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Ciência além da sala de aula: um direito para garantir o futuro do Brasil

Celso Niskier

Presidente do Conselho de Administração da Abmes
Membro do Conselho Nacional de Educação e Reitor do Centro Universitário UniCarioca.

13/01/2026 09:30:00

O Brasil aprovou recentemente, no Conselho Nacional de Educação, um marco que pode mudar o rumo das escolas e das universidades brasileiras: as Diretrizes Orientadoras para a Integração da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) na Educação, estabelecidas pelo Parecer CNE/CP nº 25/2025. O nome pode soar técnico, mas seus efeitos são profundamente humanos e urgentes.

Vivemos um momento em que o mundo se transforma na velocidade dos algoritmos. A inteligência artificial reorganiza profissões. A crise climática exige engenhosidade científica. A desinformação ameaça a própria democracia. Diante desse cenário, o Brasil não pode mais separar educação de ciência, escola de cidadania, pesquisa de vida cotidiana.

O documento aprovado pelo CNE parte de uma afirmação poderosa: a ciência é um direito de aprendizagem, assim como ler, escrever e conviver. Sem acesso à cultura científica, milhões de brasileiros permanecem à margem das decisões, do trabalho qualificado e das oportunidades do século XXI. A ciência deixa de ser um privilégio para se tornar fundamento de cidadania.

As diretrizes reconhecem também que o professor é o protagonista dessa revolução tranquila. Não basta colocar computadores nas escolas: é preciso formar docentes para investigar, criar, experimentar, conectar conhecimentos e inspirar a curiosidade que move cada estudante. E isso exige políticas de valorização, autonomia e formação continuada, não discursos vazios.

Outro ponto crucial: a inovação nasce no território. Uma escola na Maré pode ser laboratório de soluções para mobilidade urbana; uma universidade em Santarém pode desenvolver tecnologias sociais para populações ribeirinhas; um instituto federal ou uma universidade, no interior, pode formar jovens para indústrias verdes e digitais. A ciência se fortalece quando se enraíza na vida real.

As recomendações aprovadas propõem clubes de ciências, iniciação científica desde cedo, laboratórios vivos, feiras de conhecimento, projetos comunitários e colaboração com universidades, museus e empresas. Não se trata de um currículo engessado, mas de educação como experiência transformadora.

É preciso reconhecer: há um abismo de desigualdades no acesso à ciência. Meninas, negros, indígenas, crianças do campo e das periferias ainda são empurrados para fora do sonho científico. Democratizar aCT&I é combater desigualdades cognitivas, talvez as mais profundas de todas. Quando a escola desperta vocações, ela muda trajetórias, famílias, comunidades inteiras.

As Diretrizes de CT&I na educação são um passo decisivo para reposicionar o Brasil no mundo. Não queremos apenas consumir tecnologia importada, mas desenvolver ideias originais, gerar soluções brasileiras para problemas globais, formar mentes criativas capazes de inovar com propósito.

Aprová-las é importante. Implementá-las é vital.

É hora de governos financiarem, gestores priorizarem, professores se empoderarem e toda a sociedade compreender que nossa soberania passa pela educação científica. Se o Brasil quiser ser protagonista na economia do conhecimento, precisa garantir que toda criança tenha acesso a laboratórios de sonhos e descobertas.

O futuro não espera. E a educação que não abraça a ciência condena seus estudantes a viver no passado.

Com essas diretrizes, o Brasil diz, finalmente: ciência para todos. Agora, a escola e a educação superior devem fazer esse anúncio ecoar em cada sala de aula e para além desta.


Celso Niskier é diretor presidente da ABMES, relator das Diretrizes Orientadoras para a Integração da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) na Educação e Membro do CNE. Paulo Fossatti é presidente da Comissão de Educação Superior do CNE e Reitor da Universidade La Salle.

Este artigo foi publicado originalmente no portal Correio Braziliense no dia 06/01/2026.

 

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