Como ensinar a dúvida metódica de Descartes ou o estado de natureza em Hobbes sem uma aula expositiva tradicional? Essa foi a pergunta —legítima— que recebi após defender, neste espaço, a necessidade de mudança na universidade. A resposta é menos paradoxal do que parece: se quisermos preservar a teoria, precisamos libertá-la da hegemonia da aula expositiva permanente.
Não está em jogo a função da universidade, nem o valor do professor, muito menos a centralidade da teoria. O que muda é a arquitetura da aprendizagem. A necessidade de transformação não anuncia o fim da universidade —ao contrário, revela sua histórica capacidade de adaptação em momentos de ruptura.
No modelo tradicional, a aula expositiva é começo, meio e fim. No novo modelo, ela perde hegemonia, mas ganha nobreza. Deixa de ser o padrão massivo de transmissão e passa a ocupar o momento certo: o espaço de síntese, interpretação e densidade conceitual, quando o estudante já experimentou, debateu, testou hipóteses e errou. Inverte-se a lógica pedagógica: primeiro o problema, depois o conceito; primeiro a experiência, depois a teoria que a ilumina.
Essa inversão só se tornou viável em escala porque a inteligência artificial integrou-se à infraestrutura do conhecimento. É a IA que permite acompanhar percursos individuais, adaptar ritmos, registrar evidências de aprendizagem e oferecer feedback contínuo —algo impraticável no modelo industrial sem apoio algorítmico.
Imagine um estudante de medicina que, em uma simulação realista, precisa decidir qual paciente priorizar em uma emergência lotada. Ele vive o dilema antes de ouvir Kant. Quando chega à aula expositiva, não é mais um espectador passivo —está sedento por sentido. A teoria não disputa com o mundo; nasce dele.
Aprender deixa de ser recepção e passa a ser um processo ativo e personalizado. Esse raciocínio não se limita às humanidades. Vale igualmente para as ciências exatas, da saúde e engenharias. A teoria ganha densidade quando se conecta à experiência —não quando apartada dela.
O modelo que emerge, com práticas, simulações, desafios públicos e bancas orais, exige mais julgamento, autonomia e responsabilidade, não menos. Treinamento repete; conhecimento interpreta. É exatamente nesse espaço que entram Descartes, Hobbes e Kant. Longe de desaparecer, a tradição ganha fôlego.
A inteligência artificial é o fator estruturante dessa transformação. Não substitui o professor; amplia seu alcance. Um "gêmeo pedagógico", treinado no currículo e nas rubricas do curso, pode organizar percursos, identificar lacunas e sugerir caminhos personalizados. Pela primeira vez, superamos o dilema histórico entre escala e qualidade. Mas a IA não tem consciência ética, não media conflitos, não exerce julgamento moral —e é justamente aí que o papel do professor se torna ainda mais central.
A universidade continua sendo o principal fator estruturante do desenvolvimento humano, social e econômico das nações. É nela que se formam profissionais, cientistas, lideranças e valores. O debate não é sobre sua relevância, mas sobre sua arquitetura.
A transformação não ocorre porque a universidade fracassou, mas porque o mundo acelerou —e porque a inteligência artificial alterou profundamente como aprendemos, ensinamos e avaliamos. Em todas as grandes fases da história, foi a universidade que liderou a formação de pessoas e ideias. Na era da IA, essa responsabilidade não diminui, aumenta.
O jovem formado hoje não rejeita a teoria. Rejeita a irrelevância. Não recusa Descartes, Kant ou Hobbes. Recusa aprendê-los como se o mundo ainda fosse analógico. A aula expositiva permanece. O que termina é a ilusão de que ela basta. Menos transmissão, mais formação. Menos rotina, mais propósito. Menos instrução, mais humanidade.
-------------------------------------------------------------------
Este artigo foi publicado originalmente na Folha de S.Paulo no dia 09/04/2026.




