Espaço destinado à atualização periódica de tecnologias nacionais e internacionais que podem impactar o segmento educacional e, portanto, subsidiar gestores das instituições de ensino para que sejam capazes de agir proativamente olhando para essas tendências.

15/06/2021 | 2089

Impactos das políticas de educação no sistema de inovação

Alvo generalizado de debates é o sucesso econômico obtido por Israel citado como claro exemplo de um sistema educacional que fomenta o empreendedorismo e a inovação. Da mesma forma que, ao longo da história, alguns povos têm demonstrado que é possível superar adversidades naturais, culturais, sociais, demográficas e edificar um novo modelo de sociedade, Israel ilustra com perfeição esta possibilidade. Vejam a ficha técnica:

  • Um país com menos de 70 anos;
  • Um dos menores países do mundo em dimensão territorial;
  • Durante toda sua história passou por mais conflitos de guerra que o Japão ou o Reino Unido;
  • Apenas 9,021 milhões de habitantes;
  • Escassos recursos hídricos;
  • Fustigado intensamente com conflitos entre países fronteiriços.

Ainda assim, chegou aonde chegou. Possui hoje um número bastante expressivo de empresas científicas de tecnologia avançada no mercado de ações de tecnologia (NASDAQ). Destaca-se mundialmente em áreas importantes como segurança, biotecnologia, equipamentos médicos, tecnologia da informação e tecnologias sustentáveis.

Nos últimos dois anos, no processo de transformação digital de Israel, Patrícia Lahy, diretora sênior de pesquisa e desenvolvimento em inovação do governo israelense, aposta na inovação para agregar importância aos investimentos de impacto com o objetivo de gerar aportes na área social, de saúde, de educação, entre outros. Diz Patrícia que "esses investimentos fornecem capital utilizado para criar soluções para desafios sociais ou ambientais, como energia renovável, agricultura sustentável, acesso a serviços básicos, incluindo saúde, educação e moradia acessível." Os investimentos vêm, na realidade, através de iniciativas que incentivam empreendedores e organizações a oferecerem soluções tecnológicas inovadoras para atender as demandas do setor público nas áreas de saúde, educação, previdência, economia, direito, governo local, entre outros. Ela ainda apresenta uma série de ferramentas criadas por startups para melhorar o processo de alfabetização digital, e outras para preparar os alunos para o mundo do trabalho.

Dan Senor e Saul Singer, autores do livro Nação Empreendedora, definem o país de Israel como a terra das empresas iniciantes (startups) e dizem que mais empreendimentos se abrem no local do que em nações estáveis e sem conflitos, como Japão e Reino Unido. Também relacionam a disposição para o empreendimento e para inovação demonstrada pela indústria do país com características culturais, educacionais e filosóficas do povo de Israel. Os autores apontam que esse comportamento empreendedor pode ser adotado por empresários de todo o mundo. Isso alberga, como vimos acima, o segmento educacional diante de um mundo cada vez mais competitivo em que o conhecimento assume papel extremamente relevante e onde há um ambiente propício para a geração e transferência de novos conhecimentos.

Ao observarmos os rankings internacionais, o Brasil aparece na lanterna das posições em que se mensura o grau e a qualidade de instrução. Esse é um dos aspectos, entre muitos outros, em que se conclui que a educação não é prioridade para o país, portanto, é periférica.

Quando a educação se torna periférica deve-se buscar alternativas para imprimir características inovadoras nos espaços formais e informais nesta área. Percebe-se a necessidade de ações inovativas partindo de gestores, educadores e professores conscientes que atuam nos espaços acadêmicos e também nos espaços informais de educação.

Trata-se da busca pela desconstrução de modelos arcaicos que resultam  em uma formação pouco competitiva e efetiva para a realidade do século XXI. Na sociedade do conhecimento, o currículo ou os saberes dentro dos espaços formais de educação devem estar em sintonia com as demandas globais e com a nova natureza do conhecimento, que não é mais cumulativa, mas alicerçada nos desafios globais presentes e futuros. Há, portanto, a necessidade de buscar e incorporar novas técnicas, tecnologias, metodologias e procedimentos, tanto na área de entrega da educação, quanto na área de relacionamento com os seus pares, alunos, professores e a sociedade em geral, que possam transformar instituições de ensino em espaços para inovação que realmente colabore para o desenvolvimento de CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação).

Se há um lugar que deva albergar uma metodologia criativa e instigante, composta por uma boa dose de estímulo ao empreendedorismo e inovação, esse espaço é o ambiente universitário, pois é preciso considerar que na economia formal, o emprego com carteira assinada está cada dia mais escasso. Como em Israel, é necessário desenvolver uma cultura de empreendedorismo e inovação não apenas nos ambientes de negócios e nas universidades, mas no entorno social das instituições educacionais.

Voltando ao contexto que muitos desconhecem sobre a educação em Israel. Desde a infância, os judeus são levados a desenvolver o lado criativo que resultará em processos de inovação. Os parques infantis deixam à disposição das crianças materiais como sucata que estimulam a criação na experiência lúdica. O ato de questionar e interrogar estão presentes desde a infância, diferentemente de outras culturas. Para o ex-presidente israelense, Shimon Peres, “as pessoas preferem se lembrar a imaginar. A memória cuida de aspectos familiares; a imaginação trata do desconhecido e, por isso, pode ser assustadora”.

Nas escolas em Israel, a experiência de atuar coletivamente e no enfrentamento de desafios e problemas é uma prática muito comum. Ao término do ciclo que, para nós, representaria o ensino básico, antes de ingressarem na faculdade, tanto os meninos quanto as meninas passam pelo serviço militar, onde o exercício de tomada de decisões, liderança, criatividade e resolução de conflitos são constantes. Há a necessidade de aprenderem a lidar com inúmeras variáveis buscando a melhor solução para as operações realizadas. Por exemplo, um jovem de 20 anos tem que estar pronto para uma situação de risco, pensar em poucos segundos como evacuar uma área, proteger pessoas, impedir catástrofes e mobilizar o inimigo. Portanto, são habilidades e competências adquiridas ao longo da vida que os tornam criativos e empreendedores, uma mola mestra para inovação científica e tecnológica e para o desenvolvimento econômico do país.

Outro fator que deve ser considerado na cultura de Israel é que um jovem militar, que tenha alcançado êxito em uma missão, é tão valorizado pela sociedade quanto um doutor em qualquer área do conhecimento. Este reconhecimento social faz com que o jovem desempenhe suas atividades militares com o máximo de competência técnica, cognitiva, emocional e comportamental. O rabino Adrián Gottfried, sênior da comunidade Shalow de São Paulo observa que “a criatividade, a capacidade de inovação e o grau de prosperidade alcançados por esta nação em meio a tantos problemas é simplesmente admirável!”.

A inovação educacional passa por um currículo que atenda às reais demandas da sociedade e que construa novas competências profissionais para o aluno que irá atuar em um mercado cada vez mais global. Uma formação de sujeitos criativos, críticos, autônomos e empreendedores. Nesse sentido, no Brasil, as práticas de formação são periféricas, ou seja, não atingem o âmago das questões realmente indispensáveis para uma sólida formação, tornando, assim, pífios os resultados, no sentido de levar o Brasil para um status de nação empreendedora através da educação. Somando-se ao fator educacional existem, as políticas econômicas desanimadoras com escassez de financiamento e alta carga tributária para a iniciativa privada.

Os sistemas educacionais do século XXI devem adquirir novas competências apoiadas em ações inovativas para formação de profissionais capazes de responder aos desafios e demandas globais do mercado e da sociedade. Uma nação competitiva possui um modelo de educação que interage com a sociedade, criando condições para que as empresas e organizações nele instaladas cresçam e se desenvolvam. Só assim ela deixará de ser periférica.

Curtir:

Compartilhar:

Carmen Tavares

Gestora educacional e de inovação com 28 anos de experiência em instituições de diversos portes e regiões, com considerável bagagem na construção de políticas para cooperação intersetorial, planejamento e gestão no ensino privado tanto na modalidade presencial quanto EAD. Atuou também como executiva em Educação Corporativa e gestora em instituições do Terceiro Setor. É mestre em Gestão da Inovação pela FEI/SP, com área de pesquisa em Capacidades Organizacionais, Sustentabilidade e Marketing. Pós-graduada em Administração de Recursos Humanos e graduada em Pedagogia pela UEMG.

contato@proinnovare.com.br - www.proinnovare.com.br