Espaço destinado à atualização periódica de tecnologias nacionais e internacionais que podem impactar o segmento educacional e, portanto, subsidiar gestores das instituições de ensino para que sejam capazes de agir proativamente olhando para essas tendências.

10/11/2020 | 2214

Momento Tech Educacional

O que aprender com a China?

Após quatro dias de reuniões privadas entre os escalões superiores da elite governante da China, ocorrida na última semana de outubro, o país delineou suas metas econômicas e sociais para os próximos cinco anos em seu 14º plano quinquenal de governo do Partido Comunista Chinês, referente ao período de 2021-2025.

Além de apresentarmos nesse texto as linhas mestras do 14º plano quinquenal, é importante observar a relevância de um planejamento nacional e, em particular, a importância dos planejamentos quinquenais da China (Five-Year Plan, FYP) criados com o objetivo de alcançar o desenvolvimento econômico e social a cada cinco anos. O tema é pertinente, haja vista que impactará não apenas a China, mas todo o mundo e sobretudo o ambiente de negócios globais.

Formulado segundo as recomendações do Comitê Central do Partido Comunista da China (CPC), o 14º Plano Econômico e Social estabelece as intenções estratégicas do país e define as principais metas para o desenvolvimento sócio econômico. São planos que servem como norteadores para todas as entidades de mercado e perseguida por todos os segmentos como uma visão comum compartilhada com toda a população. Além da ampla divulgação nacional dessas metas, existe também forte incentivo financeiro para alcance dos resultados, o que geralmente ocorre.

O 13º Plano Quinquenal possuía um foco muito forte em empreendedorismo de base tecnológica, criação de startups, incubadoras e universidades conectadas com grandes empresas investindo forte em empreendedorismo. O que chamaram de “sociedade moderadamente próspera”, reduzindo sua dependência das exportações para o crescimento econômico e garantindo que o crescimento seja sustentável, tanto social quanto ambientalmente. Ou seja, um esforço do estado para nutrir e desenvolver indústrias de alta tecnologia. O estado pouco intervém nos empreendimentos nascentes, de forma que há pouca, ou quase nenhuma, burocracia para empreender. Grandes laboratórios das maiores empresas do mundo são criados em parceria com as universidades. Desde 1978, as reformas econômicas comandadas por Deng Xiaoping foram sustentadas pelo desenvolvimento de quatro grandes pilares: agricultura, indústria, defesa e ciência e tecnologia.

Durante os últimos anos houve diversos fatores que alavancaram a transição de uma China, que viu seu PIB encolher por grandes guerras e conflitos, até uma China autônoma e que representa hoje a segunda maior economia do mundo, com grandes chances de, muito em breve, vir a ser a primeira. Seis fatores merecem destaque, segundo o Prof. Artur Vilas Boas, do MBI TalkS – China e seu Ecossistema de Inovação. São eles: 

  • A grande urbanização e imigração da zona rural para as cidades, gerando um boom na construção civil.
  • Escala em manufatura – 40% do PIB, investimento não apenas em mão de obra barata, mas na fronteira tecnológica.
  • Um grande mercado consumidor, sobretudo com o enriquecimento da população.
  • Fluxo financeiro – fortalecimento e inovação do ecossistema bancário.
  • Infraestrutura Educacional – 7,5 milhões de graduados se formando todos os anos e grandes empresas absorvendo esses talentos em P&D.
  • Internet Chinesa – 600 milhões de habitantes utilizando a Internet.

Dentro desses planejamentos existem tópicos que merecem toda a atenção, bem como o “Made in China” (2020-2025), com foco no desenvolvimento industrial (fármacos, automotivas, aeroespacial, semicondutores, IT e Robótica), com o estado investindo em sofisticação nas fronteiras tecnológicas.

Além desses fatores, existem outros que ajudam na criação de um ciclo virtuoso, tais como o combate à corrupção e a meritocracia nas carreiras estatais, em que até o próprio presidente Xi Jinping possui doutorado. Uma equipe de governantes altamente capacitada possui a visão técnica e ao mesmo tempo estratégica na busca de soluções para as demandas e alcance dos objetivos nacionais.  

Dois dos sonhos de Xi Jinping eram:

- No centenário do Partido Comunista, em 2020, ver toda a população da china vivendo um bom padrão de vida, com uma renda de US$ 10.000 per capita, o que foi atingido.

- No centenário da República Popular, em 2049, ter uma China totalmente modernizada, “forte, civilizada, harmônica e bela”. O grande desafio está no campo sócio ambiental, que em breve abordaremos.

Embora as metas não tenham sido divulgadas ainda, no encerramento da reunião, o primeiro-ministro Li Keqiang, esboçou para a imprensa as linhas mestras do 14º Plano Quinquenal. A versão final do 14º FYP será lançada no Congresso Nacional do Povo em março de 2021.

O empreendedorismo continua sendo um dos principais vetores, mas se observa que a Inovação é o cerne desse novo plano. Mesmo porque dependem da CT&I para se expandirem para o ocidente.

Segundo Li Keqiang, os interesses da população devem vir em primeiro lugar, com um amplo trabalho de escuta das bases e reflexão com diferentes grupos, observou o Premier. Afirmando que a China ainda estará em um período importante de oportunidades estratégicas e enfrentará muitos novos desafios durante o período do 14º Plano Quinquenal, o Premier Li enfatizou os esforços para formular o plano com base nas condições nacionais, buscar a verdade dos fatos e dar prioridade ao desenvolvimento .“São necessários esforços incessantes para atingir o objetivo de construir uma sociedade moderadamente próspera de uma forma abrangente, basicamente realizando a modernização socialista até 2035 e construindo totalmente um país socialista moderno até 2050”, disse o Premier, enfatizando a importância da construção científica, um sistema de índices e estabelecimento de metas concretas relacionadas à melhoria da qualidade do desenvolvimento e do bem-estar das pessoas para tornar o plano inspirador, pragmático e aplicável na prática.

Abaixo seguem algumas das propostas:

  • Novos passos para o desenvolvimento econômico

A China pretende acelerar a promoção de um novo padrão de desenvolvimento, onde os mercados interno e externo podem se impulsionar, tendo o mercado interno como pilar. O mercado interno da China será fortalecido visando minimizar a dependência de recursos externos, a estrutura econômica será melhorada ainda mais e sua capacidade de inovação será significativamente fortalecida. A base industrial será aprimorada e a cadeia industrial será modernizada. Isso inclui a manutenção de uma taxa de crescimento econômico rápida o suficiente para gerar empregos e oportunidades para a maioria, sem piorar a desigualdade de renda e protegendo o meio ambiente. 

  • Novos passos na reforma e abertura de mercado

A China pretende melhorar sua economia de mercado socialista e, essencialmente, concluir a construção de um sistema de alto padrão. As entidades de mercado mostrarão mais vitalidade e haverá progresso significativo nas reformas do sistema de direitos de propriedade e na alocação de fatores de produção com base no mercado.

  • Melhorias na etiqueta social e a civilidade

Espera-se que uma melhora significativa seja alcançada na integridade intelectual e moral das pessoas, nas qualidades culturais e científicas, bem como na saúde física e mental. Empregos de melhor qualidade para a população e crescimento da renda pessoal em sintonia com o desenvolvimento econômico são objetivos a serem perseguidos, bem como o aprimoramento do sistema de saúde e de seguridade social. A influência da cultura chinesa aumentará e a coesão da nação chinesa será ainda mais fortalecida.

  • Progressos na melhoria do meio ambiente

A China continuará reduzindo as emissões dos principais poluentes e melhorando o ambiente natural, criando políticas de proteção à segurança ambiental com maior solidez e melhorando significativamente o ambiente urbano e rural.

  • A eficiência administrativa e a credibilidade serão significativamente reforçadas

Visando se envolver com a economia mundial, enquanto os Estados Unidos parecem determinados a conter sua influência global.

  • O país também aumentará o nível de governança social, especialmente em nível comunitário.

A guerra comercial EUA-China, nos últimos dois anos, e a pandemia COVID-19 trouxeram um impacto negativo significativo na economia da China e dificultaram o cumprimento dos objetivos do 13º Plano Quinquenal do FYP. No entanto, a maioria dos objetivos, incluindo os de urbanização e meio ambiente, provavelmente serão alcançados até o final de 2020, exceto o crescimento do PIB e o crescimento da renda familiar. 

Como em todo o mundo, houve um déficit de crescimento este ano devido à Covid-19, o PIB per capita da China provavelmente atingirá US$ 10.400 em 2020, em comparação aos US$ 8.000, cinco anos atrás. Além disso, a população de classe média da China já ultrapassa 400 milhões (definidos como aqueles com renda familiar anual entre 100.000 e 500.000 yuans, de acordo com o National Bureau of Statistics), e a pobreza (especialmente nas áreas rurais) diminuiu significativamente. A figura abaixo ilustra o PIB da China em comparação com o PIB de outras grandes potências num período de mais de 2.000 anos.

Fonte: The Visual Capitalist, 2017

O produto interno bruto (PIB) per capita cresceu do equivalente a US$ 89,5, em 1960, para US$ 10.262, em 2019, de acordo com dados do Banco Mundial, com base nas taxas de câmbio atuais, um aumento de 115 vezes. Enquanto isso, a proporção de chineses vivendo com menos do equivalente a US$ 1,90 por dia caiu de 66,3%, em 1990, para 0,5%, em 2016, também de acordo com o Banco Mundial.

Finalizando essa reflexão, gostaria de lembrar que a China começou a implementar uma cultura de planejamento em 1953, quatro anos após a revolução comunista de Mao Tsé-Tung. Durante esse período erraram e acertaram muito, mas o crescimento exponencial a partir da década de 1980 demonstra que parecem estar no caminho certo para aquilo que se propuseram. A lição que fica para nós, brasileiros, é a necessidade de aprender a planejar o crescimento da nação. Existem os fatores culturais, civilizatórios e democráticos que não vou considerar aqui. Mas, eu acredito em um Brasil que, talvez daqui a 40 anos, possa obter o êxito que a China obteve, lembrando que tudo começa pela educação e pela forma como estamos ensinando às nossas crianças e jovens a planejarem suas vidas e carreiras, para então terem o sonho de planejarem uma nação. 

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Os textos aqui apresentados são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente a opinião e/ou o posicionamento da ABMES.

 

 

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Carmen Tavares

Gestora educacional e de inovação com 28 anos de experiência em instituições de diversos portes e regiões, com considerável bagagem na construção de políticas para cooperação intersetorial, planejamento e gestão no ensino privado tanto na modalidade presencial quanto EAD. Atuou também como executiva em Educação Corporativa e gestora em instituições do Terceiro Setor. É mestre em Gestão da Inovação pela FEI/SP, com área de pesquisa em Capacidades Organizacionais, Sustentabilidade e Marketing. Pós-graduada em Administração de Recursos Humanos e graduada em Pedagogia pela UEMG.

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