Nas últimas semanas, fomos amplamente informados pelos veículos de comunicação sobre um problema que impacta profundamente a capacidade do país de inovar, produzir conhecimento científico de ponta e ser protagonista em pesquisas que transformam vidas: o corte significativo no orçamento das universidades federais. Ao reduzir os recursos na casa de dezenas de milhões de reais para 2026, o orçamento da União reafirma uma trajetória preocupante que vem se estendendo por mais de uma década.
Ao contrário do que muita gente pode pensar, os impactos dessa prática vão muito além de comprometer a formação dos estudantes matriculados nessas universidades. Essa redução de recursos tem efeitos concretos na produção de ciência e tecnologia e na formação de pesquisadores que o Brasil tanto precisa para enfrentar desafios sociais, econômicos e ambientais impostos por esses tempos tão disruptivos.
Universidades federais são, historicamente, centros de excelência em pesquisa e inovação. Laboratórios que desenvolvem tecnologia de ponta, projetos que contribuem com a saúde pública e grupos de pesquisa que respondem a demandas sociais complexas são frutos desse ecossistema.
Recentemente, a divulgação de que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveu um medicamento capaz de devolver mobilidade a pessoas tetraplégicas despertou um sentimento coletivo de esperança e orgulho. A conquista reforça a percepção de que o Brasil tem potencial para alcançar feitos científicos de reconhecimento internacional, quem sabe até um inédito Prêmio Nobel. Mas resultados como esse não surgem do nada: foram necessários 25 anos de trabalho contínuo, pesquisa rigorosa e investimentos consistentes.
Em síntese, resultados como o obtido pela UFRJ somente são possíveis porque pesquisadores, técnicos e estudantes contam com infraestrutura, fundos para projetos e continuidade de trabalho. Quando o orçamento é reduzido, tudo isso fica ameaçado. Equipamentos param de ser mantidos, bolsas de estudo ficam congeladas e novos projetos sequer conseguem sair do papel.
Ao longo dos anos, o corte sistemático desses recursos forçou muitas instituições a buscar alternativas improvisadas para sobreviver, como depender cada vez mais de emendas parlamentares cujo destino nem sempre está alinhado à estratégia científica ou ao interesse público.
Essa dependência de mecanismos de financiamento emergenciais e fragmentados cria vulnerabilidades profundas. Ela desloca o planejamento de longo prazo para um modelo reativo, em que cada edital ou projeto tem que ser renegociado ano a ano, segundo prioridades que podem mudar conforme a agenda política. Trata-se de uma realidade que não é sustentável e nem compatível com a natureza de projetos científicos que demandam continuidade e estabilidade financeira.
Pesquisa científica é uma base fundamental para a inovação industrial, para a competitividade internacional e para a capacidade do país de responder a crises. O fortalecimento do sistema de ciência e tecnologia está diretamente ligado à geração de empregos de alta qualificação, ao desenvolvimento de patentes, à atração de investimentos e à capacidade de produzir soluções próprias para problemas complexos.
Quando instituições de ensino superior ficam sem recursos suficientes, não só projetos específicos são suspensos, como também se enfraquece toda uma cadeia de agregar valor à economia nacional, desde startups incubadas em universidades até parcerias estratégicas com empresas e centros de pesquisa.
Além disso, cortes orçamentários em universidades públicas têm repercussões profundas no cenário social. Eles afetam a formação de novos doutores e mestres, reduzem bolsas de pesquisa e postergam a participação de estudantes em atividades que ampliam horizontes e fomentam talentos. Em última análise, negligenciar o financiamento das universidades públicas é negar ao país a chance de crescer sobre uma base forte de capital humano qualificado.
É compreensível que governos enfrentem restrições orçamentárias e precisem equilibrar contas públicas. No entanto, as escolhas sobre onde aplicar recursos refletem prioridades nacionais. Reduzir o orçamento de instituições que produzem pesquisa de qualidade e geram inovações com impacto social é, no mínimo, uma visão míope de desenvolvimento. Países que almejam liderança em ciência e tecnologia aumentam, não diminuem, o financiamento de seus centros de saber.
Enquanto as instituições privadas de educação superior exercem um papel estratégico e incontestável na ampliação e na democratização do acesso ao nível terciário do sistema educacional brasileiro, as universidades públicas se consolidam como polos centrais de produção científica, desenvolvimento tecnológico e inovação. Consistem, portanto, em dois sistemas complementares e essenciais para o progresso do nosso país.
O Brasil não pode abdicar do seu potencial inovador. Ainda é possível reverter essa trajetória, seja por meio de reavaliação de prioridades fiscais, seja pela mobilização institucional e pela construção de consensos em torno da importância da educação superior pública e da pesquisa científica.
Uma nação que prioriza conhecimento, ciência e tecnologia constrói as bases para um futuro mais justo, próspero e sustentável. As universidades federais precisam ser reconhecidas não como um custo a ser reduzido, mas como um investimento imprescindível para que o Brasil avance enquanto nação.




