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Discurso de Janguiê Diniz - 44 anos da ABMES

04/08/2026 | Por: ABMES | 66

É com grande alegria que recebo cada um de vocês neste momento especial de celebração de aniversário de 44 anos da nossa ABMES.

Amigos da educação superior brasileira, o que, afinal, celebramos quando uma instituição completa 44 anos?

Celebramos o tempo?

O tempo, por si só, não constitui uma conquista. Ele passa para todos. O que distingue uma trajetória relevante é aquilo que se constrói enquanto ele passa: os princípios preservados, os caminhos abertos, as pessoas reunidas em torno de um propósito e, sobretudo, a capacidade de continuar sendo necessária.

É isso que celebramos nesta manhã. Celebramos uma instituição que nasceu para representar a educação superior privada brasileira, mas que jamais limitou sua atuação à defesa de interesses circunstanciais.

Desde o início, a ABMES compreendeu que defender a educação superior brasileira é defender oportunidades, desenvolvimento, inovação e futuro.

Há instituições que apenas acompanham a história. Há outras que ajudam a escrevê-la. A ABMES escolheu ajudar a escrever a história da educação superior brasileira.

Quando foi criada, em 1982, o brasil atravessava um período de grandes mudanças. A redemocratização ainda era uma esperança em construção. O acesso ao ensino superior era restrito a uma parcela muito pequena dos brasileiros, e as instituições privadas enfrentavam desconfianças, limitações e um ambiente regulatório ainda pouco preparado para reconhecer a contribuição que poderiam oferecer ao país.

Foi nesse contexto que um grupo de educadores decidiu se unir. Não para assistir às transformações de longe, mas para participar delas. Sob a liderança do professor Cândido Mendes, nasceu uma associação disposta a dialogar, formular propostas e ocupar os espaços em que as decisões sobre a educação superior são tomadas.

A ABMES não nasceu grande. Nasceu necessária. E foi justamente por compreender a dimensão de sua missão que se tornou uma das mais respeitadas entidades representativas da educação brasileira.

Ao longo dessas mais de quatro décadas, governos mudaram. Leis foram aprovadas e revistas. Novos formatos de ensino surgiram. A tecnologia transformou a forma como vivemos, trabalhamos e aprendemos. O sistema de educação superior cresceu, diversificou-se e chegou a lugares onde antes parecia impossível manter uma faculdade.

A ABMES também mudou. Mas aquilo que lhe deu origem permaneceu: a coragem de defender convicções, a disposição para o diálogo e a capacidade de olhar para o futuro. Essas três características ajudam a explicar a nossa história.

Primeiro, a coragem. Foi preciso coragem para defender que a sociedade também deveria participar do esforço de ampliar o acesso à educação e que a livre iniciativa, submetida às exigências de qualidade e à regulação do poder público, poderia contribuir decisivamente para ampliar as oportunidades educacionais.

Ao longo dos grandes debates que moldaram a educação brasileira, da constituição de 1988 à lei de diretrizes e bases da educação nacional, a ABMES esteve presente, defendendo um sistema mais diverso, dinâmico e capaz de responder às transformações da sociedade.

Também participou das discussões que contribuíram para a consolidação dos centros universitários, permitindo que projetos educacionais comprometidos com a qualidade ganhassem autonomia, agilidade e maior capacidade de atender às necessidades de diferentes regiões do país.

Nada disso aconteceu por acaso. Foram conquistas construídas com persistência, conhecimento técnico e presença institucional.

A segunda característica que compõe a nossa história é o diálogo. A ABMES sempre soube que representar não significa apenas reivindicar. Significa ouvir, compreender diferenças, apresentar soluções e assumir responsabilidades. Essa postura esteve presente na construção e no aperfeiçoamento da cultura de avaliação da educação superior brasileira.

Quando novos instrumentos nacionais de avaliação começaram a ganhar espaço, a associação poderia ter escolhido simplesmente a resistência. Escolheu contribuir. Defendeu a avaliação como princípio, sem deixar de apontar falhas, combater distorções e exigir segurança jurídica.

Porque acreditar na qualidade significa também defender instrumentos tecnicamente consistentes, regras claras e processos capazes de produzir melhorias reais. Diálogo nunca significou concordância permanente.

Significou a capacidade de discordar sem romper pontes. De defender posições com firmeza sem abandonar o respeito institucional. De compreender que as melhores políticas públicas são construídas quando governo, instituições, especialistas e sociedade conseguem se ouvir.

Foi essa disposição para construir soluções que também esteve presente em momentos importantes de expansão e inclusão na educação superior brasileira.

Durante muito tempo, o país conviveu com duas realidades aparentemente inconciliáveis: de um lado, vagas disponíveis nas instituições particulares; de outro, milhões de jovens sem condições financeiras de ingressar na educação superior.

Políticas de acesso ajudaram a aproximar essas duas pontas.  Aquilo que antes era uma cadeira vazia pôde se transformar em oportunidade. Jovens que seriam os primeiros de suas famílias a entrar em uma faculdade passaram a ocupar salas de aula, receber diplomas e construir novas trajetórias.

Quando um estudante de baixa renda ingressa na educação superior, não é apenas a vida dele que muda. Muda a expectativa de uma família. Muda o horizonte de uma comunidade. Muda aquilo que as próximas gerações passam a acreditar ser possível.

É por isso que a defesa da educação superior nunca se resume à defesa de um setor. Ela é parte de um projeto de país. O brasil ainda está distante de assegurar a todos os seus jovens oportunidades educacionais compatíveis com seus talentos e sonhos.

As desigualdades sociais e regionais continuam imensas. Muitos estudantes ingressam, mas não conseguem permanecer. Outros sequer chegam a concluir o ensino médio. Para milhões de brasileiros, a graduação ainda é uma realidade distante.

Diante desse cenário, a ABMES sustenta uma convicção fundamental: ampliar o acesso e assegurar a qualidade não são objetivos incompatíveis. O país precisa de instituições fortes, responsáveis e comprometidas com a aprendizagem. Mas também precisa de financiamento estudantil, bolsas de estudo, políticas de permanência e condições para que a educação alcance aqueles que mais necessitam dela.

Não podemos permitir que a busca legítima pela qualidade se transforme em barreira à inclusão. Da mesma maneira, não podemos aceitar que a expansão ocorra sem compromisso acadêmico e responsabilidade social. Encontrar esse equilíbrio continua sendo um dos grandes desafios da educação brasileira e uma das missões da ABMES.

A terceira característica que define a nossa trajetória é a visão de futuro. Uma instituição não permanece relevante por 44 anos apenas porque construiu um legado. Permanece relevante porque não se torna prisioneira dele.

A ABMES respeita sua história, mas não vive de contemplá-la.

Enquanto preserva princípios, renova ferramentas.

Enquanto honra suas origens, prepara-se para novos desafios.

Hoje, a educação superior atravessa uma transformação tão profunda quanto aquela vivida pelo país no início da década de 1980.

A inteligência artificial, a automação e as tecnologias digitais alteram profissões, modelos de negócio, processos de gestão e formas de aprendizagem. Conhecimentos tornaram-se obsoletos com rapidez incomensurável. Novas competências são exigidas. 

Diante disso, a pergunta já não é apenas como ensinar. É como formar pessoas para um futuro que se transforma antes mesmo de conseguirmos descrevê-lo. E a resposta não virá da tecnologia isoladamente. Nenhuma ferramenta substitui a capacidade humana de refletir, criar, fazer escolhas éticas, compreender o outro e atribuir sentido ao conhecimento.

A inovação que defendemos não é aquela que simplesmente troca o antigo pelo novo. É aquela que amplia possibilidades, melhora decisões e coloca a tecnologia a serviço das pessoas.

É com essa compreensão que a ABMES vem fortalecendo sua capacidade de produzir conhecimento e oferecer soluções às instituições associadas.

A sofIA aproxima a inteligência artificial da educação e demonstra que é possível adotar novas tecnologias com responsabilidade e propósito.

O SIDDES transforma mais de uma década de estatísticas da educação superior em inteligência estratégica, porque dados isolados dizem pouco. É a capacidade de interpretá-los que nos permite compreender tendências, antecipar desafios e tomar decisões melhores.

A ABMES cursos contribui para a formação continuada de lideranças e equipes técnicas das instituições.

A ABMES editora registra reflexões, compartilha experiências e amplia a circulação de ideias fundamentais ao desenvolvimento do setor.

Nossos seminários mantêm aberto um espaço permanente de diálogo entre gestores, especialistas e autoridades públicas.

Pesquisas como o IASE ajudam a compreender o impacto da graduação na empregabilidade, na renda e na vida dos egressos, oferecendo evidências para um debate público que ainda se apoia, muitas vezes, em percepções superficiais.

E o prêmio ABMES de jornalismo, cuja cerimônia de premiação acontecerá logo mais, às 17 horas, neste auditório, reconhece profissionais da imprensa que tratam a educação superior com profundidade, responsabilidade e interesse público. Cada projeto tem características próprias.

Mas todos expressam a mesma escolha: a ABMES não quer apenas reagir às mudanças. Quer ajudar a compreendê-las e participar da construção das respostas.

Essa capacidade de se renovar não nasceu agora. Ela foi construída por gerações de dirigentes, associados e colaboradores. Por isso, nesta manhã de celebração, quero prestar uma homenagem especial aos presidentes que conduziram esta associação antes de mim.

Ao professor Cândido Mendes, fundador e primeiro presidente da ABMES, cuja visão e coragem lançaram os alicerces sobre os quais continuamos construindo.

Ao professor Édson Franco, que fortaleceu a interlocução institucional e conduziu a associação em um período decisivo para a consolidação da educação superior privada.

Ao professor Gabriel Mário Rodrigues, cuja inquietação intelectual, liderança e capacidade de articulação deixaram contribuições profundas para a educação brasileira.

E ao professor Celso Niskier, que liderou a ABMES durante um período de intensas transformações, ampliando sua presença, sua capacidade de inovação e sua participação nos grandes debates nacionais.

Cada um conduziu a associação a seu modo. Cada um enfrentou os desafios de seu tempo. E todos compreenderam que a ABMES deveria ser sempre maior do que uma gestão, uma liderança ou uma circunstância. Instituições sólidas são aquelas em que cada geração recebe um legado, cuida dele e o entrega ainda mais forte à geração seguinte.

É essa responsabilidade que hoje temos a honra de exercer.

Quero agradecer aos integrantes da diretoria e do conselho de administração, que compartilham conosco decisões, desafios e responsabilidades.

Agradeço às instituições mantenedoras e mantidas associadas, razão de existir desta entidade. É a confiança de cada instituição que nos dá legitimidade para representar o setor e força para continuar avançando.

Agradeço aos parceiros que caminham ao nosso lado, às autoridades que mantêm aberto ao diálogo institucional e a todos os que reconhecem na educação uma causa capaz de superar diferenças.

E quero dirigir uma palavra muito especial à equipe da ABMES. Por trás de cada evento, estudo, publicação, sistema, atendimento ou posicionamento institucional existem pessoas que cuidam dos detalhes, enfrentam dificuldades, encontram soluções e fazem esta associação funcionar. A cada colaboradora e colaborador, o meu reconhecimento e a minha gratidão. Vocês fazem parte da história que hoje celebramos.

E falar em história é, necessariamente, falar em pessoas. É com esse espírito que hoje entregaremos a comenda do mérito ABMES da educação superior.

Mais do que uma distinção honorífica, a comenda é uma manifestação de reconhecimento a personalidades que colocaram seu conhecimento, sua liderança e sua atuação pública a serviço da educação, da justiça, das instituições democráticas e do desenvolvimento do país.

Neste ano, temos a honra de homenagear:

Ministro Luiz Edson Fachin – Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF);

Ministro Luiz Philippe Vieira De Mello Filho – Presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST);

Ministro Luiz Alberto Gurgel de Faria – Membro do Superior Tribunal de Justiça (STJ);

José de Lima Ramos Pereira – Subprocurador-Geral do Trabalho da Procuradoria-Geral do Trabalho (PGT);

Maria do Carmo Cardoso – Desembargadora Federal Presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1);

Graziele Cabral – Juíza Titular do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região;

Teresa Leitão – Senadora da República e Líder do Governo no Senado Federal;

Silvio Costa Filho – Deputado Federal por Pernambuco;

Chaim Zaher – CEO do Grupo Seb (Sistema Educacional Brasileiro).

São trajetórias distintas, construídas no judiciário, no parlamento, no serviço público e na educação. Mas todas guardam um ponto de encontro: a compreensão de que instituições fortes e pessoas comprometidas são indispensáveis à construção de uma sociedade mais justa e próspera.

Ao homenagearmos esses ilustres brasileiros, reafirmamos também os valores que desejamos preservar: o respeito ao conhecimento. A responsabilidade pública. A defesa da democracia. O compromisso com a educação. E a disposição para servir a causas que ultrapassam interesses individuais.

Senhoras e senhores...

No início deste pronunciamento, perguntei o que celebramos quando uma instituição completa 44 anos.  Agora podemos responder: celebramos a coragem de quem decidiu criá-la. O trabalho de quem a consolidou. A confiança de quem escolheu caminhar ao seu lado. A dedicação de quem a constrói todos os dias. E a visão de quem sabe que ainda há muito a realizar.

Celebramos uma associação que não atravessou o tempo apenas preservando sua existência, mas renovando sua importância.

Uma associação que aprendeu com o passado sem perder a capacidade de imaginar o futuro. Que soube defender o setor sem se afastar dos interesses maiores da sociedade. Que transformou representação em diálogo, dados em conhecimento, desafios em propostas e convicções em conquistas.

A verdadeira grandeza de uma instituição não está apenas no que ela já realizou. Está naquilo que ainda é capaz de inspirar.

Daqui a muitos anos, outras pessoas estarão reunidas para celebrar novos aniversários da ABMES. Elas enfrentarão desafios que hoje nem conseguimos prever.

Utilizarão tecnologias que ainda não existem. Encontrarão uma educação superior diferente daquela que conhecemos. Contudo, espero que reconheçam nesta trajetória os mesmos valores que nos trouxeram até aqui. Que possam dizer que a nossa geração honrou aqueles que vieram antes.

Que não recuou diante das dificuldades. Que teve coragem para inovar sem abandonar princípios. Que escolheu o diálogo quando a polarização parecia mais fácil. Que defendeu a qualidade sem renunciar à inclusão. Que compreendeu que educação não é apenas uma política pública ou uma atividade econômica: é a esperança de todo um país. Uma força capaz de ampliar liberdades, transformar destinos e oferecer a cada pessoa a possibilidade de escrever uma história diferente.

Há 44 anos, a ABMES assumiu o compromisso de trabalhar por essa esperança. E é esse compromisso que renovamos nesta manhã. Com a educação superior. Com as mantenedoras que representamos. Com os mantenedores que as representam.  Com os estudantes que confiam nelas. E com o futuro do brasil.

Parabéns à ABMES pelos seus 44 anos.

Que Deus nos abençoe a todos.

Firmem o passo, peguem, o ritmo e sejam obstinados que dá!

Muito obrigado.


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