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Por: Carmen Tavares

Mindset, execução e inovação: uma agenda estratégica para o ecossistema empreendedor brasileiro

<p><em>*Por: Carmen Tavares</em></p>

<p style="text-align: justify;">O cen&aacute;rio contempor&acirc;neo do empreendedorismo brasileiro apresenta caracter&iacute;sticas que, ao mesmo tempo, revelam grande potencial e importantes fragilidades estruturais. Dados recentes do Global Entrepreneurship Monitor (GEM 2024/2025) mostram que o Brasil ocupa posi&ccedil;&atilde;o de destaque na economia empreendedora mundial: cerca de 33,4% da popula&ccedil;&atilde;o adulta est&aacute; envolvida em atividades empreendedoras iniciais ou estabelecidas, com crescimento cont&iacute;nuo nos &uacute;ltimos anos. O pa&iacute;s tamb&eacute;m se destaca pelo contingente expressivo de potenciais empreendedores, somando aproximadamente 47 milh&otilde;es de brasileiros que desejam abrir um neg&oacute;cio nos pr&oacute;ximos tr&ecirc;s anos, colocando o pa&iacute;s entre os l&iacute;deres globais em inten&ccedil;&atilde;o empreendedora. Ainda assim, quase metade dos adultos (49%) afirma n&atilde;o empreender por medo de fracassar, evidenciando um paradoxo central: o desejo de empreender cresce, mas a capacidade psicol&oacute;gica de sustentar essa escolha permanece vulner&aacute;vel, influenciada por fatores socioculturais, educacionais e econ&ocirc;micos.</p>

<p style="text-align: justify;">No campo institucional, universidades p&uacute;blicas e privadas v&ecirc;m expandindo sua participa&ccedil;&atilde;o nos ecossistemas de inova&ccedil;&atilde;o, fortalecendo parcerias com governo e iniciativa privada. Parques tecnol&oacute;gicos, incubadoras e centros de inova&ccedil;&atilde;o vinculados a grandes universidades brasileiras apresentam resultados significativos. O Parque Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico da Unicamp e sua incubadora, por exemplo, registraram crescimento expressivo, acumulando faturamento superior a R$ 129 milh&otilde;es em 2024. A UNIFEI conquistou reconhecimento nacional por seu hub de inova&ccedil;&atilde;o, enquanto ambientes como o SUPERA Parque, em Ribeir&atilde;o Preto, consolidaram-se como plataformas importantes para estimular neg&oacute;cios de base tecnol&oacute;gica. No &acirc;mbito nacional, o pa&iacute;s conta hoje com mais de sessenta parques tecnol&oacute;gicos estruturados, segundo dados da Ag&ecirc;ncia Brasil. Esses ambientes oferecem infraestrutura, mentorias, redes de contato e acesso a editais de fomento, compondo um arranjo robusto para apoiar startups em est&aacute;gio inicial.</p>

<p style="text-align: justify;">Apesar desse avan&ccedil;o, a taxa de convers&atilde;o entre inten&ccedil;&atilde;o empreendedora e neg&oacute;cios sustent&aacute;veis permanece baixa. A principal explica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o reside apenas na dimens&atilde;o econ&ocirc;mica ou regulat&oacute;ria, mas tamb&eacute;m em lacunas relacionadas &agrave; prepara&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica dos futuros empreendedores. A literatura aponta que a mera transmiss&atilde;o de conhecimento t&eacute;cnico e de ferramentas de modelagem de neg&oacute;cios n&atilde;o garante persist&ecirc;ncia, capacidade de lidar com incertezas nem continuidade dos projetos ap&oacute;s a conclus&atilde;o dos programas. &Eacute; nesse contexto que evid&ecirc;ncias emp&iacute;ricas recentes, como as apresentadas no estudo sobre interven&ccedil;&otilde;es baseadas no uso de for&ccedil;as pessoais, oferecem uma contribui&ccedil;&atilde;o relevante para repensar a educa&ccedil;&atilde;o empreendedora no Ensino Superior brasileiro.</p>

<p style="text-align: justify;">O estudo analisado investigou uma interven&ccedil;&atilde;o breve, de quatro horas, inserida em um programa de forma&ccedil;&atilde;o empreendedora com base em metodologias de lean startup na cidade de Belo Horizonte. A interven&ccedil;&atilde;o combinava dois elementos: sensibiliza&ccedil;&atilde;o para mentalidade de crescimento e um conjunto estruturado de pr&aacute;ticas de identifica&ccedil;&atilde;o e aplica&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as individuais. Embora a interven&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tenha alterado significativamente a mentalidade de crescimento dos participantes &mdash; possivelmente por esta j&aacute; se apresentar elevada entre jovens que buscam forma&ccedil;&atilde;o empreendedora &mdash; ela produziu efeito consistente no aumento do uso de for&ccedil;as pessoais, efeito esse mantido por pelo menos duas semanas ap&oacute;s sua realiza&ccedil;&atilde;o. Mais importante, o estudo demonstrou que esse uso ampliado de for&ccedil;as prediz maior ader&ecirc;ncia ao programa e inten&ccedil;&otilde;es empreendedoras mais elevadas, convertendo-se, portanto, em uma vari&aacute;vel comportamental determinante para o engajamento e para a consolida&ccedil;&atilde;o da identidade empreendedora.</p>

<p style="text-align: justify;">A transposi&ccedil;&atilde;o dessa evid&ecirc;ncia para o Ensino Superior brasileiro permite identificar caminhos realistas e de alto impacto para fortalecer a forma&ccedil;&atilde;o empreendedora nas universidades. Primeiramente, o uso estrat&eacute;gico das for&ccedil;as pessoais pode funcionar como mecanismo de redu&ccedil;&atilde;o do medo de fracassar, barreira amplamente documentada entre os brasileiros. Ao aprender a reconhecer seus recursos internos, os estudantes tendem a interpretar as dificuldades inerentes ao processo de valida&ccedil;&atilde;o de ideias n&atilde;o como indicadores de incapacidade, mas como terreno para mobilizar habilidades aut&ecirc;nticas. Essa mudan&ccedil;a de interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute; fundamental em contextos de incerteza, nos quais a experimenta&ccedil;&atilde;o, a pivotagem e a reavalia&ccedil;&atilde;o constante fazem parte do cotidiano.</p>

<p style="text-align: justify;">Al&eacute;m disso, inserir interven&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas de curta dura&ccedil;&atilde;o no in&iacute;cio de disciplinas de empreendedorismo, programas de pr&eacute;-acelera&ccedil;&atilde;o e projetos integradores pode elevar significativamente a participa&ccedil;&atilde;o e a perman&ecirc;ncia dos estudantes ao longo do semestre. A aplica&ccedil;&atilde;o de instrumentos de mapeamento de for&ccedil;as, associada &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de implementation intentions, ou seja, planos condicionais do tipo if&ndash;then planning, permite transformar capacidades individuais em estrat&eacute;gias operacionais para situa&ccedil;&otilde;es como entrevistas com usu&aacute;rios, apresenta&ccedil;&atilde;o a bancas avaliadoras, redesign de prot&oacute;tipos e etapas de negocia&ccedil;&atilde;o. Ao sistematizar tais pr&aacute;ticas, as universidades criam ambientes que apoiam a experimenta&ccedil;&atilde;o orientada, refor&ccedil;am a autonomia e ampliam o envolvimento com o processo formativo. Esses if&ndash;then protocols funcionam como gatilhos comportamentais que reduzem hesita&ccedil;&atilde;o, aumentam a precis&atilde;o das respostas e estruturam a tomada de decis&atilde;o dos estudantes diante de incertezas recorrentes.</p>

<p style="text-align: justify;">Outro aspecto relevante diz respeito ao trabalho em equipe. Programas de pr&eacute;-acelera&ccedil;&atilde;o e desafios de inova&ccedil;&atilde;o frequentemente dependem da din&acirc;mica coletiva, e equipes cujos integrantes possuem clareza sobre suas for&ccedil;as tendem a distribuir tarefas de modo mais eficiente, comunicar-se melhor e lidar de forma colaborativa com press&otilde;es e prazos. Inserir a identifica&ccedil;&atilde;o coletiva de for&ccedil;as como etapa formal nos programas universit&aacute;rios pode melhorar a coes&atilde;o, reduzir conflitos e favorecer processos decis&oacute;rios mais consistentes. Esse alinhamento interno permite, inclusive, que mentorias realizadas por profissionais externos sejam mais produtivas, pois os estudantes conseguem identificar rapidamente qual membro da equipe &eacute; mais apto a conduzir determinadas atividades, reorganizando responsabilidades conforme as exig&ecirc;ncias de cada fase do projeto.</p>

<p style="text-align: justify;">Para as universidades que disp&otilde;em de parques tecnol&oacute;gicos e incubadoras, integrar indicadores comportamentais aos sistemas de acompanhamento das startups pode contribuir para uma gest&atilde;o mais estrat&eacute;gica dos programas. Em vez de analisar apenas m&eacute;tricas de desempenho econ&ocirc;mico e t&eacute;cnico, como n&uacute;mero de clientes, evolu&ccedil;&atilde;o do faturamento ou maturidade tecnol&oacute;gica, torna-se poss&iacute;vel monitorar tamb&eacute;m dimens&otilde;es relacionadas ao engajamento dos times, &agrave; consist&ecirc;ncia da participa&ccedil;&atilde;o em mentorias, ao n&iacute;vel de resili&ecirc;ncia durante per&iacute;odos de reorienta&ccedil;&atilde;o do modelo de neg&oacute;cio e &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o do uso de for&ccedil;as ao longo do ciclo de desenvolvimento. Essas informa&ccedil;&otilde;es podem orientar interven&ccedil;&otilde;es mais personalizadas e oferecer evid&ecirc;ncias concretas para pleitear recursos junto a ag&ecirc;ncias de fomento ou investidores privados interessados em ambientes de inova&ccedil;&atilde;o de alta qualidade.</p>

<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, o movimento recente do Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o (MCTI) e da Finep de ampliar investimentos em parques tecnol&oacute;gicos, com aten&ccedil;&atilde;o especial &agrave;s regi&otilde;es Norte e Nordeste, sinaliza uma oportunidade estrat&eacute;gica. Universidades que estruturarem programas capazes de combinar inova&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica com desenvolvimento psicol&oacute;gico ter&atilde;o vantagem competitiva na capta&ccedil;&atilde;o de recursos e na forma&ccedil;&atilde;o de parcerias com corpora&ccedil;&otilde;es e fundos de investimento. Ao demonstrar que suas iniciativas produzem n&atilde;o apenas startups, mas empreendedores mais preparados para operar em cen&aacute;rios complexos, essas institui&ccedil;&otilde;es se posicionam como agentes essenciais na expans&atilde;o da economia do conhecimento no pa&iacute;s.<br />
Assim, ao integrar uma metodologia voltada ao uso consciente das for&ccedil;as pessoais e ao emprego sistem&aacute;tico de implementation intentions, o Ensino Superior brasileiro pode avan&ccedil;ar de um modelo predominantemente t&eacute;cnico para uma abordagem baseada em evid&ecirc;ncias, capaz de fortalecer compet&ecirc;ncias internas necess&aacute;rias para sustentar trajet&oacute;rias empreendedoras. Em um pa&iacute;s com elevado potencial empreendedor, vasta infraestrutura universit&aacute;ria de inova&ccedil;&atilde;o e ecossistemas regionais em consolida&ccedil;&atilde;o, investir no desenvolvimento psicol&oacute;gico dos estudantes n&atilde;o &eacute; um complemento, mas um componente central para transformar inten&ccedil;&atilde;o em realiza&ccedil;&atilde;o. A educa&ccedil;&atilde;o empreendedora que considera as for&ccedil;as individuais como ativo estrat&eacute;gico, apoiada por if&ndash;then planning e protocolos comportamentais precisos, amplia as chances de continuidade dos projetos, fortalece a resili&ecirc;ncia dos empreendedores e contribui para a cria&ccedil;&atilde;o de neg&oacute;cios mais consistentes e inovadores. Dessa forma, universidades se tornam catalisadoras de um processo que combina ci&ecirc;ncia, comportamento e inova&ccedil;&atilde;o, alinhado &agrave;s demandas de um ambiente econ&ocirc;mico din&acirc;mico e competitivo.</p>

<p style="text-align: justify;">N&oacute;s da ProInnovare estamos dispon&iacute;veis para auxiliar a sua IES neste processo. Entre em contato com a Profa. MsC em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o pela UNIFEI, Carmen Tavares, atrav&eacute;s do e-mail contato@proinnovare.com.br&nbsp;<br />
Manual completo sobre a metodologia citada no texto no PodCast em www.proinnovare.com.br&nbsp;</p>

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<p style="text-align: justify;">*Maria Carmen Tavares Christ&oacute;v&atilde;o &eacute; Mestre em Gest&atilde;o da Inova&ccedil;&atilde;o com &aacute;rea de pesquisa em Inova&ccedil;&atilde;o Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inova&ccedil;&atilde;o, atuou como Reitora, Pr&oacute; Reitora e Diretora de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino de diversos portes e regi&otilde;es no Brasil.</p>

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