES

Meditação e aprendizagem

<p style="text-align: justify;"><em style="text-align: justify;">Por Ronaldo Mota*</em></p>

<p style="text-align: justify;">Imaginemos um docente que, antes de iniciar sua aula t&iacute;pica de duas horas, pe&ccedil;a aos seus educandos que, por cinco minutos, meditem. Uma poss&iacute;vel vis&atilde;o &eacute; que ele acaba de &ldquo;perder&rdquo; 4% do tempo dispon&iacute;vel para o ensino. Outra, bem distinta, seria a percep&ccedil;&atilde;o de que, ap&oacute;s esses cinco minutos, a capacidade de aprendizagem dos alunos se ampliou significativamente.&nbsp;</p>

<p style="text-align: justify;">Acerca de medita&ccedil;&atilde;o, um elemento a ser desmistificado/esclarecido &eacute; que estejamos imaginando nossos estudantes como aprendizes de monges budistas. Nada disso. Estamos falando de pessoas em geral, sem entrar em detalhes sobre a dose de espiritualidade delas. Ao contr&aacute;rio, devemos assumir que, normalmente, s&atilde;o alunos agitados, desconcentrados e com dificuldades de foco, bem com de disciplina. Isso n&atilde;o inviabiliza a possibilidade do processo sugerido; ao contr&aacute;rio, refor&ccedil;a a necessidade desse esfor&ccedil;o docente adicional.&nbsp;</p>

<p style="text-align: justify;">O fato &eacute; que est&aacute; comprovado (ver, por exemplo, os trabalhos de Richard J. Davidson e os ensinamentos de Tadany Cargnin dos Santos) que meditar est&aacute; ao alcance de todos e que apenas cinco minutos di&aacute;rios (quanto mais melhor, naturalmente) de pr&aacute;tica promove transforma&ccedil;&otilde;es que auxiliam na capacidade de foco, em regular emo&ccedil;&otilde;es, reduzir ansiedades e entender melhor seu contexto e as pessoas ao seu redor. Assim, em tese, estimular algum n&iacute;vel de &ldquo;calmaria mental&rdquo; antes da atividade educacional pode ser um solo muito f&eacute;rtil em dire&ccedil;&atilde;o a preparar para a aprendizagem, com resultados positivos mensur&aacute;veis.</p>

<p style="text-align: justify;">Neste momento em que caminhamos, esperamos que assim seja, para o final do processo pand&ecirc;mico e o retorno &agrave;s aulas presenciais (embora isso tudo tamb&eacute;m se aplique, &agrave; sua maneira, aos ambientes virtuais de aprendizagem), adotar estes procedimentos pode ser mais relevante do que nunca. Al&eacute;m da crise sanit&aacute;ria, a pandemia teve e tem como desdobramentos elementos de depress&atilde;o e de ansiedade.</p>

<p style="text-align: justify;">Como promover o est&iacute;mulo &agrave; medita&ccedil;&atilde;o pode atender a in&uacute;meras estrat&eacute;gias, mas a mais simples delas prev&ecirc; os alunos permanecerem quietos de olhos fechados ou concentrados em algo a ser definido pelo docente. Claro que &eacute; poss&iacute;vel ajudar o professor fornecendo algumas orienta&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas, mas n&atilde;o precisa ser algo sofisticado, tampouco deve exigir do docente uma capacita&ccedil;&atilde;o exagerada, sob pena de acabarmos n&atilde;o levando adiante a abordagem.&nbsp;</p>

<p style="text-align: justify;">O que queremos de nossos alunos ao longo da medita&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via ao ensino propriamente? Queremos uma pausa na mente que gere a tranquilidade e a organiza&ccedil;&atilde;o mental m&iacute;nimas que propiciem o foco, ou seja, a concentra&ccedil;&atilde;o que cria espa&ccedil;o mental que viabiliza a aprendizagem de qualidade. Interessante observar que o processo &eacute; em si autoconsistente. &Agrave; medida que o educando pratica e sente seus efeitos positivos, ele amadurece e se engaja cada vez mais, permitindo conhecer a si mesmo, gradativamente ampliando a capacidade de se concentrar nos ensinamentos.</p>

<p style="text-align: justify;">Embora pare&ccedil;a &oacute;bvio que favore&ccedil;a a aprendizagem posterior, os impactos positivos da medita&ccedil;&atilde;o no processo de ensino &eacute; um campo recente de investiga&ccedil;&otilde;es. H&aacute; in&uacute;meros estudos evidenciando este fato. Entre eles, destaco um conduzido na Faculdade de Psicologia da PUC do Rio Grande do Sul mostrando que o simples ato de permanecer focado em sil&ecirc;ncio por alguns minutos melhora a flu&ecirc;ncia verbal dos alunos e, portanto, favorecendo a aprendizagem. Da mesma forma, observou-se o desenvolvendo da criatividade e da habilidade de abstra&ccedil;&atilde;o e a diminui&ccedil;&atilde;o do estresse. O levantamento foi feito no 2&ordm; semestre de 2014 e envolveu crian&ccedil;as do 5&ordm; ano do ensino fundamental (m&eacute;dia de 10 anos) de uma escola p&uacute;blica.&nbsp;</p>

<p style="text-align: justify;">H&aacute; uma extens&atilde;o natural desta abordagem para o ambiente do trabalho, especialmente nas rela&ccedil;&otilde;es interpessoais e nas habilidades necess&aacute;rias para lidar com os desafios di&aacute;rios. Seja no ambiente escolar ou do trabalho, alguns educadores entendem a aprendizagem como estando diretamente associada &agrave; aquisi&ccedil;&atilde;o cognitiva e ao processamento de habilidades e conhecimento em diversas profundidades. Ou seja, o quanto uma pessoa &eacute; capaz de compreender, manipular, aplicar e comunicar um determinado conhecimento e as habilidades a ele acopladas.</p>

<p style="text-align: justify;">Bloom e outros pesquisadores, principalmente ao longo da d&eacute;cada de 1970, estabeleceram uma divis&atilde;o did&aacute;tica por dom&iacute;nios para definir a taxonomia dos objetivos de aprendizagem que ajuda no planejamento do processo de ensino. A aprendizagem pode se dar em tr&ecirc;s dom&iacute;nios principais diferentes: 1) F&iacute;sico, ligado aos cinco sentidos, vis&atilde;o, audi&ccedil;&atilde;o, tato, paladar e olfato; 2) Cognitivo, relacionado a como a pessoa pensa e aprende; 3) Emocional, refere-se &agrave; forma como o indiv&iacute;duo se sente em termos psicol&oacute;gicos e fisiol&oacute;gicos.</p>

<p style="text-align: justify;">Mais recentemente, incorpora-se, no mesmo n&iacute;vel de relev&acirc;ncia, um quarto dom&iacute;nio, a metacogni&ccedil;&atilde;o. Metacogni&ccedil;&atilde;o, etimologicamente, significa &ldquo;para al&eacute;m da cogni&ccedil;&atilde;o&rdquo;, ou seja, a faculdade de conhecer o pr&oacute;prio ato de conhecer, associado &agrave; consci&ecirc;ncia dos atores envolvidos no processo ensino-aprendizagem acerca de como se aprende, incluindo aspectos socioemocionais etc. O conceito de metacogni&ccedil;&atilde;o est&aacute; relacionado ao ato de pensar sobre o pr&oacute;prio pensamento, onde a reflex&atilde;o e a autoconsci&ecirc;ncia sobre a maneira como se aprende tornam-se, progressivamente, mais importantes do que o pr&oacute;prio ato de aprender.&nbsp;</p>

<p style="text-align: justify;">Em resumo, a pr&aacute;tica da medita&ccedil;&atilde;o impacta em todo processo educacional favorecendo a aprendizagem como um todo. Mesmo assim, o dom&iacute;nio metacognitivo &eacute;, provavelmente, aquele que &eacute; mais relevante. &Agrave; medida que a metacogni&ccedil;&atilde;o vai assumindo uma principalidade, a import&acirc;ncia de se levar em conta as possibilidades de exerc&iacute;cios de medita&ccedil;&atilde;o acoplados &agrave; aprendizagem faz cada vez mais sentido.</p>

<p style="text-align: justify;">_____________<br />
<em>*</em><em>Ronaldo Mota</em><em>&nbsp;&eacute; Diretor acad&ecirc;mico do IPD/ITuring e diretor cient&iacute;fico da Digital Pages</em></p>

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