A gestão das instituições de educação superior no Brasil ainda está mais voltada para conter perdas do que para impulsionar crescimento e melhorar a experiência do estudante. Essa é a principal sinalização do Painel Exploratório – KPIs da Educação Superior, desenvolvido pela ABMES em parceria com a Hoper Educação.
O estudo consolida indicadores-chave de desempenho acadêmico, financeiro e de experiência estudantil e oferece um retrato relevante, ainda que exploratório, sobre como as instituições monitoram suas operações. A base analisada reúne respostas de 117 instituições, majoritariamente privadas com fins lucrativos, o que reflete um ambiente com maior pressão por eficiência e competitividade.
Apesar de não permitir inferências estatísticas nacionais, o levantamento aponta tendências consistentes sobre o estágio de maturidade gerencial do setor.
Predomínio de indicadores de contenção
Um dos principais achados do estudo é o predomínio dos chamados KPIs “defensivos”, ligados à contenção de perdas. Indicadores como evasão e inadimplência aparecem como os mais monitorados pelas instituições, evidenciando uma gestão mais orientada à estabilidade operacional.
A evasão, por exemplo, é o indicador mais institucionalizado entre os respondentes. Ainda assim, 39% das instituições afirmam não calcular ou não saber informar essa taxa, o que revela uma heterogeneidade relevante na gestão da permanência estudantil.
No campo financeiro, a inadimplência também se destaca como um KPI central, por seu impacto direto no caixa e na sustentabilidade das instituições. Mesmo assim, quase um terço das IES ainda não acompanha esse indicador de forma sistemática, o que pode indicar vulnerabilidades na gestão.
Crescimento e experiência ainda não são rotina
Se os indicadores de perdas já fazem parte do cotidiano de muitas instituições, o mesmo não ocorre com métricas voltadas ao crescimento e à experiência do estudante.
A captação de ingressantes, por exemplo, ainda não é monitorada de forma consistente: 70% das instituições não calculam ou não souberam informar a variação da captação em relação ao mesmo período do ano anterior.
Já o Net Promoter Score (NPS), indicador amplamente utilizado para medir a satisfação e a recomendação dos estudantes, é calculado por apenas cerca de um terço das IES participantes (32%).
Mesmo entre aquelas que já utilizam o NPS, os resultados apontam desafios. No ensino presencial, 22% dos estudantes são classificados como detratores, sinalizando espaço para melhorias na jornada acadêmica, especialmente em aspectos como atendimento, organização e vínculo institucional.
Sinais de mudança no horizonte
Apesar do cenário atual, o estudo identifica um movimento importante de transformação. Há uma clara consciência, por parte das instituições, sobre a importância de ampliar o uso de indicadores estratégicos.
Entre as IES que ainda não monitoram a captação de ingressantes, 63% pretendem implementar esse indicador nos próximos 12 meses. No caso do NPS, mais da metade (55%) também planeja adotá-lo no mesmo período.
Esse comportamento sinaliza uma agenda de profissionalização em curso, com tendência de avanço na gestão orientada por dados, especialmente em áreas ligadas à experiência do aluno e ao crescimento institucional.
Leitura exploratória, mas reveladora
O painel reforça que, embora os dados não possam ser generalizados para todo o país, eles oferecem uma leitura qualificada sobre o funcionamento interno das instituições e suas prioridades de gestão.
De forma geral, o retrato que emerge é o de um setor em transição: ainda marcado por práticas reativas, mas cada vez mais consciente da necessidade de evoluir para modelos de gestão mais preditivos, estratégicos e centrados no estudante.

