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Daniel Castanho, da Ânima: Como o vestibulando que zerou na Fuvest criou um império da educação

22/10/2021 | Por: Valor Econômico | 899

O ano era 1993. Mal saído da adolescência, Daniel Castanho prestava o vestibular para a Universidade de São Paulo (USP), disputando uma vaga para o curso de engenharia. O filho mais velho de Luiz Antônio e Vera Lúcia Castanho fora um bom aluno numa das unidades do Colégio Objetivo, que pertencia e era dirigida por seu pai. Tinha boas chances de passar, mas foi reprovado na prova de redação.

Castanho não recorda o tema. Mas, naquele ano, os candidatos foram convocados a dissertar sobre a complexidade humana, descrita por Machado de Assis (1839- 1908) no conto “A igreja do diabo”. O enunciado da prova destacava um trecho que aponta a “necessidade que o homem teria de regras que lhe digam o que fazer e como se comportar. Uma vez conseguido isso, ele passaria a violar secretamente as normas que tanto desejou”.

Em meio a uma gargalhada, Castanho lembra de sua “petulância juvenil” ao explicar que não se entusiasmou com o assunto. Resolveu escrever sobre Montesquieu (1689-1755), o filósofo iluminista francês que nos legou o sistema dos três poderes, consagrado na maioria das constituições democráticas. O candidato infringiu a regra número um da redação: desenvolver o tema proposto. Zerou. “Nem sei o que me passou pela cabeça”, recorda Castanho neste “À Mesa com o Valor”. “Mas foi minha primeira grande frustração.”

Castanho escolheu para a entrevista o Varanda Grill, nos Jardins, em São Paulo, restaurante que serve cortes de carnes nobres argentinas e dos EUA. Ao chegar, vestindo calça jeans, camisa branca e paletó, abre um sorriso quando encontra a reportagem. Enquanto pergunta onde deve se acomodar, já começa a falar sobre o restaurante do qual foi fundador e sócio. “Gosto muito daqui”, diz o empresário, que conhece o maître, o garçom e o pessoal da cozinha. “Esse é o Sylvio. Fala, meu querido!”, diz, enquanto nos apresenta ao dono, seu ex-sócio Sylvio Lazzarini.

Aos 46 anos, Castanho agora está à frente da Ânima Educação, do setor privado, que em dezembro de 2019, segundo o Índice Geral de Cursos (IGC), publicado pelo Ministério da Educação (MEC), tinha 83% das suas instituições consideradas acima da média. O IGC é calculado a partir da combinação de notas das provas do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) e da qualidade dos cursos e estruturas das faculdades. As notas vão de 1 a 5. São consideradas acima da média as que ganham 4 e 5.

Pedimos os pratos rapidamente. Ele não precisa consultar o cardápio. Tão logo o garçom se aproxima, Castanho faz as sugestões e nos recomenda “um pouquinho de cada coisa”. Na primeira rodada, vamos de “ribeye” (o “olho” da costela bovina: duas carnes separadas por uma camada de gordura).

Castanho afirma que aboliu o verbo comandar do vocabulário. “Essa estrutura comando-controle, hierarquizada, acabou”, diz. “A empresa que continuar assim vai deixar de existir.” Desde abril, quando o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deu o aval para a integração com a Laureate Brasil - um negócio de R$ 4,6 bilhões -, a Ânima se tornou o quarto maior grupo brasileiro em número de alunos e o terceiro em receita líquida.

É uma comunidade com mais de 350 mil pessoas, dos quais 330 mil são estudantes e 18 mil são educadores, distribuídos por 16 instituições de ensino superior. “Trabalhamos com ‘empoderamento’, confiança, autonomia e accountability [prestação de contas]. Todos sabem para onde vamos. Acredito nisso. É o oposto do comando-controle.”

Com a Laureate Brasil, a Ânima passou a agregar, entre outras, a Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, e a UniRitter, no Rio Grande do Sul. Elas se somaram à Universidade São Judas, instituição tradicional paulista; a Ebradi, de ciências jurídicas; a HSM University, de competências para o desenvolvimento profissional; a SingularityU Brazil, braço brasileiro da escola de inovação do Vale do Silício (EUA), e a Le Cordon Bleu, vinculada à escola internacional de gastronomia. O grupo está em 12 estados em quase 550 polos de ensino digital.

A vida estudantil de Castanho, por sua vez, foi agitada. Depois de “tomar bomba” no primeiro vestibular, foi aprovado para o curso de administração da Fundação Getulio Vargas (FGV). Depois, tentou de novo engenharia na USP. Aprovado, fez os dois cursos em paralelo. Nesse meio tempo, ainda cursou publicidade na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). “Era tanta coisa que, na aula de arte, por exemplo, eu estudava cálculo para a prova na engenharia no dia seguinte. Não tinha tempo a perder.”

Castanho se formou em administração - largou a engenharia no quinto ano. Ele e seus sócios Marcelo Bueno e Maurício Escobar, amigos desde os tempos da FGV, fundaram a Ânima Educação em 2003. Tinham em comum o gosto por desafios e negócios em áreas diversificadas. Em anos anteriores já haviam investido em restaurantes, serviços de consultoria e empresas pontocom. “Quando a bolha da internet estourou, nós quebramos. Quando nos recuperamos, entramos numa empresa de promoções, tentamos comprar o jornal ‘Gazeta Mercantil’ e a TV Manchete, mas não deu certo.”

Foi então que o grupo, ao qual se somou o executivo Gabriel Ribeiro, buscou um novo caminho. Castanho - que acompanhava o setor de educação em casa, desde a adolescência - achou que esse poderia ser o rumo. “Tínhamos um time de pessoas incríveis trabalhando conosco, e o setor de educação estava sofrendo uma enorme transformação.” As mudanças que ocorreram no setor privado de educação haviam ganhado fôlego a partir de 1996, quando foi aprovada uma lei permitindo que as instituições particulares de ensino superior tivessem fins lucrativos. O setor também cresceu alavancado no programa de crédito universitário do governo federal, o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), que teve um boom entre 2010 e 2016.

O restaurante vai enchendo, guardados os protocolos de prevenção da covid-19. Na segunda rodada, o empresário pede o New York Steak (uma versão do bife de chorizo argentino) e um Tenderloin (filé-mignon). Só não mudam os acompanhamentos: arroz biro biro, batata suflê, salada, palmito assado e farofa.

Castanho e os sócios entraram em um mercado que, em uma década, dobraria de tamanho. “Pensei: vamos entrar. Compramos a Una em BH [que, segundo o empresário, tinha dívidas]”, diz. “Deu sorte, trabalhamos como uns malucos, conseguimos salvar aquela escola.”

Ainda hoje ele vibra quando conta como foi feita uma das primeiras aquisições do grupo, Unimonte, de Santos. “Depois que a compra tinha sido acertada, recebemos uma ligação em que a proprietária e os dois filhos nos diziam que queriam fazer uma última tentativa de levantar a faculdade antes de vender.” No dia seguinte, Castanho pediu uma última reunião.