Universidade e Ecossistemas de Inovação

Espaço destinado à atualização periódica de tecnologias nacionais e internacionais que podem impactar o segmento educacional e, portanto, subsidiar gestores das instituições de ensino para que sejam capazes de agir proativamente olhando para essas tendências.

14/09/2026 | 29

Universidade e Ecossistemas de Inovação

Por: Carmen Tavares*

 

Em março de 2025, escrevi sobre a revolução provocada pela Aprendizagem Baseada em Desafios, a Challenge Based Learning — CBL —, metodologia desenvolvida pela Apple em colaboração com educadores. Naquele momento, interessava-me especialmente compreender como uma empresa reconhecida mundialmente pela tecnologia havia ultrapassado os limites de seus dispositivos e softwares para participar da discussão sobre algo muito mais complexo: como aprendemos.

 

A questão continua atual, mas talvez hoje mereça ser ampliada.

A transformação da educação não está na tecnologia. Está no que conseguimos fazer com ela.

A própria Apple define a CBL como uma estrutura flexível que transforma estudantes em coautores de sua trajetória de aprendizagem, organizando o processo em três movimentos interligados: engajar, investigar e agir. O ponto central permanece extremamente contemporâneo: utilizar o conhecimento para enfrentar desafios pessoais, comunitários ou globais.

 

Mas outras instituições avançaram nesse caminho e nos obrigam a formular uma pergunta mais incômoda: qual é, afinal, o valor de uma universidade que produz conhecimento, mas não consegue transformá-lo em ação?

 

Durante décadas, organizamos o ensino superior a partir de uma lógica relativamente previsível. O professor conhecia. O aluno aprendia. A avaliação verificava quanto daquele conhecimento havia sido absorvido. O diploma certificava o processo.

 

Esse modelo já não responde sozinho à complexidade contemporânea.

 

Hoje, uma proposta educacional verdadeiramente inovadora precisa articular conhecimento, tecnologia, experimentação, capacidade de decisão e impacto. Não se trata de tornar a universidade refém das demandas imediatas do mercado, muito menos de reduzir formação superior a treinamento profissional. Trata-se exatamente do contrário: formar pessoas capazes de compreender situações complexas, mobilizar diferentes campos do conhecimento e produzir respostas para problemas que ainda não possuem soluções prontas.

 

É nesse ambiente que a aprendizagem baseada em desafios e a aprendizagem baseada em projetos ganham outra dimensão.

O estudante deixa de executar exercícios sobre problemas que alguém já resolveu. Passa a lidar com situações nas quais precisa pesquisar, escolher caminhos, testar hipóteses, trabalhar em grupo, errar, rever decisões e entregar alguma coisa que possa ser confrontada com a realidade.

É a verdadeira “hands on”, mas com densidade intelectual.

 

Na Aalto University, na Finlândia, por exemplo, desafios apresentados por empresas, organizações públicas e pela própria sociedade são incorporados às atividades acadêmicas. A universidade descreve sua abordagem como aprendizagem organizada colaborativamente em torno de problemas reais, desenvolvida em projetos liderados pelos estudantes e com participação de parceiros externos. A intenção não é simular o mundo profissional dentro da sala de aula. É permitir que parte desse mundo entre efetivamente nela.

 

No MIT Sloan, encontramos princípio semelhante no chamado Action Learning. A expressão latina que acompanha historicamente o MIT — mens et manus, mente e mãos — talvez seja uma das melhores sínteses dessa concepção. Estudantes aplicam teorias e modelos acadêmicos a desafios concretos apresentados por organizações, trabalhando com problemas de negócios que envolvem incerteza, decisões e consequências reais.

 

E não precisamos atravessar o Atlântico para encontrar bons exemplos.

 

Em 2026, estudantes da Escola de Engenharia de Lorena da USP participaram, juntamente com alunos de diversas universidades brasileiras, de um desafio real da indústria de bioprocessos estruturado explicitamente segundo a metodologia de Challenge-Based Learning. As equipes tiveram de trabalhar com escalonamento de processos, modelagem, critérios técnicos e viabilidade. Aqui existe uma diferença fundamental: o conhecimento não termina quando o aluno demonstra que compreendeu determinado conteúdo; ele precisa mostrar o que consegue fazer com aquilo que compreendeu.

 

A Ilum Escola de Ciência, vinculada ao CNPEM, segue outra experiência interessante. Seus estudantes são inseridos desde o início da graduação em ambiente de pesquisa, experimentação e aprendizagem prática. Na Universidade Federal de Santa Maria, por sua vez, a criação de um Foodtech FabLab aproxima ciência, prototipagem, empreendedorismo e experimentação, oferecendo infraestrutura para que ideias sejam testadas e validadas.

 

O que essas experiências têm em comum?

 

Elas deslocam a universidade de uma posição predominantemente transmissora para uma posição orquestradora de experiências de aprendizagem.

E talvez esteja justamente aí uma das grandes mudanças que teremos de enfrentar.

O futuro da educação não será determinado pela quantidade de tecnologia disponível dentro de uma instituição. Inteligência artificial, ambientes digitais, laboratórios, realidade aumentada ou plataformas sofisticadas podem modernizar a infraestrutura sem necessariamente transformar a aprendizagem. Uma aula tradicional transmitida por uma tela continua podendo ser apenas uma aula tradicional.

 

A inovação aparece quando a tecnologia amplia aquilo que o estudante consegue investigar, construir, conectar ou transformar.

Essa discussão nos leva também ao conceito da Tríplice Hélice, que aproxima universidade, empresas e governo na construção dos ecossistemas de inovação. A Triple Helix Association tornou-se uma importante rede internacional para pesquisadores, gestores públicos e profissionais interessados exatamente nessa interação. Seus congressos reúnem academia, indústria e governo para discutir inovação, desenvolvimento econômico e transformação social.

 

Há algo particularmente interessante na forma como essa comunidade reconhece a produção acadêmica.

Nas conferências da Triple Helix existem premiações como Best Conference Paper, Early Career Research Award, Best Conference Poster e, significativamente, Best Practical Innovation Case. Entre os critérios de julgamento aparece não somente o rigor acadêmico, mas também a possibilidade de implementação eficiente da proposta. Em edições anteriores, premiações foram anunciadas durante o tradicional Gala Dinner da conferência.

 

O simbolismo é poderoso.

 

Um paper não deveria encerrar sua trajetória em uma base bibliográfica.

Quando uma pesquisa consegue interferir em uma política pública, melhorar um processo empresarial, criar uma tecnologia, reorganizar determinado território ou produzir impacto social, a universidade cumpre uma dimensão muito mais ampla de sua missão.

 

Há um caso brasileiro emblemático. Em 2021, um trabalho sobre a articulação da Lei de Inovação do Paraná recebeu o prêmio de melhor caso prático na conferência da Triple Helix. O reconhecimento veio justamente de uma experiência que envolveu governo, universidades e iniciativa privada e cuja produção acadêmica estava associada a uma intervenção concreta no ecossistema regional de inovação.

 

Talvez devêssemos provocar nossos estudantes com uma pergunta parecida. Depois de aprender tudo isso, o que você é capaz de transformar?

 

Essa pergunta altera profundamente a lógica educacional.

 

Conexão com o futuro não significa apenas preparar alguém para ocupar um emprego que existe hoje. As profissões mudam, ferramentas desaparecem, tecnologias tornam-se obsoletas e competências técnicas precisam ser continuamente reconstruídas.

Formar para o futuro é formar pessoas capazes de aprender novamente.

É também formar cidadãos que compreendam que competência profissional e responsabilidade social não são dimensões antagônicas. O conhecimento adquirido em uma universidade ganha valor quando retorna à sociedade: melhorando uma empresa, criando um negócio, aperfeiçoando um serviço público, transformando uma comunidade ou oferecendo respostas a um problema coletivo.

Talvez a universidade mais inovadora não seja, portanto, aquela que possui mais tecnologia.

Pode ser aquela que formule as melhores perguntas.

Que coloca seus estudantes diante de problemas que realmente importam.

Que aproxima pesquisadores, empresas, governos e comunidades.

Que permite experimentar antes de afirmar, prototipar antes de concluir e aprender também com aquilo que não funcionou.

E que compreende, finalmente, que entre saber e fazer existe um território extraordinariamente fértil chamado aprendizagem.

 

É nesse território que a educação poderá continuar fazendo aquilo que sempre justificou sua existência: não apenas acompanhar o futuro, mas ajudar a construí-lo.

Abaixo um professor brasileiro, Prof. Ph.d. Artur Tavares Vilas Boas, recebendo o prêmio das mãos de Henry Etzcowitz, criador da teoria da tríplice hélice e presidente da associação que leva o seu nome. O prêmio foi concedido pelo fato do professor ter o seu paper como o mais lido no mundo no ano de 2017. O paper abordou metodologias e tecnologias do MIT através de pesquisa realizado in loco.

Professor Ph.d Artur Tavares Vilas Boas Ribeiro e Henry Etzkowitz na Triple Helice Association. 2017. Fonte: a autora.

 

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*Maria Carmen Tavares Christóvão é Mestre em Gestão da Inovação com área de pesquisa em Inovação Educacional. Diretora da Pro Innovare Consultoria de Inovação Educacional, atuou como Reitora, Pró Reitora e Diretora de Instituições de Ensino de diversos portes e regiões no Brasil.

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Carmen Tavares

Gestora educacional e de inovação com 28 anos de experiência em instituições de diversos portes e regiões, com considerável bagagem na construção de políticas para cooperação intersetorial, planejamento e gestão no ensino privado tanto na modalidade presencial quanto EAD. Atuou também como executiva em Educação Corporativa e gestora em instituições do Terceiro Setor. É mestre em Gestão da Inovação pela FEI/SP, com área de pesquisa em Capacidades Organizacionais, Sustentabilidade e Marketing. Pós-graduada em Administração de Recursos Humanos e graduada em Pedagogia pela UEMG.

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