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Número de estudantes que deixaram universidades em 2016 chega a 30% das matrículas

13/11/2017 | Por: Estado de Minas | 365
Jair Amaral/EM/D.A PRESS Matheus Queiroz (centro) deixou o curso de jornalismo para investir no vôlei "Este era meu último e decisivo ano".

Terminada a maratona de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a ansiedade de 4,3 milhões de participantes do Brasil inteiro agora é outra: a expectativa do resultado. Isso porque a nota da avaliação é decisiva para uma vaga em universidade federal, processos seletivos das faculdades privadas, além da obtenção de bolsas e financiamento estudantil. Mas a concorrência acirrada para entrar num curso superior termina, lá na frente, muitas vezes, em abandono de um número surpreendente de vagas. Somente em 2016, conforme mostram dados do Censo da Educação Superior divulgados recentemente, 3,4 milhões de alunos de instituições públicas e particulares país afora deixaram para trás suas cadeiras de universitários. Isso equivale a 30% do total de matrículas. É como se a população inteira do estado de Alagoas tivesse desistido, por motivos diversos, que vão de problemas financeiros ao desinteresse pelo curso da graduação. Em Minas Gerais, no ano passado, foram 257.396 vagas ociosas (24% das matrículas totais).

As instituições privadas concentram a maior quantidade de vagas ociosas – 2,89 milhões (85,3% delas) –, enquanto nas públicas elas estão na casa do meio milhão (14,7% das cadeiras que foram deixadas). O Censo aponta motivos diversos para essa ociosidade: matrículas trancadas, desvinculadas, transferência para outro curso na mesma instituição e alunos falecidos. Mas os números mais gritantes se referem às matrículas desvinculadas, que dizem respeito a estudantes desistentes e desligados, ou seja, alunos que por iniciativa da instituição tiveram a vaga cancelada – por abandono, descumprimento de alguma condição ou desligamento voluntário (quando sai da faculdade, mas não formaliza o cancelamento).

No Brasil, as desvinculadas somaram 2.029.687 (17,7%) do total de 11,4 milhões de alunos matriculados. Dessas, 86% estavam na rede privada. Em Minas, o percentual também é alto: dos 1,07 milhão de estudantes, 176.080 abandonaram o curso (16,4% do total de matrículas), sendo 83,4% deles na rede privada. Os números tiveram um salto nos últimos cinco anos. Em 2012, as vagas ociosas no Brasil somavam 2,4 milhões, sendo 82,5% nas instituições particulares. Em Minas Gerais, estavam em menos de 200 mil (21,2% dos universitários). Há cinco anos, as matrículas desvinculadas giravam em torno de 1,4 milhão no país e de 133 mil nas instituições localizadas em território mineiro.

O atleta Matheus Menezes Simões Queiroz, de 19 anos, entrou nas estatísticas. Ele começou o curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), mas decidiu, na metade do 1º período, deixar os estudos para perseguir seu sonho de se tornar jogador de vôlei profissional. “Este era meu último e decisivo ano. Apostei todas as fichas. Como passei a treinar de manhã e teria de estudar à noite, preferi sair”, conta o atleta do Olímpico. Ele pensa em retomar a graduação no ano que vem, mas, desta vez, no curso de educação física.

O jovem Lucas Rezende Lima, de 26, também deixou a faculdade para trás, no 3º período de jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), ano passado, sem formalizar o cancelamento da matrícula. “Foi um misto de motivos. Primeiro, por causa da crise financeira que se estabeleceu no país e também porque o curso não estava atendendo tão bem às minhas expectativas. Imaginava outras coisas e quando percebi como era na prática a profissão, não me interessei muito”, afirma.

A estudante Lorenna Narciso Costa, de 20, não teve tempo nem de trancar a matrícula por causa de um problema de saúde repentino. No início do curso de odontologia do Centro Universitário Newton Paiva, ela descobriu uma trombose cerebral. A garota fez novamente o Enem para tentar outra vaga em 2017. “Estou bem de saúde agora e é isso que importa.”

O Ministério da Educação (MEC) informou, por meio da assessoria de imprensa, que, no caso das instituições federais, não pode medir os possíveis prejuízos do abandono das vagas. Isso porque a efetiva ocupação das vagas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) está sob a responsabilidade das instituições, no âmbito da autonomia conferida pela Constituição Federal, sendo a adesão delas facultativa. Acrescentou que compete às instituições federais, que têm autonomia para criar mecanismos próprios, preencher as vagas não ocupadas no processo regular. “Cada instituição pode adotar uma metodologia própria para a ocupação das vagas. O Sisu trabalha apenas com novos ingressos e não com vagas ociosas, sendo que tem média de 86,9% de ocupação das vagas ofertadas, desde a sua criação, o que facilita e ajuda as instituições a preenchê-las”, diz o texto.

PESO DA ECONOMIA O diretor executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Sólon Caldas, atribui boa parte das desistências ao cenário econômico e às mudanças nas políticas federais de bolsa e financiamento estudantil. “Os números do censo mostram uma queda significativa nas matrículas de novos ingressantes entre 2014 e 2015, e mais ainda de 2015 para 2016, quando tivemos um crescimento negativo no ensino presencial em decorrência da falta de financiamento para os alunos que não têm condições de arcar com o investimento em educação”, afirma.

Segundo ele, desde 2015, quando houve mudanças nas regras do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), a adesão e o cumprimento dos critérios de acesso ficaram mais difíceis para os alunos. Para Sólon Caldas, as mudanças ocorridas também deixaram de permitir que o aluno com dificuldades financeiras pudesse recorrer ao financiamento, o que fez a evasão aumentar e deixar milhões de alunos fora do sistema. “Com o agravamento da crise econômica e política que o país está passando, aliada ao aumento do desemprego, esse cenário fica cada vez mais difícil e, consequentemente, o sonho do ensino superior mais distante para muitos brasileiros.”

Palavra de especialista
Andréa Ramal - Consultora em educação e doutora em educação pela PUC-Rio

“O principal motivo para esses números é a evasão, a desistência. E, dentro disso, a falta de base do ensino médio para cursar a universidade. Na engenharia, por exemplo, só 50% dos alunos se formam. Porque falta matemática. Como o estudante fará a disciplina de cálculo sem base nessa matéria? Há também outros fatores associados: problemas relacionados a recursos financeiros e um financiamento do governo que não deixa o aluno tranquilo por causa de uma ameaça constante de descontinuidade. Mas, de longe, a evasão por falta de base escolar é a principal. As faculdades estão tomando medidas, como implementar curso de nivelamento com foco em português e matemática, disciplinas que os estudantes deveriam ter trazido do ensino médio. No caso da universidade pública, é um desperdício de recursos. Não podemos também esquecer que o Brasil atravessa uma crise econômica séria, com 12 milhões de desempregados. A pessoa faz uma faculdade para ter uma chance no mercado, mas acaba não tendo como pagar. Por isso, fica o alerta para o Brasil começar a olhar mais para a educação básica. Levantamento recente mostra que o governo gasta R$ 3 mil por ano com cada aluno nessa fase. Na universidade, esse montante vai para R$ 11 mil. Ou seja, a pirâmide está totalmente invertida. Não olha para o nível básico e perde recurso na educação superior por causa disso. Não adianta encher as universidades se, depois, vai ocorrer esse esvaziamento.”


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