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Em 70 anos, Israel se ergueu sobre tradições culturais e guerras com vizinhos

14/05/2018 | Por: O Globo | 23
Pablo Jacob/Agência Globo

"Uma terra sem povo para um povo sem terra." Foi com este lema que, nos séculos XIX e XX, a mobilização internacional sionista guiou a busca pelo estabelecimento de uma pátria judaica na Palestina. Numa história de guerras brutais e fracassadas tentativas de paz com a população árabe que existia na região, o Estado de Israel, cuja criação completa 70 anos neste 14 de maio, construiu-se em poucas décadas como uma nação heterogênea, em que as tradições culturais do passado e o poder militar do presente se misturam constantemente com a vontade de olhar para o futuro. Em viagem pelo país, O GLOBO percorreu alguns dos cenários que revelam os símbolos por trás deste pequeno território que, menor do que o estado do Sergipe, foi capaz de atrair olhares e suscitar emoções de todo o mundo.

Tel Aviv, oásis de progressismo no Oriente Médio

Hoje mundialmente conhecida como um centro financeiro cosmopolita e protagonista no salto do progressismo no Oriente Médio, Tel Aviv deixa transparecer nas suas ruas residenciais o idealismo socialista que, à época da sua fundação, em 1909, as primeiras gerações de imigrantes judeus levavam à então Palestina. Os prédios seguem o mesmo padrão: baixos, de tom bege quase acinzentado, com poucos apartamentos e painéis solares nos telhados. Hoje entre as mais caras do mundo, a cidade foi uma das primeiras a serem colonizadas entre os séculos XVI e XX, inicialmente como um bairro adjacente à árabe Jaffa, e idealizada como obra-prima dos ideais do Yishuv, a comunidade judaica que ali se assentou.

Hoje, gente de todas as idades faz exercícios no calçadão à beira-mar, enquanto, a apenas três quilômetros, os arranha-céus de última geração preenchem a atmosfera com uma ambiciosa imponência de poder e tecnologia. Mas o clima leve não apaga as tensões do conflito árabe-israelense, cuja primeira guerra, em 1948, começou em 15 de maio, um dia após a criação do Estado de Israel. No coração do centro financeiro, perto do atual prédio dos escritórios do Facebook, está parte do sistema antimísseis utilizado quase diariamente em 2014, quando Israel travou a sua última guerra contra o Hamas, que governa a Faixa de Gaza.

— A tecnologia convive com a sociedade de maneira que trabalhávamos sabendo que havia mísseis correndo por aqui. Era algo meio surrealista — disse ao GLOBO o argentino Gerardo Tyszberowicz, executivo do IDB, o maior grupo financeiro de Israel, cuja sede localiza-se na mesma área. — Cerca de 80% do Produto Interno Bruto do país está no centro, o que cria um problema. Um conflito pode destruir tudo e, por isso, é importante pensar na descentralização da economia.

Por precaução, todas as casas obrigatoriamente têm bunkers, em que os moradores se protegem em caso de alerta de possível ataque. E, na praça Rabin, em frente à prefeitura, a homenagem ao primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, ali assassinado por um extremista judeu em 1995, pouco após os avanços do Acordo de Oslo, até hoje atrai turistas e curiosos. As históricas negociações marcaram a primeira vez em que palestinos e israelenses se sentaram frente a frente para negociar, numa conjuntura pós-Guerra Fria, em que a Nova Ordem Mundial incentivava o multilateralismo e a globalização.

Do Partido Trabalhista, Rabin foi o primeiro a romper a barreira do diálogo com a Organização Para a Libertação Palestina (OLP), presidida por Yasser Arafat e até então considerada terrorista. Os resultados de Oslo, por um lado, dividiram as águas no conflito árabe-israelense, pois levaram à criação da Autoridade Palestina, com o objetivo de mantê-la em status de negociação permanente para a criação de um Estado até julho de 1997, algo que até hoje não ocorreu. Por outro, não conseguiram, de fato, cumprir o seu objetivo maior de solucionar o impasse entre os dois lados, uma vez, que, frente a cada sinal ou tentativa de avanço que os seguia, incidentes de violência e terrorismo, como a morte do premier e a Segunda Intifada, freavam a trajetória de negociações.

Do fervoroso centro urbano de Tel Aviv, bastam alguns minutos a mais numa viagem de carro — pela qual se veem judeus de todos os níveis de ortodoxia — para chegar à amena porção árabe de Jaffa, onde ressoam das mesquitas entre vielas de pedra os chamados para oração. Mas, se a arquitetura tem vestígios do passado, o clima geral nas ruas da cidade é de futuro. O trânsito beira o caótico, com mais de 500 mil carros entrando na cidade por dia, no meio dos restaurantes e barzinhos — muitos só de comida vegana e sem glúten, ou então com o estilo minimalista moderno — que tomam as calçadas, junto com a popular nova moda das bicicletas elétricas.

Cidade-satélite para vários pequenos distritos — em toda a sua extensa área metropolitana, chamada de Gush Dan, vivem 3,5 milhões de pessoas, ou seja, 42% da população total de Israel —, Tel Aviv também já virou um internacional destino gay friendly. Segundo Roy Rosenblatt-Nir, ativista social e ex-cônsul de Israel para assuntos econômicos em São Paulo, virtualmente não há intolerância hoje na cidade:

— A aceitação da comunidade LGBT foi muito afetada pela percepção de que os gays estão associados à família, um conceito culturalmente muito importante aqui. O preconceito é muito raro. Claro que ainda acontece em cidades religiosas, mas estas são as exceções. Vivo aqui há quatro anos e os meus filhos nunca sofreram nada de ruim por terem dois pais — contou ele.

Jerusalém, coração religioso e mosaico étnico

Uma viagem de 70 quilômetros a partir de Tel Aviv leva à histórica Jerusalém, geográfica e simbolicamente uma cidade das alturas. Construída e derrubada diversas vezes ao longo de séculos, está a 760 metros de altitude e no centro da disputa entre israelenses e palestinos, que reivindicam seu setor oriental como capital. O seu mosaico de etnias se faz especialmente claro na Cidade Velha, área de cerca de um quilômetro quadrado, que, cercada por muros do século XVI, abriga tesouros milenares das civilizações judaica, árabe e cristã dentro de Jerusalém Oriental.

Caminhar pelas vielas sinuosas e escorregadias é toda hora esbarrar nas sucessivas experiências sensoriais, por meio do perfume de incensos, carnes e temperos do mercado árabe, o shuk. Os andares superiores das construções são as casas de cerca de 40 mil pessoas, incluindo judeus, árabes, cristãos e armênios, com bairros distintos lado a lado, sob forte vigilância de soldados israelenses. Mesmo não sendo das classes mais abastadas, os moradores não vendem as residências, pelo seu inestimável valor histórico e religioso, alvo da curiosidade de turistas — só no ano passado, estiveram lá 78% do recorde de 3,6 milhões recebidos em todo o país.

Até no início da madrugada, fieis rezam e recitam o Livro dos Salmos no Muro das Lamentações — hoje, é o lugar mais próximo do Monte do Templo (onde, há dois milênios, ficava o Templo de Herodes) em que os judeus podem rezar. O mesmo local, no entanto, para os muçulmanos é a Esplanada das Mesquitas, que abriga o Domo da Rocha e a mesquita de al-Aqsa. Do muro, se veem os seguidores do Islã se dirigirem ao seu terceiro local mais sagrado, cujo horário de visitação é restrito para não muçulmanos, a menos que estejam na condição de turistas, o que significa que é proibido para outras religiões rezar ali. As restrições tentam, nem sempre com sucesso, evitar atritos naquela que, em hebraico, é conhecida como "Cidade da Paz" e, em árabe, "A Sagrada".

— Vê as pessoas subindo ali? Não temos este acesso, mesmo sendo a cidade da nossa religião. Somos judeus e deveríamos poder ir até lá — diz, no Muro das Lamentações, aos pés do acesso à Esplanada das Mesquitas, Yonathan Michael, que vive no Reino Unido e três vezes ao ano visita Jerusalém, onde mora sua família.

Entre todos os locais religiosos, no entanto, o que há em comum são os fiéis emocionados. Como o católico mexicano Miguel Miranda Telles, acompanhado de Emelia Zavala Méndez, com quem é casado há 44 anos. Os dois programaram a viagem a Jerusalém por três anos e cruzaram o mundo para, finalmente, realizar o antigo sonho de conhecer a Basílica do Santo Sepulcro, onde Jesus teria sido crucificado e está o seu túmulo.

— É uma emoção muito grande. Somos católicos e nunca pensei que poderia estar onde Cristo morreu — disse Miranda Telles, às lágrimas e com a voz embargada, após visitar a igreja, última etapa da Via Dolorosa, pela qual Jesus teria passado antes de ser crucificado, segundo a tradição cristã.

Os palestinos querem ver Jerusalém Oriental, de maioria árabe e até a Guerra dos Seis Dias, em 1967, controlada pela Jordânia, como capital de um futuro Estado próprio, enquanto Israel considera que a cidade é sua capital indivisível. No ano passado, o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel pelo presidente dos EUA, Donald Trump, fez aumentar os temores de que este barril de pólvora explodisse numa nova onda de conflitos, apesar da aparente convivência harmônica.

Permanece, no entanto, a frágil estabilidade, em que se sente a tensão no ar a todo instante, como quando um árabe passa entre ultra ortodoxos gritando insultos, ou soldados fora de serviço caminham por ruas boêmias carregando armas de grande porte. As maiorias dos dois lados, num processo de paz estagnado, na verdade já não têm mais fôlego para as consequências de mais violência política. Atualmente, cerca de 40% da população de Jerusalém é árabe, 35% são judeus ultra ortodoxos e 25% são seculares ou ortodoxos, seguindo com menos rigor as tradições religiosas e mais próximos à cultura contemporânea ocidental.

Kibbutz, símbolo da utopia socialista

Idealizada como terra de libertação para os judeus, após terem sofrido repetidas perseguições ao longo da História, Israel foi inicialmente projetada para corresponder à utopia socialista da burguesia jovem e trabalhadora europeia. A partir de 1909, começaram a surgir nas zonas rurais os primeiros kibbutzim (plural da palavra kibbutz), fazendas comunitárias voltadas à agricultura de subsistência e sem divisão de propriedade privada, onde todas as decisões eram coletivas. O modelo até hoje resiste, embora em quantidade e parâmetros diversos, refletindo a herança das primeiras gerações a completarem a aliyah, como é chamada a imigração dos judeus à região.

Na teoria, cada membro disponibiliza mensalmente o seu pagamento à gestão central do kibbutz para que, depois, todos recebam o mesmo valor, independentemente de quanto haviam contribuído ao orçamento coletivo. O objetivo, desde o início do século XX, era evitar organizações de trabalho potencialmente exploratórias e a concentração agrária, concedendo aos judeus a autonomia para acabar com a tradicional dependência que marcara a sua diáspora ao longo dos séculos anteriores. A grande influência do socialismo utópico fomentou o ideal de separação total da economia árabe, num dos primeiros passos em direção ao caminho de disputas territoriais e desigualdades que, até hoje, se prolonga no conflito entre israelenses e palestinos.

A cerca de oito quilômetros da fronteira com a Faixa de Gaza, encontra-se o kibbutz Bror Hayil, administrado por brasileiros, onde uma das atividades é a produção de pão de queijo. E, vizinho ao dos brasileiros, está o argentino Or Haner. Uma das suas fundadoras foi Judith Bartov, hoje com 85 anos e originária de Buenos Aires. Chegada em Israel aos 19 anos, parte de um grupo de jovens sionistas, viu a comunidade mudar ao longo de 60 anos, mas nunca abandonou o estilo de vida. Até hoje, os seus descendentes fincam raízes ali — o seu neto, ainda bebê, vai crescer na comunidade.

— Em 1948, quando houve a independência de Israel, toda a juventude quis aderir ao movimento de construção do país e veio para cá. Começamos do zero, éramos cerca de 100 pessoas, muitos com filhos pequenos, como a minha, que tinha 3 anos. No começo, foi muito difícil, às vezes mal havia o que comer — diz Judith.

Hoje, a realidade é bem diferente daquela idealizada pelos pioneiros. Menos de 150 mil pessoas, abaixo de 2% da população, vivem em cerca de 270 kibbutzim. Os princípios de coletividade resistem, porém a vasta maioria já está privatizada, num processo iniciado nos anos 1970 e 1980, enquanto o movimento entrava em crise.As atividades já são diversificadas, passando pela produção industrial e também por serviços de modestos restaurantes de comida caseira para turistas e curiosos. Hoje, algumas jovens famílias voltam a procurar o kibbutz para uma vida mais barata e bucólica.

A passagem entre as gerações, no entanto, é permeada de questionamentos: os mais jovens não entendem como os seus pais concordavam com o modelo dos berçárioscomuns. Não raro, os bebês tinham apenas poucas horas ao dia com os pais e, tradicionalmente, já começavam a trabalhar cedo. Hoje, muitos destes filhos, já crescidos, dizem que o pouco contato familiar deixou traumas na sua memória.

— Era muito difícil. Mas cada coisa deve ser julgada de acordo com o seu tempo. Vivíamos em casas muito pequeninas, onde não havia espaço para berços — diz Judith.

Massada e Mar Morto, um memorial no deserto

No meio do deserto da Judeia, um conjunto de ruínas no topo da montanha — perdido, se não fossem pelos turistas — é um símbolo milenar para o nacionalismo sionista. Construída pelo rei Herodes e ocupada por rebeldes judeus, a Fortaleza de Massada foi palco de uma lendária disputa contra o poderoso Exército romano. Lá no alto, munidos de cisternas, centenas de judeus teriam resistido durante meses até que, prestes a serem capturados pelos inimigos, teriam cometido um suicídio coletivo para evitar se tornar escravos de outro povo e serem forçados a perder sua identidade.

Embora a história tenha ocorrido perto do ano 74, até hoje marca o imaginário do heroísmo judaico na luta pela sua terra. "Massada nunca mais cairá" é lema ainda repetido pelos sionistas mais fervorosos, quando o assunto é a relação hostil entre o governo de Israel, os palestinos e os vizinhos árabes. A fortaleza, na contemporaneidade, já serviu diversas vezes para a juramentação de soldados israelenses e trilhas de movimentos juvenis judaicos.

As estradas que cercam Massada e o Mar Morto, de onde os turistas e as famílias israelenses de férias flutuam avistando as montanhas da Jordânia, também guardaram por séculos um tesouro, achado acidentalmente por beduínos em 1947: manuscritos milenares enrolados dentro de um jarro, que haviam sobrevivido numa caverna desértica de difícil acesso. Depois de muitas reviravoltas e descuidos dos andarilhos, que desconheciam o valor histórico daquelas peças que carregavam em caixas de cigarros pelo caminho, os textos acabaram vendidos para acadêmicos por preços irrisórios.

Hoje, cerca de 1 mil manuscritos e 25 mil fragmentos — alguns com até menos de um centímetro — são armazenados pela Autoridade de Antiguidades de Israel, em Jerusalém, com meticuloso cuidado, num local preparado para, em caso de ataque, submergir para baixo da terra. Nos últimos 25 anos, cerca de 35% do acervo já foram tratados, e 80% já estão disponíveis numa biblioteca digital, para acesso livre de qualquer internauta. Num país onde a inovação e o desenvolvimento são regra, o processo de digitalização conta com tecnologia de ponta, que dispensa a manipulação humana de arquivos calcificados.

— Temos a responsabilidade de conservar estes manuscritos para as próximas gerações e por pelo menos mais 2 mil anos — explica a espanhola Beatriz Riestra, pesquisadora e coordenadora de projetos relacionados aos manuscritos. — A Israel de tempos antigos é também está de novas tecnologias.

Desde a primeira descoberta, operações de busca por mais arquivos prosseguem em toda a região — os últimos foram encontrados em 1962, mas os pesquisadores acreditam que podem estar próximos de novos achados. Muitos trechos revelam importantes trechos de literatura religiosa, incluindo manuscritos do Antigo Testamento, e textos até então desconhecidos sobre costumes e tradições dos judeus antigos. E outras coleções incluem curiosidades que mostram a vida desde o século VII a.C., como documentos administrativos, contracheques registrando deduções e um comprovante de entrega de vinhos — neste, encontra-se a mais antiga menção a Jerusalém já encontrada fora da Bíblia.


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