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Um novo olhar para o século XXI

17/01/2019 | Por: Linha Direta | 363
Foto: Edgard Marra/ABMES

Durante o século XX, a Kodak, famosa no mundo fotográfico, liderou esse mercado com suas notáveis inovações em produtos químicos usados nos filmes para fotografia. A empresa, inclusive, foi a primeira a desenvolver um protótipo de câmera digital, em 1975, mas o receio dos executivos de perder o mercado de filmes fotográficos fez com que o novo projeto não fosse adiante. Resultado: a tecnologia chegou para ficar, e a Kodak, por não acompanhar as tendências, declarou sua falência em 2012.

O exemplo mostra a importância da inovação e do pensamento disruptivo no mundo moderno, e não deixa de fora o setor educacional. Porém, muito além de inovar, é necessário pensar em como fazer essa inovação, ou seja, de que forma as novidades serão úteis para a sociedade.

Consultor em educação e inovação, o israelense Yaron Edel aponta que, diferente do caso da Kodak, o setor educacional não tende a entrar em falência devido à sua necessidade e importância no mundo, mas precisa se adaptar às demandas da contemporaneidade, principalmente no que diz respeito ao Ensino Superior. Segundo ele, as grandes empresas hoje estão focadas em desenvolver os trabalhadores para além das capacidades técnicas. Por isso, a missão do Ensino Superior é dar aos próximos profissionais ferramentas e oportunidades para competir nesse mercado em que o foco não é mais o produto, e sim o conhecimento.

Inovar é sair da zona de conforto
Estudar para alcançar uma nota desejável na avaliação ou frequentar a graduação com o objetivo único de conquistar o diploma são só alguns dos exemplos que circundaram os desejos dos estudantes do século passado e, por mais que essa cultura ainda exista, ela não cabe no século XXI. “Eu olho para o produto do Ensino Superior e me pergunto como os usuários desse produto se comportam. Porque se eu fosse um empreendedor tentando arrecadar dinheiro e levasse esses dados para meus investidores, eles não iriam investir porque os usuários não estão se comportando da maneira esperada diante do produto”, exemplifica Edel para demonstrar que, mesmo que as instituições queiram ensinar bem, o foco dos alunos ainda é o diploma no final do curso.

Mas como provocar uma transformação nessa cultura? Qual o papel das instituições de ensino? Edel parte do argumento de que deve haver uma mudança do paradigma da educação para o paradigma da aprendizagem, ou seja, o ato de aprender é um processo que parte do próprio indivíduo, não de um especialista que diga o que uma pessoa com menos experiência deve aprender. “Não importa o que eles queiram fazer. A nova geração quer ser empreendedora, e o papel da Educação Superior, nesse sentido, não é o de dar conhecimento, mas experiência. Não precisamos ser os detentores maiores do conhecimento de uma área de estudo; precisamos ser especialistas em como orientar as pessoas a aprender um campo específico, de acordo com as necessidades delas”, acrescenta o consultor.

Não é raro ouvir de estudantes frases como “Por que aprender isso?”, ou “Como vou usar esse conteúdo no meu dia a dia profissional?”. Discursos como esses mostram que é preciso uma ruptura no Ensino Superior, e a tecnologia, muito além do uso de tablets e smartphones em sala de aula, pode trazer uma grande contribuição, que é a possibilidade da personalização da aprendizagem.

“Ninguém mais lhes diz o que eles devem aprender. É a curiosidade que leva os alunos ao aprendizado. A questão do currículo personalizado ressalta a responsabilidade de cada estudante perante seu desenvolvimento e, mais do que isso, gera a mudança no foco dos educadores – o de doador de conhecimento, que hoje pode ser encontrado facilmente em uma página da Wikipedia, para o de capacitador de aprendizado”, explica Edel.

Outra característica dessa disrupção é a tomada de decisões com base em dados. “Basta pensar que você pode analisar a maneira como as pessoas aprendem, como é cada indivíduo em sua classe, se aprendeu de modo muito diferente dos demais”, exemplifica ele ao destacar a métrica das habilidades interpessoais em sala de aula.

“A cooperação, na minha opinião, é a habilidade mais importante do século XXI. Não é mais sobre o indivíduo, é sobre a equipe. Então é importante medir como a cooperação está acontecendo na sua aula”, acrescenta ele.

Outros pontos são levantados pelo consultor, tais como a promoção do debate na aula, uma forma de medir o engajamento dos alunos no aprendizado, e até mesmo as oportunidades da educação a distância – não com o aluno sentado na frente do computador, assistindo a uma teleaula, como se estivesse na escola, mas promovendo uma interação do estudante com o conteúdo, seja em um grupo de discussão, seja intervindo na teleaula ao acrescentar informações ou propor questões.

Fato é que boas ideias são um ótimo começo, desde que acompanhadas da prática, da implementação. Edel sugere que as IES pensem em como construir uma unidade de inovação dentro de seus campi e que gerenciem esse processo de mudança com o auxílio de três ferramentas: o desenvolvimento da ideia, entendendo que ela é nova e precisa ser aprimorada; a criação de uma plataforma aberta de inovação, entendendo as necessidades, as soluções que já existem e como implementá- las na sua realidade; e a questão das comunidades criativas. “Eu realmente acredito que, quando se fala sobre inovação, nem todos estão prontos para agir. É preciso identificar seus primeiros usuários e trabalhar com eles para que uma das missões dessa unidade de inovação seja identificar os primeiros adotantes e agrupá-los em comunidades. Então, para realmente preparar os alunos para esse novo mundo, é importante pensar sobre como cada gestor pode mudar a sua organização, qual é a mudança que precisa ser feita na gestão da sua IES”, explica ele.

Conhecimento que gera conhecimento
No dia 4 de dezembro de 2018, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) recebeu Yaron Edel para uma palestra sobre disrupção e oportunidades no Ensino Superior, durante o seminário de encerramento do ano da Associação.

A conferência é parte dos desdobramentos do programa ABMES Internacional, que, em 2018, esteve em Israel conhecendo o sistema educacional do país e promovendo projetos de cooperação com instituições brasileiras.

Durante a palestra, o consultor israelense destacou a aproximação da tecnologia com a educação, ressaltando que, nesse processo de disrupção, o erro é também um fator fundamental para a evolução. “Ele nos falou várias vezes que errou na vida dele como empresário, e conta isso feliz. Na cultura brasileira, nós temos a ideia de que é somente o sucesso que conta, e as nossas falhas empurramos ‘para debaixo do tapete’. Mas falhar é humano. Na verdade, falhar, na cultura das startups, é desejável. Deve-se valorizar a falha, porque ela é um instrumento de crescimento”, conclui o vice-presidente da ABMES, Celso Niskier.


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