Espaço destinado à atualização periódica de tecnologias nacionais e internacionais que podem impactar o segmento educacional e, portanto, subsidiar gestores das instituições de ensino para que sejam capazes de agir proativamente olhando para essas tendências.

29/09/2020 | 2090

Momento Tech Educacional

Segunda quinzena de setembro

A inovação é fundamental para qualquer segmento. Entendida como crucial no fortalecimento da economia e para o desenvolvimento do país. Tenho assistido a milhares de eventos cuja proposta é falar sobre as tendências de inovação no ensino superior. Quase todas elas esvaziadas de uma fundamentação capaz de construir os aportes teóricos necessários ao campo temático da inovação.

No artigo dessa quinzena vamos tratar da Extensão Universitária trazendo um case que rompe e desconstrói um modelo já consolidado como referência no Brasil para propor uma atividade inovadora de caráter empreendedor que possibilita a formação de futuros profissionais para atuarem num mercado albergado pela economia criativa, baseada na educação empreendedora  como forma de inovação.

No processo de regulação do ensino superior somos incentivados a inovar, basta observar  o Manual da DAES, Diretoria de Avaliação do Ensino Superior – MEC, onde são apresentados os novos instrumentos de avaliação in loco e podemos verificar a ênfase sobre as práticas comprovadamente exitosas, inovadoras e diferenciadas e termos correlatos nos instrumentos de avaliação” e ainda,

“É importante notar a existência de diferentes termos nos instrumentos, como ‘inovação tecnológica’ e ‘prática comprovadamente inovadora’, por exemplo. No caso da inovação tecnológica, tal termo é consagrado e possui definição amplamente divulgada: Inovação tecnológica: ‘trata-se do processo de invenção, adaptação, mudança ou evolução da atual tecnologia, melhorando e facilitando a vida ou o trabalho das pessoas’. Para o caso de ‘ação inovadora’, o glossário do instrumento menciona: ‘relaciona-se com a adoção de práticas e procedimentos que oportunizem a criação ou o desenvolvimento de novos produtos ou ideias e permitam a melhoria de processos, apontando para ganhos de eficiência e para a adaptação inédita a situações que se apresentem”. (Manual de Instrumentos de Avaliação In Loco – DAES/MEC, 2018)

Tanto a inovação tecnológica, quanto as ações inovadoras referidas acima, são pressupostos importantes para o diferencial de uma instituição ou curso. Contudo, observa-se no ensino superior particular poucas instituições com uma política clara de inovação. A desculpa é sempre a mesma: inovar onera as instituições. Em nossa narrativa veremos que, quando existe criatividade e cooperação intersetorial, podemos inovar com baixo custo contando com aporte da instituição parceira e gerando valor para todos os players envolvidos.

Um espaço fantástico para criarmos ações inovativas é a Extensão, que pode ser compreendida pela Resolução CNE/MEC nº 7/2018. Num momento em que as Instituições de Ensino precisam ajustar suas práticas de Extensão até dezembro de 2021, incluindo na oferta de Graduação até 10% de atividades de extensão, é importante pontuarmos algumas iniciativas que podem trazer para o curso e IES esse DNA de inovação. Na maior parte das vezes, as instituições acabam por inserir o conteúdo dos Cursos de Extensão na grade da Graduação, perpetuando assim uma prática sem nenhuma inovação. Porque não trabalhar projetos interdisciplinares, TCCs ou prestação de serviços em parceria com mercado e governo conforme preconiza a teoria da Tríplice Hélice de Henry Etzcowitz?

Portanto, trarei como case para ser estudado o programa denominado Academic Working Capital, iniciativa que eu tive o prazer de acompanhar. Criado em 2015 pelo Instituto Tim e pelos professores Marcos Pereira Barretto, Diogo Dutra e Artur Tavares Vilas Boas, é destinado a transformar TCCs em Startups. Todos os anos, dezenas de alunos da graduação de todo o Brasil são contemplados pelo programa que possui a seguinte estrutura: Workshops online e presenciais onde são realizadas atividades práticas com o objetivo de desenvolvimento de um produto ou serviço/negócio; orientação com professores durante todo o processo de desenvolvimento da solução; realização do protótipo financiado pelo Instituo Tim e, finalmente, os alunos são levados para uma feira de investidores, geralmente realizada em ambientes empresariais, como a FIESP ou o CUBO/Itau, onde o negócio é apresentado para aceleradoras e investidores. Desta iniciativa já saíram dezenas de startups que ganharam o mercado. Entre elas a Binahki, a Kartado e a Mvisia.

Os professores criaram uma metodologia própria denominada SHELL4STARTUPS com base no empreendedorismo científico. A metodologia se transformou no livro “Early Stage: Shell For Scientific Entrepreneurship”, disponível com “open access”. Em setembro de 2020, foi lançada a sua segunda edição em inglês devido ao sucesso da primeira edição em português.

A metodologia segue o pressuposto de que o crescimento de um ecossistema empresarial se assenta em dois pilares: a expansão de financiamento e a criação de startups universitárias. Portanto, a educação para o empreendedorismo é importantíssima no processo de formação em qualquer carreira e pode ser considerada a base para que alunos empreendam. Para os autores, pesquisadores do empreendedorismo científico,

“a educação para o empreendedorismo desempenha um papel importante na expansão do conjunto de startups promissoras, treinando empreendedores sobre como avaliar oportunidades de negócios, como projetar modelos de negócios escaláveis ??e como acelerar o processo de descoberta de clientes e negócios validação do modelo. Programas de educação empreendedora também podem inspirar novas gerações de empreendedores em escolas, universidades, incubadoras, e comunidades locais.” (Early Stage: Shell For Scientific Entrepreneurship, 2020)

Aqui reside uma oportunidade de ação extensionista inovadora.  Através de um projeto dessa natureza é possível envolver Graduação e Extensão numa mesma atividade, somando-se o fato de que a instituição se engaja com o mercado em um processo de cooperação intersetorial. No site do Instituto Tim, pode-se conferir todas as etapas do projeto, cases e eventos da Academic Word Capital. Abaixo uma imagem que demonstra as fases da metodologia utilizada no empreendedorismo acadêmico.

Fonte: Early Stage: Shell For Scientific Entrepreneurship, 2020.

 

“O Empreendedorismo de base tecnológica aborda a curva exponencial de uma startup, que geralmente passa pelas seguintes fases: (i) zero-stage/ideação, na qual há a descoberta de um problema relevante e de uma solução interessante para a necessidade identificada; (ii) validação/estabelecimento, quando as primeiras soluções começam a fazer sentido e iniciam-se as tentativas de vendas e adaptação do produto a uma demanda real, são as versões iniciais; (iii) crescimento, momento no qual o produto já está melhor elaborado e a startup começa a azeitar seu processo de vendas e a estruturar um time maior; (iv) maturidade, momento de escalar processos e tecnologias, bem como definir políticas para atração e retenção de talentos, além de traçar estratégias para cenários de competição mais intensa”. (Early Stage: Shell For Scientific Entrepreneurship, 2020)

O artigo 3º da Resolução CNE/MEC nº 7/2018 define que:

“a Extensão na Educação Superior Brasileira é a atividade que se integra à matriz curricular e à organização da pesquisa, constituindo-se em processo interdisciplinar, político educacional, cultural, científico, tecnológico, que promove a interação transformadora entre as instituições de ensino superior e os outros setores da sociedade, por meio da produção e da aplicação do conhecimento, em articulação permanente com o ensino e a pesquisa”.

Para demonstrar que o mundo está olhando para a educação empreendedora como uma grande alavanca da economia acredito que seja interessante que todos conheçam o 13º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Econômico e Social Nacional da República Popular da China (2016-2020). Afinal, essa potência não chegou onde chegou sem um planejamento minucioso. A cada quinquênio elegem poucas metas e não poupam esforços para atingi-las. Neste plano em vigor uma das prioridades é:

“Ponha a base de desenvolvimento na inovação, tome a inovação científica e tecnológica como o núcleo e o desenvolvimento de talentos como o suporte, promova a combinação orgânica de inovação científica e tecnológica e empreendedorismo e inovação em massa e molde o desenvolvimento líder que é mais impulsionado pela inovação e mais vantagens pioneiras.” (13º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Econômico e Social Nacional da República Popular da China, capítulo 2)

Percebo que, para realizar as modificações necessárias aos programas de Extensão é preciso entender que o foco tem que colaborar no estudo, no equacionamento e na solução de problemas da comunidade, ligado às áreas de abrangência dos cursos mantidos pela Instituição, bem como atender às exigências do contínuo desenvolvimento tecnológico, do interesse e necessidades locais e regionais de forma criativa, inteligente e empreendedora, como a demonstrada neste case.

Para reafirmar toda a narrativa do case que trouxemos hoje, retrato a declaração de Jeff Dean, diretor de IA do Google, à estudantes universitários ocorrido em 22 de setembro de 2020 em uma live, na qual incentivou os alunos a buscarem áreas de estudo que gere impacto coletivo na sociedade. Dean afirmou que em 2020 está havendo uma “confluência incomum de eventos”, ambiente propício a buscar inspiração a fim de detectar lacunas sociais. Através de inúmeros eventos gratuitos os alunos podem se capacitar para buscarem carreiras onde poderão desenvolver soluções inovadoras “que abordem grandes problemas, como mudança climática, saúde e justiça social”. Em referências as grandes queimadas, a pandemia e as lutas sociais.

Por fim, gostaria de agradecer ao Prof. Dr. Marcos Pereira Barretto pelo incentivo à divulgação dessa experiência fantástica. Para saber mais sobre o case citado acima, ou entender como a Pro Innovare vem polinizando a inovação através de ações extensionistas, entre em contato conosco.

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Os textos aqui apresentados são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente a opinião e/ou o posicionamento da ABMES.

 

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Carmen Tavares

Gestora educacional e de inovação com 28 anos de experiência em instituições de diversos portes e regiões, com considerável bagagem na construção de políticas para cooperação intersetorial, planejamento e gestão no ensino privado tanto na modalidade presencial quanto EAD. Atuou também como executiva em Educação Corporativa e gestora em instituições do Terceiro Setor. É mestre em Gestão da Inovação pela FEI/SP, com área de pesquisa em Capacidades Organizacionais, Sustentabilidade e Marketing. Pós-graduada em Administração de Recursos Humanos e graduada em Pedagogia pela UEMG.

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