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Universidades privadas mudam modelo de negócio e apostam mais no ensino à distância

22/07/2022 | Por: IstoÉ | 329

No início de julho, quando a maioria dos universitários iniciava o período de férias, estudantes da Uninove fizeram uma manifestação em São Paulo. A reivindicação era uma só: a volta ao ensino presencial. “Tenho medo de me formar e só ter feito ensino a distância”, desabafa Catherine Gelsomini, 21 anos, que cursa Jornalismo na instituição. Apesar de não ter ido ao protesto, ela endossa o pedido dos colegas. A aluna iniciou o curso em 2021 no formato remoto e não recebeu previsão das aulas presenciais. A Universidade Nove de Julho oferece o modo híbrido para estudantes de saúde, mas outros não tiveram sequer uma aula tradicional. “O online tem benefícios, apenas demonstramos o interesse no presencial”, reforça ela.

O pós-pandemia traz um período de transição para as universidades brasileiras, que aproveitam para reorganizar seu modelo de negócio. Quando a Covid-19 forçou o isolamento, o virtual foi a solução. Mas, agora, algumas faculdades seguem no online. Isso irrita pais e alunos, que questionam a opção firme pelo ensino a distância. Ao mesmo tempo, há questões como a redução de custos e ganho de escala. Além disso, entre 2020 e 2021, o número de docentes no ensino superior caiu 7,14%, com a saída de quase 30 mil profissionais, segundo o Ministério do Trabalho. Em Minas Gerais, faculdades perderam mais de 70% do quadro. É o que conta um professor de Direito da região, que prefere não ser identificado. Para ele, o remoto trouxe menor remuneração, trabalho em excesso e salas com mais de 150 alunos. “É uma matemática perversa para que se trabalhe mais. Eles aumentam o lucro e a gente ganha menos”, desabafa.

“O presencial é fundamental. Por melhor que seja o aluno e a formação dele, uma coisa é falar, outra é fazer” Gutenberg Barbosa, mestre em Novas Tecnologias de Informação e Comunicação.

No Rio de Janeiro, Gutenberg Barbosa, 60 anos, mestre em Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, vive os dois mundos do ensino superior. Atualmente, ele dá aulas na Faculdade Pinheiro Guimarães, que já retomou o presencial 100%. Mas foi dispensado de uma segunda universidade que lecionava. “A alegação foi de reformulação. Mas é claro que muita coisa está embutida, como o fato de um professor remoto atender o Brasil inteiro em vez de cada Estado, onde há um campus”, aponta. O EaD foi objeto de estudo dele em seu mestrado, por isso, ele não ignora as vantagens. “Mas o aluno sente falta da presença humana. O presencial é fundamental. Por melhor que seja o aluno e a formação dele, uma coisa é você falar, outra, fazer”, conclui.

Estruturar o negócio é o mote. Em São Paulo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie tinha o ensino a distância integrado em seu sistema antes da pandemia. Mesmo assim, a organização destaca que esforços foram inevitáveis diante da Covid-19. “Foi necessário um investimento em tecnologia”, diz Miriam Rodrigues, superintendente do Centro de Educação a Distância. Conciliar tradição com inovação resultou no retorno sem sobressaltos.

Sólon Caldas, diretor executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, destaca o lado financeiro da questão. “Ao contrário do que muitos pensam, as instituições tiveram que fazer um investimento alto em tecnologia, software e internet para colocar o formato virtual de pé”, afirma. “Esse modelo foi autorizado pelo Ministério da Educação e, provavelmente, terá continuidade. O Conselho Nacional de Educação está regulamentando a metodologia híbrida”, diz. “Nos últimos dez anos, o ensino a distância cresceu 428%, enquanto o presencial encolheu 13%. A pandemia contribuiu, mas é uma realidade que vem sendo constatada há alguns anos”, defende.

Para aprimorar a situação atual, é preciso acertos. “As instituições deveriam aproveitar tudo que aprenderam na pandemia para reorganizar e otimizar seus processos internos”, afirma Augusto Portugal, diretor da Foreducation EdTech, empresa de educação tecnológica. “As que estavam atentas a esta oportunidade e tinham fôlego operacional fizeram isso em variados graus. Por outro lado, algumas podem ter ‘andado para trás’. Com uma overdose do digital, estão agora se desintoxicando da tecnologia, o que é um retrocesso”, opina. Procurada pela reportagem, a Uninove preferiu não se manifestar.