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Especialistas rebatem fala de Milton Ribeiro sobre diploma não ter utilidade

31/08/2021 | Por: Correio Braziliense | 350
Foto: Reprodução/ Correio Braziliense

Ao contrário do que acha o ministro da Educação, Milton Ribeiro, o país precisa de mais jovens nas universidades. É o que sustentam representantes de instituições que defendem, fomentam e dão suporte à educação. Em encontro realizado na cidade de Nova Odessa (SP), Ribeiro disse que não adianta ter diploma "porque não tem emprego".

“A fala do ministro não guarda relação com a realidade e com o país. Se não tem emprego, a responsabilidade é da política econômica adotada no Brasil, e não da disponibilidade de vagas nas universidades", diz Soraya Smaili, coordenadora Geral do Sou Ciência, Centro de Estudos, Sociedade, Universidade e Ciência.

Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, entende que o Brasil precisa aumentar o número de alunos nos dois lados do ensino: técnico e superior. "Vivemos atualmente o que alguns chamam de nova economia, e quem tem só competências muito básicas vem sendo substituído, numa velocidade sem precedentes, por máquinas", diz ela. Confira os depoimentos de todos os representantes que concordaram em repercutir com os leitores do caderno Trabalho&Formação sobre a fala do ministro de Educação.

Procurada, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) afirma, por meio da assessoria, que não vai comentar. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) responde que não trabalha com dados sobre emprego/desemprego e, portanto, não há um posicionamento sobre o tema em questão. A Universidade de Brasília (UnB) também prefere não se posicionar sobre o assunto.

O país precisa de mais universitários
A nossa posição é de que não há universitários suficiente no país. O Brasil está longe de atingir os parâmetros estabelecidos no Plano Nacional de Educação, elaborado há dez anos. A meta é dobrar o número de pessoas com acesso ao ensino superior até 2023. Estamos longe de alcançar esse objetivo. O ideal é o contrário, que cada vez mais, jovens de 18 a 24 anos façam faculdade.

A fala do ministro não guarda relação com a realidade e com o país. Se não tem emprego, a responsabilidade é da política econômica adotada no Brasil, e não da disponibilidade de vagas nas universidades.

A nossa posição é contrária à fala. O entendimento do Sou Ciência é de que, quanto mais tivermos a formação em nível superior, mais ocupações que exigem níveis especializados poderão ser preenchidas.

Muitos jovens querem acessar essas esferas da educação para ter trabalho e formações melhores. As faculdades particulares carecem de estudantes, e a população jovem não está mais conseguindo pagar por cursos superiores.

Educação gera oportunidades
Nós temos um percentual muito pequeno de estudantes indo para o ensino superior. Se a gente pegar os jovens ou adultos de 25 a 30 anos, menos de 20% têm graduação completa. É verdade que, nos últimos anos, tivemos uma inclusão, mas muito lenta e pequena. Embora esteja crescendo, nós não chegamos a nada parecido com países de renda média.

Nós temos, também, um percentual baixo de alunos que vão para o ensino técnico, cerca de 10%. Temos que aumentar o número de alunos nos dois lados do ensino: técnico e superior. Vivemos atualmente o que alguns chamam de nova economia, e quem tem só competências muito básicas, vem sendo substituído, numa velocidade sem precedentes, por máquinas.

Achar que não precisa de ensino superior e universidade para todos é complicado, mas, mais complicado ainda, foi a expressão utilizada pelo ministro, que, sim, a universidade tem sido para ‘filhinhos de papai’, porque eles pagam mais impostos. Isso me pareceu, particularmente, cruel, porque o sistema tributário é regressivo, quem mais paga imposto são os mais pobres, porque não tem como fugir dos tributos embutidos na compra.

Apagão de mão de obra
Neste momento, em que cada vez menos jovens buscam o diploma universitário, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) vê com preocupação o risco de apagão da mão de obra no futuro e, consequentemente, o agravamento da crise econômica que ronda o país há alguns anos.

Razão pela qual a associação continua defendendo a ampliação do acesso ao ensino superior e os incentivos à permanência dos jovens nas instituições. Isso é para que possamos, além de atingir as metas do Plano Nacional de Educação, promover a retomada necessária da economia pós-pandemia.

Precisamos de mais e melhores profissionais, assim como precisamos que os jovens cidadãos tenham acesso a uma cultura ampla e ao pensamento crítico. Para isso, a universidade tem um papel fundamental, que vai muito além da mera formação profissional para o mercado de trabalho.

Política desastrosa do governo
A União Nacional dos Estudantes (UNE) repudia veemente a fala do ministro da Educação, Milton Ribeiro. A escassez de empregos em nosso país é resultado de uma política desastrosa do governo federal, na qual o Ministério da Educação (MEC) tem colaborado.

O ministro da Educação, sempre com falas desconexas, e fora da realidade, demonstra que não tem capacidade técnica para estar à frente da instituição. Milton Ribeiro precisa sair do MEC o quanto antes, pois a UNE entende que sua permanência nada agrega à educação brasileira.

A educação é essencial, um direito básico para todos os brasileiros, e precisa ser universal, e não sofrer um processo de elitização como quer o ministro. Milton Ribeiro mirou no Financiamento Estudantil (Fies) ao desprezar o acesso ao ensino superior e acertou no Paulo Guedes quando usou a alta taxa de desemprego para justificar.

Longe da universalização do ensino superior
Dizer que não adianta ter diploma porque não se tem emprego é, no mínimo, um desconhecimento sobre a própria importância da escolarização e do acesso aos mais altos níveis de ensino, que é o caso da universidade, da pós-graduação. Atualmente, o Brasil está longe da universalização do ensino superior e, ainda que tenha avançado nas últimas décadas, tem muito para construir.

Investir nas universidades e no acesso a elas é o caminho para resolver um conjunto de mazelas sociais, que só é possível com uma sociedade cada vez mais escolarizada, diplomada, e com acesso aos maiores níveis de escolarização. Então, além de ser extremamente contraproducente, mostra um desconhecimento do próprio impacto que a universidade tem em termos de qualidade de vida, de avanço da vida na sociedade, de inovações, em termos de desenvolvimento cívico, social, político, econômico, entre outros.

A universidade, no caso brasileiro, está de braços dados com a ciência, então quanto mais a gente tem universidade, mais a gente tem diplomados e capacidade de avançar como país no domínio da ciência, da tecnologia, da qualidade de vida e de tantos outros indicadores que ainda são extremamente frágeis.

Projeto elitista e privatista
A fala do ministro da Educação teve vários pontos bastante graves. Um deles diz respeito a essa afirmação de que não adianta ter diploma universitário porque não tem emprego. O Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior repudia a fala do ministro e compreende que ela está conectada com o projeto de educação que esse governo tem, que é elitista, privatista e excludente.

Nesse sentido, é mais um incentivo para que pessoas, principalmente os filhos e filhas da classe trabalhadora, não procurem o ensino superior porque, na concepção deles, tem que ser para poucos. A questão de ter um diploma e emprego está vinculada à própria política econômica do governo, que tem feito diminuir, inclusive, a perspectiva de emprego e de concurso público para a nossa juventude.

Isso está conectado, também, à questão do empreendedorismo que eles tanto têm ressaltado. Que significa dizer que não adianta procurar o ensino superior porque as pessoas têm que se virar, fazer alguma coisa para ter um empreendimento uma vez que não há mais trabalho, não tem mais Previdência e nem educação pública para todos e todas.

Não há qualidade sem equidade
Estamos em um momento decisivo na educação brasileira, quando deveríamos estar discutindo a recuperação do aprendizado perdido durante a pandemia. O gap educacional será sentido ao longo de décadas na economia, podendo levar a uma perda de renda futura dos jovens de até R$ 40 mil por indivíduo, de acordo com simulações do Instituto Unibanco e Insper.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alertou que, para se beneficiar plenamente do crescimento econômico, o Brasil precisa melhorar a qualidade do ensino a partir do enfrentamento das desigualdades. Não há qualidade sem equidade. Ou estaremos fadados a ser um país sem capital humano, base para o desenvolvimento econômico.


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