Espaço destinado à atualização periódica de tecnologias nacionais e internacionais que podem impactar o segmento educacional e, portanto, subsidiar gestores das instituições de ensino para que sejam capazes de agir proativamente olhando para essas tendências.

13/10/2020 | 2133

Momento Tech Educacional

Principais desafios da Sociedade 5.0

Para nossa coluna de hoje, entrevistei Nei Grando – diretor executivo da STRATEGIUS e Founder de duas empresas de tecnologia. Ele é mestre em ciências pela FEA-USP com MBA pela FGV, organizador e autor do livro “Empreendedorismo Inovador”, mentor de startups e atua como consultor, professor e palestrante sobre estratégia e novos modelos de negócio, inovação, organizações exponenciais, transformação digital e agilidade organizacional.

O que me levou a convidar o Nei Grande foi o pressuposto de que se trata de um profundo pesquisador sobre as mudanças sociais que vêm ocorrendo no mundo, e, por consequência, impactam as instituições de ensino. Hoje, o que se nota é um movimento em prol da reconstrução do país e da humanidade, bem representado pelo HSM EXPO NOW de 2020, trazendo para executivos essa narrativa de uma nova sociedade que vem surgindo, bem como seus impactos na vida de cada um, da coletividade e das instituições. Portanto, o momento é oportuno para refletirmos sobre o tema. Apesar de ter o formato de uma entrevista, utilizarei imagens do website do Nei Grando para tentar trazer mais clareza às ideias apresentadas aqui.

Carmen Tavares: Nei, você fala de uma sociedade melhor e a denomina de 5.0. Qual o conceito de sociedade 5.0?

Nei Grande: Trata-se de uma sociedade que usa a inteligência e a imaginação para sua própria transformação. A Sociedade 5.0 prevê um sistema socioeconômico sustentável e inclusivo, alimentado por tecnologias digitais como análise de big data, inteligência artificial (AI), Internet das Coisas e robótica. O “sistema ciberfísico”, no qual o ciberespaço e o espaço físico estão fortemente integrados, torna-se um modo tecnológico generalizado que suporta a Sociedade 5.0.

Traduzido por Nei Grando

 

CT: Você pode demonstrar como Inovação Social e a sociedade 5.0 se relacionam e como será essa transição?

NG: A transição para a Sociedade 5.0 é considerada semelhante à “Quarta Revolução Industrial”, na medida em que ambos os conceitos se referem à atual mudança fundamental do nosso mundo econômico em direção a um novo paradigma. No entanto, a Sociedade 5.0 é um conceito de maior alcance, mais relacionada com Inovação Social, pois prevê uma transformação completa do nosso modo de vida.

Nela, espera-se que qualquer produto ou serviço seja entregue de maneira ideal às pessoas e adaptado às suas necessidades. Ao mesmo tempo, a Sociedade 5.0 ajudará a superar desafios sociais crônicos, como envelhecimento da população, polarização social, despovoamento e restrições relacionadas à energia e ao meio ambiente. Parece uma tanta utopia, quando ainda se vê fome e falta de esgoto, então para isso é preciso mais que esperança, ou sonho, mas mudança de mentalidade e ação, preferencialmente de forma ampla e colaborativa.

 

CT: Quais seriam as liberdades dessa sociedade 5.0?

NG: Queremos uma sociedade na qual qualquer pessoa pode criar valor a qualquer momento, em qualquer lugar, com segurança e em harmonia com a natureza, nesse sentido será necessário nos libertarmos de alguns paradigmas, como:

  • O foco na eficiência. Em vez disso, a ênfase será colocada na satisfação das necessidades individuais, na solução de problemas e na criação de valor.
  • As influências supressoras sobre a individualidade. As pessoas serão capazes de viver, aprender e trabalhar, livres de discriminação por gênero, raça, nacionalidade e alienação por causa de seus valores e modos de pensar.
  • A disparidade social.  Causada pela concentração de riqueza e informação, e qualquer pessoa poderá obter oportunidades de desempenhar um papel a qualquer momento, em qualquer lugar.
  • Ansiedade sobre o terrorismo, desastres e ataques cibernéticos, pois as pessoas viverão com mais segurança em redes reforçadas para lidar com as questões do desemprego e a pobreza.
  • Recursos e restrições ambientais, assim podermos viver vidas sustentáveis ??em qualquer região.

 

Traduzido por Nei Grando

 

CT: Em seu artigo, “Por uma sociedade melhor, quem sabe 5.0”, você aponta como ela transforma a política de ciência, tecnologia e inovação em uma agenda política dominante, como seria isso?

NG: O conceito grandioso e um tanto nebuloso da Sociedade 5.0 tornou-se gradualmente uma peça central da estratégia de crescimento em que a política de ciência, tecnologia e inovação (CTI) tornou-se uma agenda dominante.

O Japão, que criou o conceito de Sociedade 5.0, agiu fortemente nesse sentido, estimulados por uma força motriz política, que inclusive alterou significativamente o orçamento de ciência e tecnologia do país de cerca de US$ 33 bi em 2017 para US$ 35 bi em 2018 e US$ 38 bi em 2019. Tal aumento seria inconcebível apenas alguns anos atrás. Por outro lado, sabemos que aumentar o orçamento por aqui não basta, se não houver responsabilidade de transparência do seu uso e aplicação correta, com acompanhamento via métricas e geração de resultado efetivo para as organizações e para a sociedade.

 

CT: Qual o suporte da indústria para a sociedade 5.0?

NG: No Japão a Sociedade 5.0 obteve um suporte robusto da indústria. Em 2015 e 2016, ministros e líderes empresariais relevantes se reuniram várias vezes para discutir a direção que o Japão deveria tomar, gerando um estreito relacionamento entre o governo e a indústria, focados neste propósito. Os principais temas abordados foram:

  • mobilidade de próxima geração / cidade inteligente,
  • serviços públicos inteligentes,
  • infraestrutura de última geração,
  • Tecnologia financeira / sociedade sem necessidade dinheiro, e
  • cuidados de saúde de próxima geração.

Outro pilar fundamental é a IA com foco na saúde, mobilidade e produtividade.

 

CT: Como a sociedade 5.0 se relaciona com a agenda 2030 e qual o exemplo que a sociedade japonesa nos deixa?

NG: Há um relacionamento entre Sociedade 5.0 e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), pois ambos tratam de questões econômicas, sociais e ambientais. As políticas de estratégia de crescimento do Japão esperam uma grande contribuição desta nova sociedade com os ODS.

Traduzido por Nei Grando

 

CT: Quais os muros a serem quebrados ao mudar para sociedade 5.0?

NG: Alguns muros ou barreiras que estão sendo considerados são: ministérios e agências; sistema legal; educação tecnológica para adquirir e usar o conhecimento necessário; engajamento e integração social.

 

CT: Quais seus impactos para educação brasileira? E para o Ensino Superior?

NG: Isto está começando acontecer no Japão e envolveu todas as partes interessadas incluindo não só a indústria, mas também os cidadãos, governos, academia etc. Ainda é cedo para ver os resultados, porém eles estão além de simples iniciativas. O Brasil é um país grande, com muitos recursos e um potencial enorme para fazer isso acontecer por aqui, mas é necessário começar.

No momento estamos trabalhando uma Agenda brasileira para a Indústria 4.0, mesmo com os grandes desafios em nossa economia, pois a indústria enfrentou muitas adversidades nas últimas décadas. Esta agenda é suportada por um Grupo de Trabalho para a Indústria 4.0, composto por mais de 50 instituições representativas (governo, empresas, sociedade civil organizada, etc.), por onde ocorreram diversas contribuições e debates sobre diferentes perspectivas e ações para a Indústria 4.0 no Brasil. Basta agora alinharmos com os conceitos da Sociedade 5.0 para irmos além desta proposta inicial.

 

CT: Quais seriam suas considerações finais sobre o tema?

NG: Particularmente eu gostaria de ver o Brasil correr nesta direção. Sabemos que os anseios e sonhos humanos só serão atingidos se trabalharmos colaborativamente para realizá-los. A educação é chave nesse processo, dela virão as inciativas, os programas e os projetos necessários. A ciência assim com a tecnologia são as ferramentas de apoio viabilizadoras ao planejamento e a execução. Sigamos juntos.

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Os textos aqui apresentados são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente a opinião e/ou o posicionamento da ABMES.

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Carmen Tavares

Gestora educacional e de inovação com 28 anos de experiência em instituições de diversos portes e regiões, com considerável bagagem na construção de políticas para cooperação intersetorial, planejamento e gestão no ensino privado tanto na modalidade presencial quanto EAD. Atuou também como executiva em Educação Corporativa e gestora em instituições do Terceiro Setor. É mestre em Gestão da Inovação pela FEI/SP, com área de pesquisa em Capacidades Organizacionais, Sustentabilidade e Marketing. Pós-graduada em Administração de Recursos Humanos e graduada em Pedagogia pela UEMG.

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