Detalhe

Mudança nas datas do Enem pode piorar apagão de mão-de-obra nos próximos anos

28/07/2020 | Por: ABMES | 697
Foto: Educa Ethos

O adiamento do calendário do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pode inviabilizar o ingresso de estudantes no ensino superior privado no primeiro semestre de 2021 e aumentar as chances de “apagão” de mão-de-obra nos próximos anos. Ao menos 3,5 milhões, dos 5,8 milhões inscritos, devem buscar uma vaga nos cursos das instituições privadas de ensino superior e dependem da divulgação do resultado para cursar a graduação.

É o que revela a 4ª fase do estudo “Coronavírus e Ensino Superior: o que os alunos pensam”, elaborado pela empresa de pesquisas educacionais Educa Insights, divulgado em parceria com a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES). Para 76% dos entrevistados, o principal motivo para realização do Enem neste ano é conseguir o melhor desconto possível ou bolsa de estudo (Tabela 1).

Isso ocorre porque é a partir da nota conquistada no Enem que os estudantes podem concorrer às vagas do Programa Universidade para Todos (ProUni), pleitear contratos do financiamento pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) ou de agentes do mercado ou, ainda, bolsas de estudo das próprias IES, concedidas proporcialmente ao resultado obtido na avaliação.

Em 8 de julho, o Ministério da Educação (MEC) anunciou as novas datas, alterando a aplicação das avaliações de 22 e 29 de novembro deste ano para 17 e 24 de janeiro de 2021, com anúncio das notas finais marcado para 29 de março. Só então poderão ser abertos os prazos para os processos de seleção dos programas de acesso, bolsas e financiamentos, o que pode comprometer toda a programação acadêmica do primeiro semestre.

O calendário da avaliação é tão importante para os alunos quanto para as IES: em média, 64% do total de matrículas no primeiro semestre ocorrem entre a divulgação dos resultados e o início do ano letivo e 80% dos estudantes realizam a matrícula após o conhecimento da nota obtida.

ABMES ativa na defesa de estudantes e IES
O adiamento provocou preocupação extra às instituições de ensino superior (IES) e, por isso, a ABMES mantém um diálogo intensivo com parlamentares e representantes do Conselho Nacional de Educação (CNE) e do MEC com o objetivo de minimizar as consequências da pandemia, decorrente da Covid-19 agora e no futuro. Uma das principais bandeiras é o fim da vinculação do calendário do ProUni à divulgação da nota do Enem, como previsto na Medida Provisória 934, transformada em Projeto de Lei de Conversão (PLV) 22/2020. O texto foi aprovado no Senado Federal na última semana e encaminhado para sanção presidencial. Conhecedor do impacto negativo do artigo 5º do PLV 22, que trata do vínculo, o vice-presidente da Frente Parlamentar Mista de Educação, senador Izalci Lucas (PSDB-DF), defende que o presidente Jair Bolsonaro vete essa parte da proposição e permita que uma alternativa mais favorável seja encontrada.

Também no Senado, há um esforço concentrado da ABMES para a aprovação do Fies Emergencial, o PLS 3.372/2020, de autoria do senador Acir Gurgacz (PDT-RO), que amplia a cobertura do Fies para os estudantes matriculados que tiveram a renda pessoal ou familiar reduzida durante a crise provocada pela Covid-19 e estejam com dificuldades no pagamento das mensalidades. A proposta inclui a autorização para que a União participe com até R$ 3 bilhões em fundo privado criado para garantir o crédito da política pública.

Os desafios para alunos e instituições do ensino superior vão continuar enquanto a contaminação pelo vírus influenciar as atividades presenciais e interferir no calendário acadêmico. De igual maneira, tanto de um lado quanto de outro há iniciativas para superar a perda da renda e o impacto no trabalho dos estudantes e de suas famílias. Infelizmente, esses podem não ser os únicos motivos para afastar milhares de jovens e adultos das salas de aula.

Reforma Tributária
A proposta de Reforma Tributária enviada pelo Executivo Federal para o Congresso Nacional pode tornar ainda mais distante a inclusão de milhões de brasileiros no ensino superior. Da maneira como foi apresentada, com a unificação do PIS/Cofins para criação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), a carga tributária vai saltar dos atuais 3% para 12%. A mudança vai não só representar o fim da isenção da tributação atual em razão da adesão ao ProUni, como gerar impacto imediato no valor das mensalidades, estimado em 10%.

Pandemia adia planos
O estudo ouviu pessoas que planejam iniciar um curso superior, presencial ou EAD, nos próximos 12 meses. Igualmente preocupados com os impactos da Covid-19 no atual momento do país, apenas 14% dos entrevistados declararam planejar o início do curso de graduação neste segundo semestre. Uma queda de 8 pontos percentuais (p.p.) em relação à primeira apuração, em março. Esse público adiou os planos, em grande parte, para o início de 2021. Eram 30%, no início da pandemia, e se tornaram 39% na pesquisa de julho.

Entre os interessados em se matricular agora nos cursos na modalidade a distância houve um aumento de 30% (3ª fase) para 34% (4ª fase). Os cursos presenciais tiveram movimento contrário e mais acentuado: se em março a intenção de começar em agosto era de 16%; em julho, só 5% confirmaram que pretendem se matricular. Para essa modalidade de ensino, 45% deixarão para decidir quando dar início a uma graduação apenas após o fim da pandemia.

A preocupação com os impactos financeiros e com as ameaças à saúde provocados pela pandemia da Covid-19 é a principal razão para deixar para depois a formação superior. Não ter condições para pagar as mensalidades é o receio de 36% dos questionados, a garantia da segurança sanitária foi apontada por 35% e 29% responderam que os dois motivos são temidos.

Pandemia adia planos
As IES estão empenhadas em ajudar seus alunos a continuar os estudos no segundo semestre de 2020, apesar dos impactos negativos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Em julho, ao menos 71% delas procuraram os estudantes para realizar a rematrícula e 53% ofereceram condições diferenciadas para auxiliar no pagamento das mensalidades. Em 47% dos casos, foi concedido desconto por até três meses; 15% receberam redução dos valores por até seis meses e 9% por mais de seis meses.

O esforço das IES se justifica pela declaração de que 94% dos alunos matriculados em instituições particulares de ensino superior de que vão prosseguir com os estudos, independente da interferência do contexto pandêmico ou de algum risco de desistir.

O índice total é o mesmo encontrado nos levantamentos de abril – 1ª fase – e de junho – 3ª fase. Entretanto, em julho, houve um aumento de 13 pontos percentuais (p.p.) entre os entrevistados que mantêm a decisão de continuar, não importa o cenário: subiu de 52%, em junho, para 65%, em julho. Em contrapartida, os que declararam ter risco de desistência, apesar da intenção de permanecer matriculado, diminuíram de 42% para 29%, no mesmo período. Apenas 6% consideram desistir do curso (Tabela 2).

As alterações nesses índices são reflexo da redução do impacto no trabalho daqueles que participaram da apuração. A maioria (64%) teve baixa influência, sendo que 31% declararam não ter tido mudanças ou já voltaram às atividades, 18% tiveram redução de 25% da jornada e 14% já não exerciam atividade remunerada (percentual que ficou estável em todas as fases). Aqueles que tiveram impacto médio, com redução da metade da jornada, encolheram de 11% para 5% em comparação com a fase anterior.

Quando perguntados sobre quais fatores poderiam influenciar uma possível desistência do curso, a grande maioria (63%) apontou preocupação com a manutenção do emprego. Outros 17% disseram temer que seus pais ou responsáveis não consigam arcar com as mensalidades. A dificuldade de adaptação ao modelo de aulas virtuais foi apontada por 5% dos entrevistados, uma redução significativa em comparação à 1ª fase (15%). Outros 11% afirmaram que poderiam desistir do curso para usar o dinheiro na cobertura de outras despesas e 4% deixariam o curso caso não fossem interrompidas as aulas presenciais diante do risco de contaminação ao novo coronavírus.

A preocupação com a manutenção do pagamento das mensalidades diante da crise gerada pela pandemia continuou sendo um aspecto considerado crítico, mas houve uma melhora no quadro geral. Quando questionados sobre a quitação da parcela do mês de junho, 75% afirmaram estar adimplentes, ainda que 27% tenha pagado fora da data de vencimento, quantitativo maior do que os 70% registrados na 3ª fase, em relação à mensalidade de maio. Entre os 25% que afirmaram estar com valores em aberto, 10% declararam que irão pagar até o fim deste mês e 15% não sabem quando será possível saldar o débito, percentual considerável estável em relação ao anterior (14%) (Tabela 3).

Levantamento
A 4ª fase do levantamento “Coronavírus e Educação Superior: o que pensam os alunos” foi realizada virtualmente entre os dias 18 e 21 de julho, com homens e mulheres, com idades entre 17 e 50 anos, pertencentes às classes socias A, B, C e D. Ao longo de todas as fases da pesquisa foram ouvidos 748 alunos de graduação, matriculados em cursos presenciais ou EAD de instituições particulares, há pelo menos 6 meses. Também foram entrevistados outros 1.244 potenciais alunos que tenham interesse de iniciar cursos de graduação presencial ou EAD em faculdades privadas nos próximos 12 meses. Foram realizadas três outras etapas do levantamento, nos meses de março (1ª fase), abril (2ª fase) e maio de 2020 (3ª fase).

Números da educação superior particular
Segundo dados do Censo da Educação Superior de 2018, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), o segmento é responsável por 93,4% da oferta de educação superior do país, considerando as modalidades presencial e EAD.

Quanto às matrículas nas instituições de educação superior (IES) particulares, em 2018, o segmento foi responsável por 70,2% de todas as matrículas realizadas em cursos presenciais no país (4.489.690) e 91,6% das matrículas nos cursos EAD (1.883.584).


Conteúdo Relacionado

Vídeos

Jornal da Band | Adiamento do Enem pode prejudicar ingresso no ensino privado

Matéria veiculada pelo Jornal da Band no dia 29 de julho de 2020 traz dados da 4ª fase da pesquisa "Coronavírus e educação superior: o que pensam os alunos", apontando que o adiamento do Enem prejudica muita gente que pensava em usar a nota para entrar em uma instituição de educação superior particular. Por isso, algumas IES poderão até reprogramar o ano letivo.

Seminário Virtual ABMES | Coronavírus e educação superior: 4ª onda do estudo

Confira a íntegra do seminário virtual da ABMES "Coronavírus e educação superior: 4ª fase do estudo sobre o que pensam os alunos". Coordenação: Celso Niskier, diretor presidente da ABMES Participação: Daniel Infante, sócio-fundador Educa Insights Sólon Caldas, diretor executivo da ABMES

CNN | Estudo aponta apagão de matrículas em universidades

Matéria veiculada pela CNN Brasil no dia 28 de julho de 2020 traz dados da 4ª fase da pesquisa "Coronavírus e educação superior: o que pensam os alunos", realizada pela Educa Insights e divulgada pela ABMES

Notícias

Mais do que nunca, EAD

Educação em Revista: Em crescimento antes da pandemia, atividades remotas podem avançar ainda mais durante a retomada da economia

Faculdades oferecem descontos nas mensalidades para evitar a evasão de alunos

Bom Dia Brasil: Pesquisa feita pela ABMES aponta que 39% dos estudantes adiaram o plano de entrar no ensino superior

Estudantes temem atraso na divulgação do resultado do ENEM

SBT Brasil : Com o adiamento da prova para janeiro, a nota só deve sair em março, depois do período de matrícula

O adiamento do Enem poderá tirar mais de 3 milhões de estudantes do ensino superior privado

O Sul: As informações fazem parte da 4ª fase do estudo “Coronavírus e Ensino Superior: o que os alunos pensam”, elaborado pela empresa de pesquisas educacionais Educa Insights e divulgado em parceria com a ABMES

Adiamento do Enem prejudica sonho de 3,5 milhões de alunos no país

Esse é o número de estudantes que devem buscar vaga em universidades privadas, mas precisam de resultado do exame, previsto para março de 2021

Adiamento do Enem pode agravar "apagão" de mão de obra no país, alerta associação

Zero Hora: ABMES indica que mudança nas datas do exame inviabiliza o ingresso de estudantes em universidades privadas no primeiro semestre de 2021

Adiamento do Enem pode criar 'apagão' de novos profissionais qualificados

Mudança na data do exame para janeiro de 2021 poderá provocar uma postergação de matrículas nas faculdades do País

Cresce número de estudantes que adiam planos da graduação para 2021, revela pesquisa

Pesquisa divulgada pela ABMES, nesta terça-feira (28), aponta que o estudante adiou os planos da graduação, em grande parte, para o início de 2021

Para 53% dos universitários qualidade caiu, aponta estudo

R7: Jovens já matriculados no ensino superior devem continuar a estudar, mas aqueles que vão prestar o Enem podem ficar fora do ensino privado

Atraso do Enem afeta 2,5 milhões de alunos

Estudantes usam notas das provas para conseguir descontos e bolsas do ProUni

Adiamento do Enem pode gerar 'apagão' de mão de obra qualificada, diz pesquisa

Uma pesquisa da Educa Insights, divulgada em parceria com a ABMES, aponta que o adiamento do calendário do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) pode levar a um "apagão" na mão de obra qualificada nos próximos anos

Adiamento do Enem afeta ingresso de alunos em faculdades particulares

Correio Braziliense: Mudança nas datas da prova compromete a entrada de novos alunos no primeiro semestre de 2021, segundo levantamento da ABMES divulgado nesta terça-feira (28)

Atraso no Enem compromete ingresso de 3,5 mi de alunos no ensino privado em 2021

Esse é o volume de estudantes que usam nota do exame, que só será divulgada no fim de março, para buscar bolsa do ProUni e desconto de mensalidade

Estudos analisam comportamento dos universitários na pandemia

Jovens já matriculados no ensino superior devem continuar a estudar, mas aqueles que vão prestar o Enem podem ficar fora do ensino privado

Inscrições para vestibular em universidades privadas de SC cai 58%

Com redução de renda e dificuldades logísticas, evasão no Brasil inteiro foi 32% maior do que em 2019; 82% dos estudantes alegam dificuldades econômicas

Adiamento do Enem pode atrasar ingresso de 3,5 milhões de participantes no ensino privado, aponta levantamento

O número se refere a estudantes que se inscreveram no Enem de olho na nota de desempenho para concorrer a bolsas de estudo. Impacto da pandemia também leva estudantes a adiarem a entrada nas universidades, previstas para o segundo semestre de 2020

Faculdades na Pandemia

Boa Vontade TV: Em entrevista, o diretor executivo da ABMES, Sólon Caldas, comenta sobre o retorno das atividades presenciais nas instituições de ensino